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Conta-me como foi da bola. A primeira alegria do futuro Sir Alex
Desporto 7 min. 22.12.2020

Conta-me como foi da bola. A primeira alegria do futuro Sir Alex

Conta-me como foi da bola. A primeira alegria do futuro Sir Alex

Photo: AFP
Desporto 7 min. 22.12.2020

Conta-me como foi da bola. A primeira alegria do futuro Sir Alex

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Há 61 anos, Alex Ferguson é o primeiro jogador de sempre a marcar três golos ao Rangers.

Eusébio ainda joga no Sporting (o de Lourenço Marques, não o de Lisboa) e Pinto da Costa é só mais um trabalhador (do BPA, Banco Português Atlântico, não do FC Porto). A história já tem 61 anos e Alex Ferguson já anda por aí a dar que falar.

A 27 Dezembro 1959, Alex só tem 17 anos e era um avançado do Queen’s Park FC, o clube escocês mais antigo da história, fundado em 1867, e o único das quatro divisões escocesas a manter o registo de amador nos tempos correntes, reflectido nas sábias palavras em latim no seu escudo, Ludere causa ludendi – jogar pelo prazer de jogar. Curiosamente, prazer é coisa que Alex não revê no seu futebol nem na sua equipa.

“O meu mundo estava vazio. Tudo o que sonhei ameaçava desmoronar-se a qualquer momento”, escreve Ferguson na sua autobiografia. Como se disse, estávamos em 1959 e era dia de jornada na 1.ª divisão escocesa. “Já estava farto de não me impor na equipa principal e de jogar pelas reservas desde que recuperara de uma lesão. Nos dois jogos em que participei, a desilusão psicológica era bem maior que a física, porque apanhámos duas tareias monumentais: 10-1 do Celtic e 11-2 do Dunfermline. Por isso, naquela manhã de 20 Dezembro, uma sexta-feira, decidi nunca mais jogar pelas reservas, o que implicaria falhar o jogo seguinte com o Rangers, o meu clube de coração. Daí que, seis dias depois, tenha pedido à Joan Parker, namorada do meu irmão, que telefonasse ao Bobby Brown [treinador do Queen’s Park], fazendo-se passar pela minha mãe, a dizer-lhe que estava com gripe.”

 (…)

“No final dessa sexta-feira já estava cá com uns remorsos por ter usado a Joan. Mas isso não foi nada comparado com o que vi quando cheguei a casa dos meus pais. Os remorsos passaram para segundo plano. O meu pai estava com aquela cara de mau mas nem sequer foi ele que me deu o raspanete à frente de todos os meus irmãos e respectivas namoradas. Surpreendentemente, foi a minha mãe que usou da palavra e ainda me atirou à cara um telegrama de Bobby Brown que dizia simplesmente isto: ‘Telefona-me imediatamente.’ ‘O que é que eu faço?’, perguntei na direcção da minha mãe. Mas aí foi o meu pai que tomou as rédeas da conversa: ‘Agora vais à cabina telefónica mais próxima, ligas ao teu treinador e pedes-lhe desculpa senão nunca mais voltas a pôr os pés cá em casa.’”

 (…)

 “Assim foi, e ainda hoje me lembro onde vivia o Bobby Brown (Stanley, 267), porque tive de pedir à telefonista que me fizesse a ligação. Quando ele percebeu quem estava a falar só me disse isto: ‘Como é que podes fazer-me isto na véspera de um jogo importante? Sei perfeitamente que aquela não era a tua mãe e tenho cinco jogadores com gripe de verdade. Aparece no Hotel Buchanan ao meio-dia para a concentração. O jogo é às três.’ Okay, o telefonema correu bem, pensei eu. Não levei um raspanete por aí além, não levei multa nem fiquei suspenso. E ainda ganhei, ou parece que ganhei, um lugar na equipa principal para um jogo no campo do Rangers. A caminho de casa fiz todo o esforço para esconder aquele sorriso maroto de contentamento, de triunfo. Em casa nem foi preciso esforçar-me, porque os meus pais ainda estavam incomodados e irritados com a situação. Seguiu-se um interrogatório interminável. Só parou quando fui para a cama.’

 (…)

‘No dia seguinte acordei aliviado e bem-disposto. O meu pai não. Quando o convidei para ir ver o jogo, ele respondeu ‘talvez’, de forma seca. Bem, saí de casa, fui ao banco, onde levantei 80 libras para comprar um casaco já encomendado num alfaiate que conhecia bem, fui para o Hotel Buchanan e lá percebi que ia ser titular. Dois bilhetes extras garantiam-me automaticamente um lugar no onze. À entrada para Ibrox [estádio do Rangers] fiquei espantado ao ver o meu pai, acompanhado por um outro senhor, que era, nem mais nem menos, o dono do banco. Ao que parece, um dos empregados tinha entregado mal as contas e ele teve de passar o sábado atrás de todos os clientes que levantaram dinheiro naquele dia. Eu fui um deles, mas dessa vez não foi nada comigo. Resolvido esse problema, fiquei sozinho com o meu pai. Após um longo silêncio, atirei-lhe: ‘Tenho aqui dois bilhetes. Quer aproveitar?’ Ele respondeu: ‘Talvez sim, não tenho mais nada que fazer.’ Aquilo satisfez-me imenso. Ninguém imagina.”

 (…)

“O que aconteceu naquela tarde em Ibrox só pode aparecer na categoria dos milagres: fiz um hat-trick, o primeiro jogador a fazê-lo ao Rangers, em Ibrox. Foi até a primeira vitória do Queen’s Park FC lá. Um rapaz da terra [de Glasgow], nascido e criado a 200 metros daquele estádio, marcou três golos ao Rangers, a equipa da sua vida – não há palavras para descrever isto. Do jogo em si lembro-me perfeitamente. Ao intervalo perdíamos por 1-0, golo de George McLean. Nesses tempos o treinador não ia para o balneário dar sermões ou motivar os jogadores. Essa parte pertencia aos jogadores mais velhos, como Ron McKinven, Jim Little e Jimmy Walker, que diziam aos mais novos, como eu, que tivéssemos esperança num resultado positivo. Eu, miúdo, acreditei naquelas palavras. E senti-me bem, extraordinariamente bem. Entrei no campo com vontade de fazer uma série de coisas. Logo no início da segunda parte já estava a dar tanto trabalho ao matulão Ronnie McKinnon que já era obrigado a agarrar-me na camisola e nos calções. Aí pensei que podíamos fazer história. Na jogada seguinte fiz o golo do empate. Primeiro rematei com o pé direito, mas a bola bateu na ponta do pé do McKinnon e ressaltou para mim, que fiz a recarga com o esquerdo. O delirante 2-1 chegou dez minutos depois, quando aproveitei uma defesa incompleta de Bill Ritchie. Incrível. Soberbo. E atirei à trave. Mas o Rangers, como sempre, e sem se saber muito bem como, fez o empate a dois. A 12 minutos do fim desferimos o golpe fatal: após uma confusão na área, rematei para a baliza deserta. Estava feito o 3-2 e até podia ter acabado de outra maneira se outro remate meu não tivesse ido à trave. Mas os três golos já estavam bem. No balneário, um dos seniores do Queen’s virou-se para mim e perguntou-me: ‘Apercebeste-te de que hoje fizeste história?’”

 (…)

“Tomei banho e fui para casa, a 200 metros do estádio do Rangers, por uma rua secundária, onde um jornalista, Joe Hamilton de seu nome, do “Daily Express”, obteve a minha única declaração desse dia glorioso. Em casa, a minha mãe estava empolgadíssima com o meu feito. O meu pai estava sentado no sofá, a ler o jornal. Quando lhe perguntei o que tinha achado do jogo, ele respondeu: ‘Okay. O que é que te disse sobre chutares à baliza, eh? Se não rematares, não marcas.’ Não sei quantas vezes ouvi isso em toda a minha vida.”

 

O resto é sabido. Ou talvez não. Alex Ferguson ainda joga no St. Johnstone, no Dunfermline, no Rangers, no Falkirk e no Ayr United. É bicampeão escocês da segunda divisão, em 1963 (St. Johnstone) e 1970 (Falkirk). E contabiliza 214 golos nas divisões escocesas – sagrou-se melhor marcador em 1966, com 31, pelo Dunfermline. Em Junho 1974, Alex Ferguson pendura as chuteiras e começou a carreira de treinador. E aqui sim, o resto é história. Dos mais de 50 títulos, duas Taças dos Campeões pelo Manchester United. Tantas como as do Benfica de Eusébio (sim, ele só jogou de verde e branco em Moçambique) e as do FC Porto de Pinto da Costa (não, nenhuma pelo BPA).

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