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Conta-me como foi da bola. A notável campanha de Portugal na Minicopa-72
Desporto 6 min. 08.07.2020

Conta-me como foi da bola. A notável campanha de Portugal na Minicopa-72

Conta-me como foi da bola. A notável campanha de Portugal na Minicopa-72

Desporto 6 min. 08.07.2020

Conta-me como foi da bola. A notável campanha de Portugal na Minicopa-72

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A festa dos 150 anos de independência do Brasil resulta num torneio em que a seleção chega invencível à final.

O ano de 1972 está assinalado a letras de outro na história do futebol português pela brilhante carreira subscrita pela nossa seleção no Torneio dos 150 anos da independência do Brasil, alcunhado de Minicopa. A ideia inicial é fazer um mini-Mundial. O problema é a nega de alguns campeões como Inglaterra e Itália, com os inadiáveis afazeres domésticos. Adiante, a Minicopa é um sonho tornado realidade e Portugal embarca na aventura.

A sua caminhada prima pela regularidade e entusiasma qualquer um, no outro lado do Atlântico. O início é prometedor, com 3:0 ao Equador, à conta de uma exibição imparável de Toni. O craque saloio, como é conhecido nos futebóis, participa ativamente nos três golos, com assistências para Eusébio e Nené, sem esquecer o lançamento longo na direção de Peres, cujo amortie é concluído facilmente por Dinis à boca da baliza. Está dado o mote para um torneio em grande.

Segue-se o Irão. Pim pam pum, outro 3:0. Aí está a segunda vitória seguida na Minicopa sem um pingo de dificuldade. A fragilidade do Irão é por demais evidente e Portugal nem força o ritmo por aí além, com 2-0 à meia-hora. De Natal para Recife, o 4-2-4 de José Augusto joga maravilhas e recreia-se com a bola entre todos os sectores, o que dá a ideia (correta) de união. Eusébio abre a conta e Dinis aumenta a vantagem em recarga a uma bola à barra de Peres, a 25 metros da baliza de Hedjazy. O 3:0 é do central Humberto Coelho, na sequência de um canto. No quadradinho anterior, Laranjeira fizera o mesmo gesto técnico do seu companheiro de defesa, só que a bola embate no poste. Do outro lado, nada a registar. Kalani, que marcara à Irlanda na primeira jornada, passa ao lado do jogo e José Henrique desconhece a sua alcunha de torpedo pela potência dos remates.

Venha de lá o Chile. Com o tempo de três minutos, 42 segundos e oito décimos na pista da FNAT, Fernando Mamede não só garante o recorde nacional dos 1500 metros como se qualifica para os Jogos Olímpicos Mundial-72. O dia continua risonho para as nossas cores, com o inequívoco 4:1 sobre o Chile na terceira vitória em outros tantos jogos da fase de grupos da Minicopa. O abre-latas é o central Humberto Coelho, numa saltada até à área contrária. Mais golos só na segunda parte. Uma chuva de golos, aliás. A condizer com as condições atmosféricas em Recife. Mais uma vez, Dinis e Eusébio entendem-se de olhos fechados faturam. Pobre Vallejas. Antes, José Henrique sofre o primeiro golo do torneio. E evita um ou outro. Pormenor: com a saída de Dinis aos 67 minutos, o sportinguista Peres é o único não-benfiquista nos últimos 23’.

Na última jornada da fase de grupos, Portugal acumula a quarta vitória em outros tantos jogos (2:1 à Irlanda). É a única seleção a fazê-lo. Nem Brasil nem Argentina nem Jugoslávia, só nós. E debaixo de um coro de assobios do público pernambucano, a cada toque de bola de Eusébio. O jogo resolve-se em três minutos apenas, com a categoria superior de Peres, o único não-benfiquista no onze de José Augusto. É dele o 1-0 num esplêndido remate a 35 metros da baliza de Kelly e é também dele o passe de 40 metros para a desmarcação de Nené. Solto, o avançado corre e faz um belo lençol à saída do keeper. A bola vai ao meio e dá-se o golo irlandês, sem hipótese para José Henrique. Que seria substituído por Mourinho, a nove minutos do fim. Na chegada ao hotel, o guarda-redes belenense faz uma chamada intercontinental para Setúbal. A sua mulher aguarda-a para saber de novidades sobre a estreia.

Avançamos para a segunda fase de grupos. O peso do futebol argentino é enorme e impõe respeito a qualquer adversário. Que o diga Portugal, com um empate e quatro derrotas em cinco jogos. Ao sexto é de vez? E que vez, chiça. Acaba 3:1, fes-ti-val. Uma exibição do outro no melhor palco possível (Maracanã) reforça a ilusão de um conjunto de jogadores fenomenais, liderados pela estonteante dupla de avançados Eusébio-Dinis. A química é impressionante. Se juntarmos Jordão, está o caldo entornado. É verdade que não marca, só que atira uma bola ao poste aos 5’ e outra à barra, aos 87’. A Argentina passa um mau bocado e nem sabe onde se enfiar. Os brasileiros elogiam o futebol português, como o ex-selecionador João Saldanha: “Vocês passam a vida a falar da ausência de Simões, mas o Peres é o vosso maestro.” Verdade, Peres é uma figura incomparável. E será transferido para o Vasco da Gama, onde é campeão brasileiro em 1974.

Siga a marinha. Aparece o Uruguai. Pela primeira vez na Minicopa, a selecção sai do estádio sem festejar. Após cinco vitórias seguidas, o primeiro empate (1:1). Culpa do Uruguai e da sua violência extrema. Aquilo é mais wrestling e os jogadores portugueses queixam-se das constantes entradas desleais, a única forma dos uruguaios de travar o nosso futebol bonito. Diz o guarda-redes José Henrique, autor de um senhor frango no 1-0 de Lattuada: “São umas bestas.” O central Humberto Coelho fala de um futebol “impróprio para consumo”, o outro central (Messias) descreve-os como “os mais ordinários” e o lateral-esquerdo Adolfo como “pugilistas”. Está traçado o retrato. Salva-nos Jaime Graça. Na folga goleadora de Eusébio e Dinis, é um remate seu do meio da rua a fixar o 1-1. Um empate que equivalente a vitória, no entender dos dirigentes da federação que mantêm o prémio de sete contos pelo esforço e espírito de luta.

Do Rio para Belo Horizonte é um salto e eis-nos na final da Minicopa, com a vitória sobre a URSS (1:0). Desengane-se quem sonhe com uma boa exibição. Nada disso, muito pelo contrário. Portugal joga mal, a URSS idem e o jogo é uma soneira constante. Para piorar o cenário, a atuação dos intérpretes é prejudicada por um relvado a precisar de obras urgentemente. De bom, só o apoio constante dos adeptos no Mineirão, dos quais a esmagadora maioria torce por Portugal, fossem portugueses de gema ou brasileiros a desejar uma final entre Brasil e Portugal. O teimoso nulo só se desfaz por culpa de um desencontro de ideias entre o capitão Jouravlev e o guarda-redes Traschenko, bem aproveitado pelo sagaz Jordão. Enfim, uma barraca de todo o tamanho, vista in loco por Zagallo (selecionador do Brasil) e Telé Santana (treinador do Atlético Mineiro).

Sem qualquer derrota em oito jogos no evento promovido pela federação brasileira, Portugal apresenta-se na final do Maracanã a respirar confiança. Antes do jogo, uma novidade: o árbitro toma nota junto dos capitães dos cinco marcadores de penálti das duas seleções, caso o empate se mantenha ao fim de 120 minutos. Tal não é necessário, muito embora o nulo resista até ao último suspiro, altura em que Adolfo faz uma falta escusada sobre Jairzinho na linha de fundo, junto à área. Rivellino marca o livre com a categoria que se lhe reconhece e José Henrique sai-se mal, muito mal da baliza. Aproveita Jairzinho para cabecear com êxito. Está feito o 1-0. Portugal, que começara o jogo debaixo de uma vaia monumental, acaba aplaudido de pé pelos adeptos brasileiros, rendidos ao nosso futebol num jogo bastante político, como já é costume: “Vitória da antiga colónia contra a Metrópole”.

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