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Conta-me como foi da bola. A fragilidade portuguesa vs França
Desporto 8 min. 13.11.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. A fragilidade portuguesa vs França

Conta-me como foi da bola. A fragilidade portuguesa vs França

Foto: DR
Desporto 8 min. 13.11.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. A fragilidade portuguesa vs França

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Nos últimos cinco jogos em Portugal, a selecção comete a proeza de acumular cinco derrotas e dois golos marcados contra 11 sofridos.

Vem aí a França. A festa é imensa. De repente, o 3:2 de Platini no Euro-84, o 2:1 de Zidane no Euro-2000 e o 1:0 de Zidane no Mundial-2006 caem no esquecimento. Dos portugueses, bien sur. Salta mais á vista o pontapé do meio da rua de Éder na final do Euro-2016. França, venha ela. Du calme, du calme. Afinal de contas, a França é a pior visitante possível. Para os portugueses, bien sur. Nos últimos cinco jogos, cinco vitórias e um mais-que-favorável 11:2 em golos. Brrrrrrrrr. É desta

 O último acto é de 2015, num fantasmagórico José Alvalade. O cliente, para variar, tem razão. O jogo é morno, chato. Salvam-se umas defesas de Patrício a remates de Griezmann, Matuidi, Pogba e Benzema. Na outra baliza, Lloris só tem de se esforçar uma única vez, num livre directo de Ronaldo aos 41 minutos. De resto, joga-se muito longe das áreas. A França prepara o seu Europeu em casa e chega a Portugal com duas derrotas seguidas, vs Bélgica e Albânia. O espectro de crise é espantado por Valbuena, na transformação superior de um livre directo, a castigar falta de Fonte sobre Griezmann, a cinco minutos do fim. Patrício estica-se todo, em vão. A França ganha pela segunda vez a Portugal em menos de um ano (2-1 na estreia de Fernando Santos, em outubro 2015) e nada, nada mesmo, faz prever o golo de Éder no famoso 10 Julho, em pleno Stade de France.

 Antes, é preciso recuar até 1997. Cuidado, nem comente isto: esta França do 1.º Maio vai ser campeã mundial daí a um ano e meio. Do onze apresentado por Aimé Jacquet em Braga, só o lateral Laigle e o extremo Ba falham o Mundial-98. O resto é uma série de artistas bons de bola, a começar em Zidane, o número 10 por natureza. Dos seus pés sai o 1:0, numa jogada fascinantemente simples entre Ba, Dugarry e Deschamps. O capitão (agora seleccionador) conclui com a baliza aberta e desata a indignação do público português, cujos assobios batem recordes mundiais de decibéis. Estamos só com dez minutos de jogo, prêté attention. A fartura de substituições ao intervalo piora o ambiente no estádio e a França chega naturalmente ao 2:0, por Ba, numa iniciativa individual em que não só rouba a bola a Couto como ainda o tira da frente com uma estonteante troca de pés.

 Já recuámos até 1983. Sete meses depois de acabar o Mundial-82 em quarto lugar, a França chega a Guimarães e dá uma lição de bola sem igual. Simplesmente fantásticos, os primeiros minutos de jogo em que os franceses desmontam o sistema nervoso de Portugal com um futebol de passe curto antes do lançamento para as costas dos defesas. Stopyra, que abre e fixa o resultado em 3:0, é o espelho dessa eficácia tremenda. No 1:0, a bola vai ao meio e Jordão arrisca interromper o descanso de Tempet. O guarda-redes sai-se dos postes, arruma a casa e lança o ataque do 2:0, cortesia Ferreri, com um chapéu no limite da área a aproveitar o adiantamento desnecessário de Bento. Em menos de 90 segundos, passa-se do 0:0 para o 2:0. Já desnorteado, Portugal perderia Jordão por lesão e nunca mais se encontra. Sobretudo no ataque, o sector mais em falta – o último golo data de Junho 1981, há 11 jogos.

 Já recuámos muito mesmo, e estamos em 1957. Nem com uma ala esquerda nova, constituida pelos benfiquistas Salvador e Cavém, a selecção consegue brindar os adeptos do Jamor com uma vitória. Nem sequer um empate para alegrar a malta. Ou um golinho. Nada disso. Um golo solitário de Piantoni, no começo da segunda parte, garante o 1-0 da França, que até jogam pior que os portugueses de acordo com a imprensa desportiva francesa. “É incrível como Portugal desaproveita o péssimo jogo da França”, escreve o L'Équipe. Curiosamente, do onze francês do Jamor para o do Mundial do ano seguinte, “só” entram Kopa e Fontaine para os lugares de Mekloufi e Cisowski. O só é cómico, porque Kopa é uma figura mundial e Fontaine é o melhor marcador desse Mundial, com a sensacional marca de 13 golos. E nós? Carlos Gomes defende bem, Passos é o maestro do meio-campo e Águas perde um golo feito à boca da baliza, que seria o do empate.

 Qual caranguejo, já andámos dez anos para trás. A federação tem a ideia peregrina de nomear um trio de seleccionadores, situação que se repetiria no Euro-84 – aí até é um quarteto. Adiante. A ressaca do 10:0 da Inglaterra está na cabeça de todos nós. E mói. Muito. Para o último jogo do ano 1947, Virgílio Paula assume o cargo mais importante, ajudado por dois homens do futebol (Martinho Oliveira e João Brito). Para alguns observadores, a derrota com a França começa antes do jogo, com as guerras internas sobre a formação do onze, sobretudo o lugar de defesa-direito entre Octávio Barrosa (Sporting) e Vasco Oliveira (Belenenses). Jogaria Barrosa e o Sporting preenche o onze com seis elementos. Um destes marcaria o golo de abertura. Peyroteo, claro. Num remate à meia volta, sem hipótese para Darui. O outro golo pertence ao portista Araújo, é o 2:2. Segue-se o hat-trick de Vaast e a contribuição do excêntrico Ben Barek para a França cantar de galo.

 Alto e pára o baile. Finalmente, uma vitória portuguesa vs França. A caminho do inédito título de campeão, festejado daí a um mês, a 26 Maio 1946, o Belenenses fornece cinco jogadores à selecção (Serafim, Amaro, Feliciano, Rafael e Quaresma). Como tal, Portugal corresponde com uma boa exibição aliada a um resultado positivo, algo que não acontece desde Janeiro 1942. Feliciano, uma das “Torres de Belém”, é designado o melhor em campo e um dos melhores da Europa no seu lugar pela forma como anula a estrela mais cintilante do futebol francês de então, um tal Ben Barek. O avançado do Stade Français é uma referência incontornável durante anos e anos. Tanto assim é que Pelé desabafa: “Se eu sou o Rei do futebol, o Ben Barek é o Deus.” Feliciano tapa Ben Barek, tudo bem.  O problema é outro: Amaro, outra Torre, deixa fugir Vaast para o 1:1. Três minutos depois (70’), o sportinguista Peyroteo desfaz o empate e dá uma alegria à malta.

 Mil-nove-e-trinta. Portugal volta a fazer das suas e toma lá 2:0. Pela segunda vez na história (a estreia ocorrera em janeiro 1926, com a Checoslováquia, também no Porto), o Benfica não se faz representar por nenhum jogador, um facto que não impede a descansada vitória sobre a França. O belenense Pepe volta a ser o herói e confirma a tendência para o bis. Com mais dois golos à França, chega aos sete no total e torna-se o melhor marcador de sempre da selecção, num Campo do Amel a abarrotar. Os dez mil lugares preenchem-se ainda antes do meio-dia (o apito inicial só se faz ouvir às 1500) e assistem a um jogo de fraco nível técnico em que a defesa portuguesa anula o ataque francês, dignamente representado por Laurent. Quem? O avançado-centro do CA Paris, um dos sete estreantes franceses desse dia, mais tarde internacionalmente famoso por ter sido o autor do primeiro golo em Mundiais, em julho desse ano (4:1 vs México).

 A viagem acaba aqui, em 1927. Un deux trois quatre. Até ao 6-0 vs. Luxemburgo em Março 1961, o 4-0 à França no Lumiar é o resultado mais gordo da selecção. Previsto inicialmente para 13 fevereiro, o particular é adiado por um mês devido ao conturbado clima político em Portugal: um levantamento militar contra o novo regime implementado a 28 Maio 1926, de que resultam centenas de mortos e milhares de feridos, é neutralizado a 10 março. É nesse clima de forte tensão que o jogo se realiza. E acaba por ser um êxito rotundo. Culpa do madeirense Pepe, autor de dois golos em dia de estreia. E também do sportinguista José Manuel Martins, outro bis. Aliás, eles brincam ao “ora marcas tu, ora marco eu”. De negativo, só a lesão madrugadora de Varela, aos 10 minutos, a dar origem à primeira substituição portuguesa de sempre. César de Matos é o homem revolucionário.

 Pergunta, quem se chega à frente para ser outro tipo de homem revolucionário e quebrar uma tendência com mais de 70 anos?

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