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A dupla gafe do árbitro Van Ravens
Desporto 5 min. 23.07.2021
Conta-me como foi da bola

A dupla gafe do árbitro Van Ravens

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A dupla gafe do árbitro Van Ravens

Desporto 5 min. 23.07.2021
Conta-me como foi da bola

A dupla gafe do árbitro Van Ravens

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Conta-me como foi da bola: a dupla gafe do árbitro Van RavensA propósito do sorteio da pré-eliminatória da Liga dos Campeões e da alteração da regra dos golos fora

Cara ou coroa? A pergunta é da praxe e manda o protocolo que o árbitro se dirija nestes termos antes do jogo aos dois capitães de equipa. É assim desde que há futebol. No século passado, a moeda assume um papel mais preponderante, quando o cara ou coroa decide eliminatórias europeias. Como o Benfica-Celtic de 1969, para a Taça dos Campeões.Cinquenta mil pessoas vão ao Estádio da Luz para ver 90 minutos mas só saem de lá duas horas e meia depois. Em Glasgow, o Celtic ganhara 3-0. Na segunda mão, em Lisboa, no dia 26 de Novembro de 1969, o inferno da Luz empurra o Benfica para uma noite histórica. Antes de Eusébio fazer o 1-0, aos 35', já o guarda-redes John Fallon segurara um petardo do Pantera (21') e Artur Jorge atirara ao poste (19'). Jaime Graça marca o 2-0 aos 40' e o golo que empata a eliminatória surge aos 90'+3, num cabeceamento de Diamantino.Este lance gera muita polémica porque o árbitro apita para o final do encontro entre o canto e o golo (depende da versão portuguesa e escocesa), o que leva os adeptos benfiquistas a entrar em campo, ao mesmo tempo que os jogadores do Celtic julgam que o golo seria invalidado porque, segundo eles, o apito soara antes do remate.Com tanta confusão, o juiz holandês Laurens Van Ravens obriga as duas equipas a ir para o balneário. A polícia demora cinco minutos a restaurar a ordem entre os adeptos e só aí é que Van Ravens sobe novamente ao relvado, acompanhado pelos jogadores de Benfica e Celtic, para indicar um prolongamento de 30 minutos. Nessa altura, só há o recurso à moeda ao ar para desempatar a eliminatória no meio-campo. Van Ravens assim não o entende e volta a indicar o caminho do balneário aos dois capitães (Coluna e McNeill), mais os respectivos técnicos (o lendário Jock Stein e Calado, adjunto do brasileiro Otto Glória, que não quer ver o cara ou coroa) e alguns jornalistas que se amontoam à porta.Dentro da cabine, Van Ravens pergunta cara ou coroa ao visitante McNeill. "Respondi cara, depois de Stein me ter dito que eu estava por minha conta e risco", escreve o capitão do Celtic na sua autobiografia "Hail Cesar". "Saiu cara! Ainda estava a festejar quando Van Ravens me perguntou novamente cara ou coroa. 'Agora foi para decidir se eras tu ou ele [Coluna] quem ia lançar. Ganhaste tu.' Disse novamente cara e lancei. A moeda voou, bateu no chão e rolou até ao pé direito do árbitro. Aí cedeu e... cara. Foi o maior alívio da minha vida." À chegada ao hotel, seis jogadores do Celtic entraram nos quartos e descobriram que foram assaltados durante o jogo. McNeill foi um deles. E a viagem saiu-lhe cara. Outra vez.

Outra vez? Sim, outra vez Van Ravens. Agora já estamos em 1971. O Sporting tem um prestígio invejável nas competições europeias. É dele o primeiro golo de sempre na Taça dos Campeões Europeus (João Martins em Setembro de 1955) e ainda lhe pertence a maior goleada de sempre na UEFA (16-1 ao Apoel Nicósia em Novembro de 1963). A juntar a isso, é o único clube a ganhar uma final com um canto directo (Morais no 1-0 ao MTK em Maio de 1964). Porque nem tudo são rosas, o Sporting também é o único clube a perder uma final em casa (CSKA Moscovo em 2005). E entre essas alegrias dos anos 50 e 60 e a tristeza do século XXI, os leões ainda detêm um trauma impossível de esquecer: a da insignificante vitória nos penáltis com o Rangers.É a 3 de Novembro de 1971, em Alvalade, para a 2.ª eliminatória da Taça das Taças. Em Glásgua (não, não é equívoco, é assim que os jornais portugueses da época escrevem a capital da Escócia), 3-2 para o Rangers. Quinze dias mais tarde, em Lisboa, 40 mil pessoas assistem a um número de circo nunca antes visto nem depois repetido. O Sporting ganha 3-2 e adia a decisão para o prolongamento. Nesse período extra de 30 minutos, as duas equipas marcam e, nessa altura, conferindo os regulamentos da UEFA, é o Rangers quem se apurava pelo maior número de golos fora. Aliás, muitos jogadores escoceses caminham alegres para o balneário, quando Van Ravens chama os capitães e lhes diz que vai proceder ao desempate por grandes penalidades. Assim acontece.

Damas defende o primeiro de Jardine, o segundo de McLean, incluindo o da repetição porque o juiz holandês argumenta que o guarda-redes se mexera antes do remate, e o terceiro de Stein. Enquanto isso, Caló e Yazalde acertam na baliza. Depois, Peres permite a defesa de McCloy e Smith atira por alto. Resultado final: 2-0. Euforia completa em Alvalade, Damas levado em ombros, algazarra na cabine do Sporting e silêncio na do Rangers. "Até que um jornalista escocês bateu à porta e quis falar com o nosso treinador [Willy Wadell]", confirma Henderson, autor do 3-3. "Aquela conversa demorou uma eternidade e muitos de nós ansiosos por saber o que era. Outros estavam tão desiludidos, com as mãos na cabeça, que nem sabiam o que se estava a passar. Foi então que o treinador entrou e disse-nos que estávamos apurados. Incrível."No outro lado, o esquerdino Hilário é o rosto da desilusão. "Já estávamos a beber champanhe e tudo, quando o [Afonso] Lacerda, vice-presidente da federação portuguesa de futebol, nos trouxe a má notícia. 'Isto foi tudo muito giro, vocês foram fantásticos, mas não valeu de nada, porque, em caso de empate no prolongamento os golos marcados fora valem a dobrar.' Naquele tempo, as notícias não circulam tão rapidamente e os adeptos sportinguistas apenas sabem que o Sporting fora eliminado no dia seguinte, através dos jornais."

Aliás, o "Diário de Notícias" dá conta disso mesmo na sua reportagem. "Às duas da manhã, ligámos ao sr. dr. Pereira da Silva, dirigente do Sporting, que nos informou da eliminação do Sporting, por decisão do sr. Ramirez, o espanhol que era delegado da UEFA nessa noite." No dia seguinte, dia 4, a UEFA ratifica a decisão do tal Ramirez e não clarifica a punição a Van Ravens.

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