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Conta-me como foi da bola. A boleia de Eusébio a Toscana
Desporto 5 min. 10.09.2020

Conta-me como foi da bola. A boleia de Eusébio a Toscana

Conta-me como foi da bola. A boleia de Eusébio a Toscana

Foto: AFP
Desporto 5 min. 10.09.2020

Conta-me como foi da bola. A boleia de Eusébio a Toscana

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Como é que o escritor mexicano contemporâneo mais vendido em todo o mundo entra completamente ao acaso no Chevrolet Sport de Eusébio.

Esta história aconteceu, mas ainda não foi publicada. Nem vai ser. Pelo menos em formato de livro. É (era) um segredo guardado a sete chaves. E é (era) um dos melhores golos de Eusébio. De que o próprio nem sequer se lembra, mas que David Toscana, o escritor mexicano contemporâneo mais vendido em todo o mundo, vai divulgar, num exercício que não lhe é nada habitual.

Em vez de discorrer sobre o assunto em cima de uma mesa, com uma máquina de escrever à frente, Toscana exprime-se através do telemóvel. É uma viagem no tempo em que Toscana se livrou do excesso de carga. Que é, como quem diz, de memórias guardadas. Eusébio, essa figura emblemática do futebol português que chegou ao Benfica em dezembro 1960, ainda Toscana não nascera (Monterrey, 1961), e só de lá saiu em 1975. Foi precisamente nesse ano que Eusébio deu uma guinada na sua vida e partiu para o México. Não de férias, mas para jogar futebol. Destino: Monterrey, terra natal de David Toscana. Equipa: Club Fútbol Monterrey, que enchia o estádio com os milhares de adeptos, entre eles um jovem de 14 anos chamado David Toscana.

O treinador do Monterrey era o chileno Fernando Riera, amigo do jogador português pela experiência no Benfica nos anos 60. Foi dele o convite para o trintão Eusébio (33) jogar no Monterrey. O avançado disse que sim, assinou por dois anos (embora só tenha feito dez jogos com um golo pelo meio) e foi logo nomeado capitão, proeza assinalável e só possível devido à força do seu nome. É aqui que se cruzam as histórias de dois nomes incontornáveis da cultura do século XX. Foi há 45 anos e Toscana vai contar.

"No México, o futebol sempre foi vivido com muita paixão", garante o escritor com base na experiência própria salpicada com a realidade mais que evidente – o México-país organizou dois mundiais, em 1970 e 1986, e o México-seleção vai a todas fases finais desde 1986. "Eu, por exemplo, que sempre vivi em Monterrey, desde cedo fiquei viciado no futebol. Não me lembro muito bem do Mundial-70, porque só tinha oito anos, mas recordo-me perfeitamente do Mundial-74, na RFA, sem o México, afastado da qualificação pelo Haiti. Já viu isto?".

"Nesse Mundial-74 torci pela Polónia. Aquele guarda-redes Tomaszewski era um espetáculo à parte [e até defendeu dois penáltis nessa fase final, contra a Suécia e a RFA]." Mas então, perguntará o leitor, e a história com Eusébio? Calma lá, que isto dos mundiais tem que se lhe diga. Então não é que Toscana, fervoroso adepto do futebol, já não acompanha esse desporto desde o Mundial-2002! "No dia em que os EUA ganharam 2-0 ao México [oitavos-de-final, por sinal apitados pelo português Vítor Pereira], acabou-se. Desliguei a televisão e nunca mais vi nada." Nem aquele Portugal-México do Mundial-2006? "Nem esse. Perder com os EUA foi como descobrir que a minha mulher estava com outro. Não posso aceitar isso."

E as memórias? "Boas, excelentes, mas acabou-se. Nem fiquei assim no Mundial-86, quando o México de Hugo Sánchez foi eliminado pela RFA nos quartos-de-final. O jogo foi em Monterrey e fui lá ver. Foram 120 minutos de futebol físico e musculado. Interessantíssimo… e o árbitro anulou-nos um golo de que, por muitas repetições que passem, ainda hoje não se percebeu a irregularidade. Foi 0-0, e só se resolveu nos penáltis. Nem aí fiquei tão mal.” Pronto, pronto, já passou.

A palavra-chave é Eusébio. "Quando ele chegou a Monterrey, foi o caos, uma explosão de alegria. Ele já tinha 33 anos mas era O Eusébio, com 'o" maiúsculo. E uma vez aconteceu-me isto, que marcou a minha vida da forma mais simples e original. Como o próprio Eusébio, um homem simples e original. Senão, veja lá: em 1975, estava a pedir boleia para ir para o Centro quando um carro parou, abriu o vidro e era O Eusébio. Perguntou-me se queria boleia para a cidade (Sul), que nada tinha a ver com o Centro (Norte), e eu disse que sim. A figura d'O Eusébio levou-me a entrar no carro. A viagem foi rápida, uns sete/oito minutos, e eu é que falei a maior parte do tempo, de tão deslumbrado que estava com aquela atitude da boleia, com a presença dele.

Lembro-me de lhe ter perguntado sobre os quatro golos à Coreia do Norte nos quartos-de-final do Mundial-66 e de ele ter respondido que nessa altura se sentia em forma e apoiado por uma equipa fora de série, o que ajudou a transformar uma derrota de 3-0 numa vitória de 5-3. A resposta foi a mais humilde possível. O seu tom de voz não se alterou um segundo e manteve os olhos na estrada. Lembro-me disso porque... sei lá... estava à espera de uma explicação gestual, efusiva, triunfal. Mas não. Disse aquilo dos quatro golos num jogo do Mundial com uma tranquilidade impossível de imaginar."

Vasculhamos o arquivo do México e encontramos citações preciosas de Eusébio sobre o Monterrey. "O meu carro em Monterrey era um Chevrolet Sport, que tinha comprado no Texas. Levei-o para o México porque o adorava. Mais tarde vendi-o ao presidente do Monterrey que pelos vistos gostava tanto dele como eu. Grande carro. Gostava de o conduzir novamente para sentir aquela força."

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