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Chalana, o imortal
Desporto 4 min. 10.08.2022
Futebol

Chalana, o imortal

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Chalana, o imortal

Foto: Lusa
Desporto 4 min. 10.08.2022
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Chalana, o imortal

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Quem o vê jogar, nunca mais esquece o seu futebol vertical e envolvente.

Lisboa, 1976. Por uns momentos, esqueça a Revolução e o PREC. O Benfica de Mário Wilson e o Boavista de José Maria Pedroto esgrimem argumentos para o título de campeão nacional. No início de Março, e com a vantagem de um só ponto, o Benfica saca um ás chamado Chalana. "Como peixe na água" escreve o Diário de Lisboa a respeito de um jogador vertiginoso, capaz de fazer levantar os adeptos com os seus dribles sem bola pela esquerda.

Sem bola? Isso mesmo, Chalana agitava o corpo com os joelhos e os braços. Acto contínuo, os adversários caem. Assim, sem mais nem menos. De tão desconcertantes os movimentos de Chalana, o homem da marcação directa entra em estado líquido e desfaz-se. É uma maravilha, ver para crer. O próprio Futre, ainda no Sporting, admite sem rodeios o fascínio pelo futebol de Chalana.


Morreu Fernando Chalana, jogador histórico do Benfica
Chalana jogou 13 épocas pelo clube da Luz.

Está na hora de passar a bola a Diamantino. "Dizem-me 'ah e tal, o Diamantino conseguia jogar à direita, à esquerda, ao meio'. Isso é tudo verdade, mas dávamos a bola ao Chalana quando estávamos à rasca. Por muito bons que fossemos, o Chalana sempre foi o melhor. A seguir ao Eusébio, foi o melhor. Aquilo não tinha explicação e seria curioso ver quantos defesas-direito foram substituídos durante o jogo só à conta dos entortanços do Chalana. A sério, nunca vi tantos, coitados. Em jogos europeus, até.  O problema é que isso da substituição nada resolvia. Saía um, entrava o outro e o festival do Chalana continuava. Olha, um exemplo bom é o Portugal-Espanha do Euro-84. O lateral-direito era o Urquiaga, basco à séria, do Athletic Bilbao, viril e tal, mesmo a imagem da fúria espanhola. O rapaz deve ter refletido sobre a sua carreira nesse dia porque levou um chocolate tão grande, tão grande, tão grande."

E agora passamos a bola ao Toni, seu treinador. "Joguei com o Eusébio, sabes? Mas o Chalana foi o maior génio que vi. Ele fazia coisas incríveis, desbloqueava problemas, desbravava caminhos, era uma máquina. Tão novo e tão genial."

Quem o vê jogar, nunca mais esquece o seu futebol vertical e envolvente. Agora a questão (pertinente): quem o chumbou nos treinos da CUF, precisamente no dia em que Carlos Manuel é aceite? Acaba por ir parar ao Barreirense. Seis jogos depois, em 1975, já está no Benfica com um contrato feito à sua revelia e dos seus pais.

Na Luz, com 17 anos, atira-se de cabeça para a fama: jogadas diabólicas, assistências perfeitas e golos fantásticos. Em Novembro 1976, estreia-se na selecção. Durante oito anos, até 1984, Chalana acumula 39 golos em 263 golos e ganha cinco campeonatos. Sempre como peixe na água.

Bordéus, 1984. Por uns momentos, esqueça a colheita de qualquer tipo de vinho desta região e imagine uma conferência de imprensa do clube da cidade com dois bigodes farfalhudos. Um deles é de Claude Bez, presidente. Um homem gordo, que se passeia pelas ruas de Bordéus, com um chapéu de cowboy, quase sempre ao volante de um Cadillac, e que solta sonoras gargalhadas à medida que cumprimenta toda a gente com uma forte palmada nas costas.

O outro é Fernando Chalana, a quem os franceses se rendem nesse Verão de 1984, quando Portugal dá algum espectáculo na fase final do Europeu. Apesar de nunca ter jogado em Bordéus (só em Estrasburgo, Marselha e Nantes), Chalana é conhecido em toda a França. Pelo seu toque de bola, pelas arrancadas ou pelo seu bigode – e isto num duplo ponto de vista: metafórico (dar um bigode à concorrência, que era o seu repetitivo prato do dia) e literal (aqueles pêlos entre o nariz e a boca fizeram as delícias dos jornalistas franceses, que o apelidaram de Chalanix). 

Ao mesmo tempo que Platini sai de França, na troca St. Étienne-Juventus, o presidente Bez muda de posição dentro do Bordéus, de tesoureiro para presidente. E os seus sonhos, outrora megalómanos, tornam-se realidade. A um jovem treinador sem currículo, mas com um ar respeitável (Aimé Jacquet, seleccionador da França campeã mundial em 1998) junta-se uma série de vedetas, dos centrais Battiston e Trésor aos avançado Dieter Müller e Lacombe, passando pelo meio-campo, que era "apenas" a zona mais requintada de todas, com o talento do drible curto de Tigana, Giresse, Girard e Chalana. O bigode mais famoso de Bordéus, n’est ce pas?

"A minha apresentação à imprensa foi uma confusão com jornalistas e mais jornalistas. Eles eram franceses e portugueses, todos ali misturados. A sala parecia pequena com tanta gente. Depois, o meu primeiro treino foi a pagar. Eram 10 francos para cada pessoa que me quisesse ver. E aquilo era um centro de treinos que, repare bem, em 1984, já tinha 12 campos relvados! Nos jogos os adeptos cantavam o meu nome, tal como os dos outros jogadores, mas o meu era novidade para mim, porque em Portugal isso ainda não se fazia. Nem na Luz, onde os adeptos puxavam muito pela equipa."

Outra novidade de Chalana está relacionada com a alcunha. "Lá eu não era o Chalanix, nem o Cyrano de Bergerac [pelo seu nariz], como muita gente daqui escrevia. Era o Vatanen [Ari Vatanen, finlandês, campeão de ralis em 1981, ao volante de um Ford Escort]. Num treino na neve, eu corria mais e driblava melhor que todos os outros. E o Battiston pôs-me a alcunha." Curiosamente, o Vatanen não tem bigode. Oh mon Dieu.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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