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Casa Pia, que regresso mai'lindo
Desporto 4 min. 20.05.2022
Histórias da Bola

Casa Pia, que regresso mai'lindo

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Casa Pia, que regresso mai'lindo

Foto: Rui Manuel Farinha/Lusa
Desporto 4 min. 20.05.2022
Histórias da Bola

Casa Pia, que regresso mai'lindo

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Campeão de Lisboa em 1921 (sem derrotas) e 1924, o Casa Pia já não subia à 1.ª divisão desde 1938.

Há os contos de fadas, há as histórias de encantar e há o Casa Pia de volta à 1.ª divisão. Que delícia, o Casa Pia. É um clube com história, digna de se contar. Nasce em 1920 e é campeão regional de Lisboa no ano seguinte, sem qualquer derrota. Pelo caminho, derruba os três grandes Sporting, Benfica e Belenenses.

Na poule final, o 2:0 vs Benfica (bis de Rosmaninho) é muito falado pela substituição do árbitro a meio do prélio, ainda na primeira parte. Jorge Vieira, então jogador do Sporting, expulsa Alberto Augusto. O benfiquista discorda em absoluto com a decisão e demora a sair do campo. Só muito a custo, e empurrado por companheiros de equipa. Dá-se então o absurdo, Alberto Augusto agride Jorge Vieira. Sem condições para apitar mais, Jorge Vieira também sai de campo e é John Armour quem apita até ao fim. Na final do campeonato, Casa Pia e Sporting decidem o título a duas mãos, ambas no Campo Grande, ambas iniciadas às 17 horas.

Na primeira mão, a 15 Maio 1921, o Casa Pia dá 4:1 com bis do lendário Cândido de Oliveira, um dos fundadores do Casa Pia – e também do jornal A Bola. É um dia muito ventoso, o Sporting escolhe campo para atacar a favor do vento na primeira parte e tirar partido dessa vantagem. Em vão, o Casa Pia domina todos os mandamentos do jogo e até chega ao intervalo em vantagem, golo de Cândido de Oliveira do meio da rua. Na segunda parte, o Casa Pia manda ainda mais e chega ao espantoso 4:1

Uma semana depois, com muito público feminino nas bancadas, joga-se a 2.ª mão e o Sporting só precisa de ganhar pela margem mínima para forçar uma finalíssima. Aos três minutos, 1:0 de José Rodrigues. O Casa Pia reage e, pouco antes do intervalo, empata por Rosmaninho. Depois é aguentar a pressão e soltar o grito de campeão. É esse título de campeão regional a dar força para a organização de um jogo particular com o campeão do Porto. Cria-se a Taça 27 Julho, no Porto. Entram em campo FC Porto e Casa Pia. Noventa minutos depois, espectacular vitória casapiana por 2:0 – a digressão ao Norte ainda contempla uma visita a Matosinhos para jogar vs Leixões, outro 2:0.

É essa vitória vs FC Porto – no ano anterior ao arranque do Campeonato de Portugal, a primeira competição nacional a nível de clubes – a resultar no equipamento preto e branco da selecção portuguesa em Dezembro desse ano de 1921. À falta de um equipamento nacional, chega-se à conclusão de que o preto e branco do campeão Casa Pia é o ideal. E; pronto, Portugal joga de preto. Já agora, o onze desse Portugal vs Espanha em Madrid é mais casapiano que nunca, com quatro representantes.

Três anos depois, em 1924, o Casa Pia repete o título de campeão regional com pompa e circunstância. O campeonato é discutido ponto a ponto com o Benfica. A uma jornada do fim, no campo da Palhavã, pertença do Império, há jogo do título entre Casa Pia (8 pontos) e Benfica (9). Um empate garante o título ao Benfica por antecipação. Qual quê, Álvaro Gralha fabrica o golo de Cândido de Oliveira e o resultado está feito, 1:0. Em bolas à trave, a vitória (do azar) é benfiquista por 3:2. No fim-de-semana seguinte, o Casa Pia empata 1:1 vs Império no Campo Grande e consagra-se mais uma vez.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Temos de esperar 14 anos para voltar a ver o Casa Pia às manchetes, com o apuramento in extremis rumo à 1.ª divisão 1938-39. Para tal, ganha o jogo em atraso do regional de Lisboa vs Benfica, no Restelo, por 3:2. O empate serve os interesses do Carcavelinhos, então em quarto lugar, o último de acesso à nova prova nacional. Um bis de Sérgio na primeira parte dá avanço e o 3:1 de Marques aos 57 minutos garante a surpresa. Na 1.ª divisão, o Casa Pia apresenta-se em honra nem glória. Aliás, é o pior representante da 1.ª divisão de sempre, com uma vitória em 14 jogos (2:1 vs Barreirense, bis de Ramos Dias). De resto, 13 derrotas. Ya, treze. Uma delas é um 10:1 vs Benfica. Outra é um 10:0 vs FC Porto.

Agora, 83 anos depois, eis o Casa Pia na 1.ª divisão como digno segundo classificado da Liga 2, com apenas 22 golos sofridos pelo guarda-redes Ricardo Batista, o mais velho do plantel (35 anos) e a grande figura mediática pelo passado internacional (Fulham, Gaz Metan, Libolo).

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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