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Carlos Queiroz: "Penso na quinta qualificação para o Mundial"

Carlos Queiroz: "Penso na quinta qualificação para o Mundial"

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Desporto 19 min. 16.05.2018

Carlos Queiroz: "Penso na quinta qualificação para o Mundial"

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Em entrevista por e-mail a cerca de um mês do início do Mundial na Rússia, o selecionador do Irão revê o seu percurso com a equipa e a longa carreira, antecipa o duelo com Portugal e sonha estabelecer um recorde.

No tempo de trabalho que leva com a equipa do Irão, quais foram as principais mudanças nos métodos de trabalho?

Em primeiro lugar adotámos novos critérios de seleção, com um novo modelo de abordagem na escolha dos jogadores a convocar para a equipa nacional, a partir de observações sistemáticas e metodologicamente mais analíticas, nas diferentes componentes do jogo. Implementámos também maior abrangência na seleção de jogadores. Por outro lado, lançámos os nossos métodos de preparação, de efeitos cumulativos e mais sistemáticos. Fundamentalmente, implementámos o nosso modelo metodológico de preparação da equipa, nas diferentes componentes.

Que dificuldades mais têm interferido com o normal processo de preparação da equipa, seja nas fases de qualificação, seja em estágios para as provas internacionais?

As dificuldades estão relacionadas, essencialmente, com todas as matérias de natureza financeira e estrutural, que resultam da própria situação conjuntural do país, como se sabe, enquadrada em sanções internacionais que condicionam os mais diversos investimentos, seja em treinos, estágios ou infraestruturas, ou por exemplo, na realização de jogos particulares.

Tem recebido o apoio de que necessita por parte dos dirigentes?

Dentro das limitações e das dificuldades existentes tem sido feito um esforço muito grande para pôr em prática a preparação da equipa. Não é o ideal e o desejável, especialmente quando as dificuldades se colocam ao nível de questões primárias, básicas, como infraestruturas de treino, mas temos de encontrar soluções dentro das limitações e possibilidades da federação, procurando viabilizar de alguma forma os planos apresentados.

Como é a relação com os treinadores dos clubes iranianos, nomeadamente com Branko Ivankovic, ex-selecionador e agora técnico do Persepolis?

A minha relação com todos os clubes e treinadores guia-se pelos mesmos padrões, princípios e valores. Como em tudo na vida, há situações que resultam melhor, mas genericamente, com todos os treinadores e clubes, existe uma relação cordial, profissional e de respeito, como importa que assim seja para defesa dos interesses do futebol do Irão. O facto de se verificar uma exceção, com o treinador do Persepolis, não significa que essa não seja a regra. Os princípios são os mesmos. A seleção segue em frente com o seu o caminho e o clube faz o mesmo. Infelizmente, com o treinador que representa esse grande clube não é possível o mesmo diálogo cordial e profissional como existe com todos os outros clubes, mas seguimos o nosso caminho.

Como descreve a sua experiência de viver e trabalhar no Irão, depois de ter passado por EUA, Japão, Emirados, África do Sul, Inglaterra e Espanha?

Foi uma adaptação simples e natural. Em primeiro lugar, pelo profundo respeito e gratidão que tenho por todos os países e diferentes mundos do futebol, que em mim confiaram para desenvolver o meu trabalho e procurar cumprir os sonhos dos adeptos. O Irão para mim não foi exceção. Em segundo lugar, por um ato básico de racionalidade e de convicção, por acreditar que a adaptação é a chave do sucesso. Penso que a principal premissa para o sucesso dos treinadores portugueses é a grande habilidade e capacidade de se adaptarem social e culturalmente aos meios onde desenvolvem o seu trabalho. Isso é cultural, é genético, está no ADN dos portugueses; e ajuda muito, a par das capacidades enquanto treinadores, para que o sucesso seja mais elevado.

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Formou uma equipa forte e com jogadores que estão a ganhar evidência em clubes europeus, como Sardar Azmoun, Saeid Ezatolahi, Alireza Jahanbakhsh, Saman Ghoddos ou Reza Ghoochannejad. Admite que esta seja uma geração de tanta qualidade como a de Ali Daei?

Penso que sim. Com tanta ou mais qualidade. A competitividade desses jogadores é maior. Não é fácil para um jogador iraniano jogar fora da Europa, hoje, muito menos nos grandes clubes europeus, como no tempo de Ali Daei. A procura de jogadores é mais intensa, África e América do Sul são grandes mercados, e a hostilização dos jogadores iranianos é um facto incontornável. Esta geração merece maior destaque porque, em condições de adversidade maior, está a afirmar o seu espaço na Europa. Há sete anos que estou no Irão e uma das minhas mensagens constantes para os jogadores iranianos é fazer perceber que partir do Irão para o mundo real do futebol não significa deixar órfão o futebol do Irão. Pelo contrário, é enriquecer e contribuir para lançar o futuro de uma elite de jogadores que poderão, mais tarde, vir a transformar e fazer evoluir o futebol no país.

Num grupo em que compete com Espanha, Portugal e Marrocos, quais são as possibilidades de qualificação do Irão?

As nossas possibilidades vão resultar daquilo que foi a nossa preparação, isto é, daquilo que foram os compromissos que o futebol iraniano fez com este evento que é o Campeonato do Mundo. Os dados estão lançados e os jogadores vão fazer tudo o que está ao seu alcance com os meios, limitados, que estão ao seu dispor. Vamos tirar o melhor das opções e condições que estão à nossa disposição. No final veremos. Nestas coisas, os deuses do futebol falam sempre mais justo e mais alto.

Fernando Santos foi muito elogioso para si e para o trabalho desenvolvido com uma equipa iraniana de grande qualidade: como é que alguém com o seu conhecimento sobre Portugal e sobre o atual selecionador tem seguido a seleção nacional?

Nunca será excessivo, como colega, treinador e pessoa que mal ou bem deu muito da sua vida para que Federação e a seleção portuguesa pudessem atingir patamares de excelência, devolver publicamente o meu agradecimento e a minha gratidão para com o Fernando Santos. Nunca será demais agradecer-lhe. Conduziu a seleção com mestria, com firmeza. Depois foi preciso (como eu muitas vezes senti) ter um estômago de cimento para ser capaz de conviver com aqueles que, numa primeira fase, o denegriram e tentaram afundar a seleção e que, no final, apareceram com as palmadinhas nas costas. Aos velhos do Restelo – nada a ver com o nosso Belenenses, claro (sorrisos) – que se movem pelo desânimo e descrença, deu-me algum gozo no final vê-los chegar-se à fotografia, a aplaudir e apadrinhar o Fernando. E isso foi de alto a baixo. Recordo-me de altas figuras de Estado, de como estiveram fora da cadeira e de como se comportaram na cadeira. Muitos desejavam, muitos desdenhavam, no final todos aplaudiram.

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Ser adversário da seleção portuguesa vai colocá-lo numa situação difícil?  

Mentiria se não dissesse que, numa primeira análise, preferia outro adversário qualquer para esse terceiro jogo, mas quis o destino que fosse um Irão-Portugal, e desde logo este jogo transformou-se em algo muito especial. Para mim não se trata de um jogo ‘contra’ Portugal, mas de um jogo ‘com’ Portugal. Vamos partilhar um jogo de Campeonato do Mundo onde, é claro, cada um vai procurar fazer o melhor e alcançar o seu resultado. E vamos fazê-lo num estádio que será um pleno de verde e de encarnado, porque as seleções partilham essas cores. Este jogo impõe-se, portanto, como algo muito especial. Pensando bem, por que não? Por que não Portugal para que esse terceiro jogo tenha ainda mais sentimento, mais emoção, mais carinho, mais tudo do ponto de vista sentimental?

O que falta às seleções asiáticas para que venham a ser candidatas ao título mundial?

Falta muita coisa, e faltará cada vez mais, se as federações e Confederação Asiática continuarem um caminho que, na minha opinião, é profundamente errado. O continente asiático limita-se a tentar copiar os modelos europeus e, dessa forma, é impossível acompanhá-los reduzindo distância. Dinâmica, ritmo e competitividade da Europa não permitem a simples cópia de modelos estruturais e metodológicos. A Ásia tem de reinventar-se e apanhar o shuttle da modernidade ou então copia uma Europa que tem ritmo superior e que, daqui a 10 anos, estará ainda mais distante. No cenário atual, não há grandes chances de competitividade.

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Quatro apuramentos para Mundiais o que significam?

Em primeiro lugar uma vontade enorme de tentar o quinto. Depois de acabar este Mundial, e de observar os danos colaterais desta participação, verei o rumo que deverá levar a minha carreira, claro, mas esta quarta qualificação, alcançada com o Irão, chegou ao mesmo tempo como uma motivação e desejo para qualificar uma quinta seleção e alcançar esse registo único no mundo do futebol, de conseguir cinco qualificações para Campeonatos do Mundo. Na verdade, creio que é um objetivo que está cada vez mais vivo. Olho o passado com humildade, satisfação e orgulho, e agradeço a Portugal, à África do Sul e ao Irão, aos adeptos e às suas federações, pela possibilidade única que é esta oportunidade. Esta ambição é quase como uma dívida para com este percurso e para comigo mesmo. Mas para concretizar esse objetivo preciso de ter a sorte e o privilégio de voltar a ter uma oportunidade.

Quais considera serem os principais candidatos ao título mundial?

Começamos desde logo por Portugal. Recordo-me em 1989 de uma entrevista à saída de Lisboa, quando seguimos viagem para Riade. Disse então que uma seleção que se coloca em segundo lugar no Europeu, como era o nosso caso, tinha de pensar num lugar de honra no Mundial. E um lugar de honra num Mundial é ser primeiro, segundo ou terceiro. Portugal é campeão da Europa e esse estatuto é um facto que lhe cabe com toda a honra, dignidade e mérito. Depois creio que neste Mundial vamos ter um Brasil muito forte. Sinto, pelo conhecimento pessoal e profissional que tenho, porque trabalhei com elementos da equipa técnica do Brasil, que este será um candidato fortíssimo. Considero ainda os dinossauros habituais, nomeadamente Alemanha, França e Espanha. E importa não esquecer um dinossauro pouco referido, que precisamente por chegar como outsider, como não favorito, vindo de trás, pode transformar-se na equipa glamour a ter em conta: a Argentina. No Mundial há sempre uma espécie de outsider que surpreende, uma equipa da moda que chega longe, mas creio que no final os dinossauros vão estar lá. Talvez esse outsider possa ser a Inglaterra, a Suíça ou uma equipa de África.

Continua a seguir o futebol português: entristece-o ver as polémicas dos últimos tempos num país que detém o título europeu?

Já não me entristece. Agora dá-me alguma vontade de rir, o que é mais grave. É pena, porque os jogadores, os treinadores e de uma forma geral a gestão do futebol português, mereciam mais e melhor. É lamentável que não exista correspondência entre méritos de jogadores, treinadores, clubes e este absoluto lamaçal, como defini recentemente (a propósito de uma suposta denúncia que envolveu um jogador iraniano do Marítimo). Ninguém está impune na criação deste ambiente. Nós próprios, treinadores, temos por vezes responsabilidades pelo discurso que trazemos, mas, com todo o respeito, acho que estamos a viver um momento em que o futebol está completamente subjugado à ditadura do opinatório, se assim se pode dizer. Entrámos numa escalada de impunidade e de imoralidade verbal perigosa. E isto numa sociedade que cada vez mais precisa de tolerância, não de conflito, de compreensão, não de irascibilidade, de entretenimento, não de guerras.

Que caminho está a ser seguido?

As pessoas que ganham dinheiro com esse nível de intervenção não devem esquecer que são modelos de referência. Não me parece que seja um caminho exemplar este que o futebol português está a tolerar. Não é praticar, porque o que acontece é que o futebol português não devia tolerar o que se passa fora das quatro linhas. Dou um exemplo: é inaceitável que se assista a estas autênticas marchas militares romanas, dos centuriões, como se estivessem em guerra, para conduzir duas ou três mil pessoas para um Sporting-Benfica. O futebol não devia tolerar isto. É degradante. Transformou-se a polícia em protagonista, a ter de falar de baixos e altos riscos, de necessidades de centenas de agentes, de polícia de choque, armada com canhões de água... Não consigo entender como isto tem de ser necessário numa sociedade aberta e, pior, ninguém tem coragem de dizer basta. Se uma atividade desportiva e cultural, de entretenimento, se transforma em guerra, das duas uma: ou o jogo fica parado ou então... joguem com adeptos de um só clube. Importa parar com este espetáculo intolerável em pleno séc. XXI, com os jogos transformados nos quadrados de Aljubarrota. E com as mesmas pessoas que, numa primeira linha, mais contribuem para incendiar, com a sua violência verbal, a serem no final aqueles que hipocritamente vêm criticar a confrontação e violência. É absurdo e obsceno.

Identifica traços de competição desvirtuada pela corrupção no futebol português?

Pelo contrário. Estando fora e muitas vezes acompanhando através das transmissões internacionais, num ambiente distante em que o futebol português fica mais fácil de comparar com o de outros países, como Itália, Inglaterra, etc., vejo e sinto que qualquer jogo português é tido como estando ao nível dos melhores jogos das ligas europeias. Isso mostra bem a disparidade entre o espetáculo dentro das quatro linhas e a intriga e conflito que se instalou nos bastidores. Era importante haver uma profunda reflexão. Um dia, quando se acabar o espetro acusatório, talvez venha um ano zero em que, com entendimento, se construa um futebol novo em torno daquilo que já é bonito e espetacular. Ao fim e ao cabo, somos campeões da Europa! O futebol português tem muito mais razões para se unir do que motivos para se desunir. E tem um Mundial à porta.

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Depois do Mundial na África do Sul, o seu relacionamento com Cristiano Ronaldo degradou-se. O tempo dissipou o mal-estar e vão cumprimentar-se na Rússia ou não será assim?

Reduzir a minha relação profissional e pessoal com o Cristiano a um acontecimento pós-Mundial 2010 não traduz, nem de perto nem de longe, aquilo que é a minha carreira como treinador e aquilo que é a carreira dele como jogador. Com todo o respeito, ambos somos mais e melhores do que isso. Isso é muito claro para mim, aliás, referi-o também publicamente numa entrevista recente ao Expresso.

Qual é a análise que faz ao processo da sua saída de selecionador com o inqualificável caso com a AdoP pelo meio?

Creio que análise foi o que se passou ao nível do Conselho de Disciplina, do Conselho de Justiça, da FIFA e do TAS. Isso foram as análises, objetivas e indiscutíveis. Para mim foi desde logo algo de inqualificável, sem fundamento e condenável. Da minha parte não haveria análise, mas antes a certeza e convicção de ter sido um processo obsceno, por ter sido ferido de injustiça, de desonestidades e de deslealdades.

Quando revê as vitórias nos Mundiais de Sub-20, qual é o comentário que lhe merece aquele grupo de jogadores?

Nunca revi, até hoje, essas duas finais. Só o irei fazer depois de pôr termo à minha carreira. Tenho um profundo sentimento de gratidão e de carinho para com esses jogadores. Não só para com os 18 que chegaram à lista final, porque as regras só permitiam levar esses 18, mas também com os outros que não tiveram a sorte de estar no grupo final, mas deram contributos decisivos para a qualificação e para os títulos. A esse grupo de gente, em que nem todos tiveram a felicidade de as carreiras lhes sorrirem, o futebol português deve mais qualquer coisa. Não devemos viver no passado, é certo, mas também não podemos apagá-lo. O presente também vem das raízes, dos fundamentos. Algumas pessoas ficaram injustamente pelo caminho e mereciam outro destaque. Hoje, por vezes, quando se fala da Seleção e da Federação, parece que não houve um princípio, parece que a história começou na era moderna. Não, começou lá atrás, por vezes à custa do sacrifício de muitas pessoas, na forma como foram tratadas, ou no que tiveram de enfrentar e mudar. Já o disse, e continuarei a dizer: é de inteira justiça que o futebol português procure reparar os danos causados a um homem chamado José Torres, causados pela incapacidade de alguns protagonistas que criaram Saltillo, e cuja vítima principal foi precisamente esse senhor, José Torres. Muitas pessoas escaparam desse naufrágio, voltando à Federação para continuar o seu percurso de incapacidade. Eu era jovem, mas estava lá e recordo-me. Mas insisto: se o futebol português não reparar o prejuízo a uma memória viva como José Torres, então estará sempre ferido de dignidade.

A chamada Geração de Ouro cumpriu as expetativas?

Tenho a certeza que sim. Nem todos repartiram ou viveram os mesmos momentos de glória e exaltação, mas todos eles foram fundamentais na forma como marcaram e estão a marcar, definitivamente, o nosso futebol, alguns agora até como treinadores e dirigentes. O sonho e objetivo de qualquer treinador é ganhar, naturalmente, mas creio que a sua missão enquanto líder, além de vitórias, é a de procurar deixar um legado técnico. Poucas pessoas têm dúvidas da existência desse legado técnico e de que a geração de outro é a dinastia gerada nesse legado.

Num contexto muito diferente, nos anos 90, referiu-se à porcaria que havia na Federação. Como analisa agora essa mesma Federação?

Já nem me lembrava disso, era o Vasco da Gama presidente da Federação certo? (sorrisos). Agora a sério: aqui está um exemplo de uma pessoa que dá a mão à palmatória por um comentário desapropriado. Havia coisas que deviam mudar, sem dúvida, foi uma vida de luta, ou se calhar a luta na minha vida, pelas minhas convicções e pelo que achava ser o melhor para o futebol português. O que acontece é que por vezes os instrumentos de luta que utilizamos não são os mais aconselháveis... Essa expressão foi o tempo e o momento, passaram uns quantos séculos, mas talvez seja importante enquadrar. Em primeiro lugar, se fosse hoje, com as atuais regras do jogo seria impossível o António Esteves Martins entrar no campo e meter-me um microfone à frente naquele momento tão quente. Acabávamos de perder daquela forma contra a Itália, e no banco tinha acabado de dizer ao Nelo [Vingada, seu adjunto na altura]: “Se não fosse tudo o que vivemos até aqui, até onde é que esta equipa podia ter chegado?”. À frente do microfone traduzi o mesmo sentimento e saiu esse comentário, que já referi ser desajustado, mas que tinha a sua razão. É que, em segundo lugar, importa lembrar que disputámos essa qualificação para o Mundial com três direções e três presidentes diferentes na Federação, com a seleção a atravessar as tempestades e o mundo de problemas que todos conhecem, e que não interessa estar a lembrar. A seleção portuguesa que foi campeã de Europa tem hoje uma direção estabilizada, um presidente estabilizado. É uma Federação com autoridade, credibilidade e estabilidade, precisamente o que não existia em 1994.

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Trabalhou no Manchester United e no Real Madrid. Para lá das diferenças culturais entre os povos e os países, o que mais distingue os dois clubes?

São dois clubes com ADN diferentes. São muitas as coisas que têm em comum, na sua grandeza, na história, ou por serem dois clubes de paixão universal, profundamente enraizados nos seus países, mas o Manchester United que conheci é muito ligado a um certo conceito de trabalho, ou de valores do trabalho e de entrega, que está muito enraizado no clube e até nos adeptos. Não estou a dizer que os adeptos de um lado sejam apenas aquela típica classe trabalhadora, operária, e que o Real Madrid não tenha também esse apoio. Mas o Madrid que conheci tem uma raiz de pensamento um pouco diferente, em que o clube é o que é real, em que o clube está sempre acima de tudo e de todos, dos jogadores e dos treinadores que passam. O que fica nas vitrinas são os troféus, aliás, não será por acaso que o único jogador que se confunde com o clube é Di Stéfano. Os outros são humildes, geniais e destacados servidores do clube.

E o Manchester United?

No Manchester United é diferente, falar do clube é falar de Bobby Charlton, de George Best, de Dennis Law, de Cantona... Falar do clube é falar da história desses jogadores. O Real são as taças, o branco e Di Stéfano. Estamos a falar provavelmente dos dois maiores clubes do Mundo, ambos com implantação nacional e internacional, cada um com hegemonias regionais em alguns continentes, em termos de adeptos, que resultam de alguma proximidade cultural e das estratégias com as transmissões televisivas (porque há futebóis mais visíveis nuns lados do que noutros), mas que se diferenciam mais pelos ADN distintos. 

Já falou na possibilidade de deixar o futebol após o Mundial na Rússia. Mantém essa ideia ou pondera trabalhar num outro país de onde tenha recebido ofertas (Argélia, Qatar, China)?

Como disse anteriormente, depois de 36 anos e quatro qualificações para Mundiais, farei a reflexão que se impõe após o Mundial da Rússia, é natural. Também será natural dizer que não estou propriamente à procura de oportunidades, ou de qualquer projeto. Eventualmente um projeto que ajude a viabilizar a concretização desse objetivo de cinco qualificações possa falar mais alto, isto é, um um projeto digno e louvável, que não me faça começar novamente tudo de trás, a preocupar-me com o ar das bolas ou as linhas no campo. Aí será mais difícil. Depois de quatro qualificações, com a última a treinar quase sempre num campo de 60 metros, creio ser legítimo ambicionar ter um campo inteiro para treinar (sorriso).

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