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Carlos Fangueiro, o treinador português que conquistou o Luxemburgo
Desporto 15 12 min. 06.07.2022 Do nosso arquivo online
Futebol

Carlos Fangueiro, o treinador português que conquistou o Luxemburgo

O treinador português Carlos Fangueiro.
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Carlos Fangueiro, o treinador português que conquistou o Luxemburgo

O treinador português Carlos Fangueiro.
Foto: Claude Piscitelli
Desporto 15 12 min. 06.07.2022 Do nosso arquivo online
Futebol

Carlos Fangueiro, o treinador português que conquistou o Luxemburgo

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
É o primeiro treinador português a sagrar-se campeão do Luxemburgo. Ao leme do F91 Dudelange, Carlos Fangueiro conseguiu alcançar o sonho de disputar a Champions. O primeiro jogo é já hoje. Aos 45 anos, sente que está no melhor momento da carreira e quer voltar a Portugal para mostrar do que é capaz.

Esta quarta-feira, Carlos Fangueiro vai realizar um dos maiores sonhos. A sua equipa, o F91 Dudelange, vai disputar a primeira eliminatória da Liga dos Campeões, contra os albaneses do Tirana (19h30, no Estádio Jos Nosbaum). Um sonho tornado realidade quando o treinador de 45 anos conquistou, na última época, a Liga BGL. É o primeiro português a sagrar-se campeão do Luxemburgo. Para a nova temporada, o grande objetivo é voltar a vencer o campeonato e chegar o mais longe possível nas competições europeias.

Carlos sente “um orgulho e uma honra muito grande” por ser o primeiro português a ganhar o campeonato do Luxemburgo. “Sobretudo porque no país a comunidade portuguesa é enorme. Sinto um carinho especial e isso dá-me força e motivação para fazer mais e melhor a cada dia que passa”, disse o técnico, com o habitual boné negro, sentado na bancada do Jos Nosbaum, o estádio do clube. Estava prestes a orientar mais um treino da equipa. Começaram a nova época mais cedo para preparar a eliminatória da Champions.

O jogo da primeira mão com o Tirana, campeão da Albânia, é o início de uma jornada europeia que o treinador quer o mais longa possível. “Tudo vamos fazer para passar. Conhecemos bem o adversário. Tem pontos fortes e alguns menos fortes, que vamos tentar explorar. É uma competição extremamente difícil para os clubes do Luxemburgo. Mas estou confiante sobretudo para este primeiro play-off”, assumiu, lembrando que o percurso não se esgota na Champions. “Se passarmos esta eliminatória, na pior das hipóteses podemos cair na Liga Europa e depois na Liga Conferência, mas já à porta do apuramento para a fase de grupos, o que é ótimo”.

É um orgulho e uma honra muito grande. Sobretudo porque a comunidade portuguesa no país é enorme. Sinto um carinho especial.

Carlos tem 45 anos.
Carlos tem 45 anos.
Foto: Claude Piscitelli

A equipa está “muito motivada e confiante”, garante o português. Na época passada, o F91 Dudelange venceu 21 dos 30 jogos que disputou no campeonato e só perdeu cinco. “É uma equipa baseada numa ideia de jogo com muita posse de bola, que procura entrar nos corredores. Tem uma grande organização defensiva. Fomos o melhor ataque e a segunda melhor defesa, com dois golos de diferença para a melhor defesa do campeonato. Isso faz-nos acreditar que o trabalho foi bem feito”, reconheceu, antes de revelar o segredo do sucesso: “Há um grande espírito de grupo, da família que construímos aqui. Todos se protegem”.

Apesar dessa superioridade, o campeonato do Luxemburgo é “extremamente competitivo”, admite Carlos. “Desde que cheguei ao Luxemburgo, há 10 anos, foi o campeonato mais competitivo de todos. Havia seis clubes que queriam ser campeões, oito ou nove que queriam ir às competições europeias. Foi um trajeto muito complicado, mas felizmente no final saímos vencedores”. O técnico acredita que isso tem vindo acontecer cada vez mais nos últimos anos, porque há uma “aposta dos clubes e há poder financeiro”. Por isso, reflete, não é de estranhar ver os clubes do topo da classificação a comprar jogadores profissionais.

Além da crescente competitividade, Carlos considera que é preciso valorizar também aquilo que a Federação tem feito em relação à escola do futebol, porque durante a semana guarda os melhores jogadores até uma determinada idade e depois liberta-os para as equipas principais. “Existe um trabalho fantástico que está a ser feito entre Federação e clubes. Não é surpresa nenhuma ver hoje em dia o resultado das equipas nacionais. O Luxemburgo esteve presente no campeonato da Europa de sub-17. A Seleção A também tem tido bons resultados. O Dudelange esteve há quatro anos na fase de grupos da Liga Europa. Tudo isso vai valorizando o se faz aqui e é bom para toda a gente”.

Tenho quase a certeza absoluta de que não descíamos de divisão [na II Liga portuguesa]. Fazíamos um campeonato tranquilo e acho que conseguíamos ficar no meio da tabela.

O nível das equipas luxemburguesas é cada vez maior e o treinador até admite que a sua teria condições para jogar na II Liga portuguesa. “Tenho quase a certeza absoluta de que não descíamos de divisão. Fazíamos um campeonato tranquilo e acho que conseguíamos ficar no meio da tabela”, apostou. No entanto, o plantel deste ano vai sofrer algumas alterações. “Por um lado, deixa-me triste, mas por outro fico feliz, porque é a fatura que se paga quando se faz um excelente campeonato e os jogadores saem valorizados. Perdi o Adel Bettaieb para a primeira divisão turca. O Kobe Cools para a segunda liga belga. O Kevin Van Den Kerkhof para a segunda liga francesa. O Ricky para o Hesperange. Perdi jogadores de referência”.

O técnico reconhece que os novos jogadores ainda não estão nas melhores capacidades físicas, mas assim que estejam vão continuar com a mesma ideia de jogo. “Estou convencido de que poderemos apostar num título na próxima época”, afirmou, definindo o bicampeonato como o grande objetivo. “Quem ganha tem que aspirar a ser novamente campeão. Sabemos que há vários clubes que em termos financeiros têm projetos muito superiores, mas o campeonato teve uma valorização fantástica para nós. Temos mais hipóteses financeiras, sabendo que há outros clubes com grandes orçamentos. Mas estou confiante para o futuro”, garantiu.

Um caminho de sacrifício

Tal como os jogadores ficaram valorizados, o treinador também foi cobiçado por outros clubes. Em finais de novembro do ano passado, Carlos recebeu uma proposta de um clube da II Liga portuguesa. Acabou por não aceitar, porque sentiu que não era o momento. Também foi solicitado para outros projetos no Luxemburgo, que recusou. “Não escondo que iria ganhar mais dinheiro, mas não era isso que eu estava à procura. Fui à procura de estabilidade em termos de equipa e da presença na Liga dos Campeões, que era um sonho para mim. Vou fazê-lo com um grupo que formei e me deu um prazer enorme de trabalhar durante estes dois anos”.

O português acabou por renovar com o F91 Dudelange por mais dois anos. A ideia é continuar o percurso no Luxemburgo, do qual sente muito orgulho. “Comecei num clube muito pequeno, o Atert Bissen, e subimos a equipa. Em Pétange, fui coordenador geral da formação e também subimos todos os escalões. Metemos muitos miúdos na primeira equipa. No meu último ano como treinador principal, acabamos por ir às competições europeias. No Dudelange tem havido uma transformação em termos de organização e poder financeiro. Os passos que tenho dado são seguros e há uma honra imensa no que tem sido feito”, assumiu Carlos, admitindo que este é “até hoje o ponto mais alto da carreira”.

Comecei e acabei no Leixões, era algo que eu queria muito. Quando renovei, disse ao presidente que no dia em que eu sentisse dificuldade em fazer aquilo que mais gosto, era o dia para eu parar.

Carlos mudou-se para o Luxemburgo há 10 anos. Na altura, tinha acabado de terminar a carreira de jogador profissional no Leixões, o clube do coração e da sua cidade, Matosinhos. “Comecei e acabei no Leixões, era algo que eu queria muito. Quando renovei, disse ao presidente que no dia em que eu sentisse dificuldade em fazer aquilo que mais gosto, era o dia para eu parar. Nessa altura já não me sentia muito bem e já não dava para continuar a um bom nível”, recordou. Aos 35 anos, aceitou um convite para ser treinador-jogador do Bissen, convencido pelo amigo e antigo guarda-redes Adamo Martins, que também estava no Grão-Ducado.

Como gostou do país, o português acabou por trazer a família: a mulher e os quatro filhos, três raparigas e um rapaz de 18 anos, quadrigêmeos. Quando chegou, ficou surpreendido com quantidade de portugueses que encontrava, o que “facilitou a integração”. Apesar de sentir falta do sol e do mar de Matosinhos, rapidamente se apaixonou pelo novo país. Tem tido um “trajeto muito bonito”, mas nem sempre fácil. “Nunca ninguém me deu nada. Foi tudo com muito suor, dedicação e muito sacrifício, sobretudo para a família. Mas no final todo esse sacrifício valeu a pena. Estamos a recolher os frutos”, reconheceu.

Na opinião do treinador, o futebol tem melhorado muito no Luxemburgo nos últimos anos, mas ainda pode crescer mais. “Houve uma evolução tremenda. Mesmo assim, comparando com Portugal, ainda existe uma diferença a nível tático e sobretudo estratégico. Logicamente que a qualidade dos jogadores no geral é muito maior em Portugal, mas aqui também vão surgindo alguns”. Outro desafio foi a barreira linguística, porque Carlos não falava inglês nem francês. Ao início tinha um adjunto que ia traduzindo, mas depois foi aprendendo e agora já fala fluentemente o francês. Mesmo tendo na sua equipa dois adjuntos e nove jogadores que também falam português.

O plantel do F91 Dudelange que está a ser construído para a nova época.
O plantel do F91 Dudelange que está a ser construído para a nova época.
Foto: Claude Piscitelli

Este ano, por causa da preparação para o play-off da Champions e a contratação de jogadores, Carlos não conseguiu ir a Portugal, mas sempre que pode vai a Matosinhos para visitar os amigos e aproveitar o tempo com a família junto à praia e ao mar. Tem uma ligação muito grande à pesca. Na família, quase todos eram pescadores e tinham barcos. “As minhas avós e os meus pais contavam que quando era preciso ir vender peixe eu ficava a dormir dentro de um cabaz de sardinha. A ligação ao mar e àquela terra é enorme. Matosinhos identifica-se muito com isso e eu também”, disse, orgulhoso das suas origens.

O desgosto da carreira

Depois da paixão pelo mar, a paixão pelo futebol. “Desde pequeno que era apaixonado. O meu pai tinha jogado futebol, não a um grande nível, mas incutiu-me isso. Havia uma mística muito grande com o Leixões. O meu pai era adepto fervoroso e levava-me aos jogos. Era um amor tremendo. Não falhava um jogo, nem fora nem em casa”, garantiu. Aos nove anos, começou a jogar no clube do coração. Conta com saudade o dia em que estava a assistir a um treino e o treinador da altura, o falecido Óscar Marques, “uma lenda”, o viu e perguntou: “Então miúdo, queres jogar?”, ele respondeu logo que sim e foi jogar de sapatos.

Foi jogador do Leixões até aos 19 anos. “Aos 16 já tinha sido titular na segunda liga pela primeira equipa e aos 18 era capitão da equipa. Depois fui transferido para o Vitória de Guimarães”, contou. O extremo-direito passou ainda por clubes como Maia, Gil Vicente, Leiria, Vizela e Beira-Mar, em Portugal. No estrangeiro, jogou pelos ingleses do Millwall, os gregos do Ionikos e os vietnamitas do Hanoi. Voltou a representar o Leixões na época 2010/2011 e terminou a carreira de jogador no Atert Bissen, no Luxemburgo.

Não ter ido para o Benfica é sem dúvida alguma o meu maior desgosto no futebol. Porque estive tão próximo. É um grande dissabor.

Nestes quase 15 anos de carreira, uma transferência falhada para o Benfica foi o seu “maior desgosto enquanto profissional”. Na altura, jogava no Vitória e o seu agente disse-lhe que “estava tudo feito” para ir para a Luz. “Estava extremamente feliz, mas ficava sempre com a dúvida. Depois de um jogo contra o Benfica, em Felgueiras, porque o estádio do Vitória estava a ser construído para o Euro2004, fui ao balneário do Benfica para trocar a camisola com o Petit, porque tínhamos jogado juntos no Gil Vicente. Neste período em que estou à espera, sai o António Simões, que era o diretor-geral, deu-me um abraço e disse: ‘Então miúdo, estás a par da situação? Vamos fazer isto, vai ser rápido, está quase tudo decidido’. Foi aí que pensei ‘vou mesmo para o Benfica’”, recordou.

A transferência acabaria por falhar porque o presidente do Vitória à altura, Pimenta Machado, pediu um valor superior ao que estava acordado e os dirigentes do Benfica “ficaram cansados da negociação”, explica. “Eu acabei por ficar em Guimarães, e fiquei feliz, mas esse episódio é sem dúvida alguma o meu maior desgosto no futebol. Porque estive tão próximo. Só faltava mesmo a transferência que nunca veio a realizar-se. É um grande dissabor”. Um destino que talvez lhe esteja reservado enquanto treinador. “Sou extremamente exigente, se calhar até demais. Sou um perfecionista em tudo na minha vida. Isso faz-me querer ser mais e melhor a cada dia. Vou atrás do meu sonho. Tudo irei fazer para chegar o mais alto possível na minha carreira”.

Não vou dizer que vou treinar um dos grandes, porque isso é quase impossível. Mas talvez um bom projeto em Portugal, mesmo na II Liga.

O técnico não aponta nenhum clube em específico que gostasse de treinar, mas assume o objetivo de voltar a Portugal. “Não vou dizer que vou treinar um dos grandes porque isso é quase impossível. Mas um bom projeto em Portugal, mesmo na II Liga, para mostrar aquilo do que sou capaz e depois daí vê-se”. Assim que surgir uma oportunidade, Carlos quer regressar. “Gosto muito do meu país. Portugal tem condições fantásticas para o futebol, sobretudo na primeira e na segunda liga. É um sonho, uma ambição muito grande, e estou a fazer tudo para que seja uma realidade o mais rápido possível”, revelou.

No próximo ano, os filhos vão para a universidade e querem ir estudar para Portugal. “Se calhar aí eu mudo”, admitiu o treinador. Por enquanto, vai continuar a tentar conquistar títulos no Luxemburgo pelo F91 Dudelange, para dar alegrias ao clube e à cidade. “Conseguimos recuperar algo que as pessoas não acreditavam que era possível recuperar: este calor que existe entre equipa e adeptos. Após uma vitória cantamos no campo com eles. Sentem-se parte integrante do projeto. Isso não exista há muito tempo aqui. Recuperamos e ainda reforçamos. É importante, sobretudo neste país”.

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asd