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Cantona, o dia de estreia na Luz
Desporto 4 min. 30.11.2019

Cantona, o dia de estreia na Luz

Cantona, o dia de estreia na Luz

Foto: AFP
Desporto 4 min. 30.11.2019

Cantona, o dia de estreia na Luz

Em dia da festa de aniversário de Eusébio, a 1 Dezembro 1992, o rei Eric consegue ver um cartão amarelo.

Eric Daniel Pierre Cantona. No dia 1 Dezembro 1992 (faz anos este domingo), por ocasião da festa do 50.º aniversário de Eusébio, o nome do francês passou despercebido à esmagadora maioria dos presentes no Estádio da Luz. Dos 50 mil espectadores, dos 70 jogadores e dos seis árbitros naquela tarde de festa, só Hernâni e Fernando Mendes convivem com um sujeito alto e mal-encarado, (re)conhecido à escala global como enfant terrible.

Porquê tanto alarido? É o dia de estreia de Cantona, uma semana depois de ter assinado pelo Manchester United, via-Leeds United, onde o seu ar de “franciú” combina mal com o estilo british de Howard Wilkinson, ainda hoje o último treinador inglês a sagrar-se campeão inglês, precisamente nesse Verão de 1992, com Cantona em grande estilo. O problema é o estilo rezingão de Eric.

Para evitar mais problemas, o Leeds coloca o passe de Cantona à venda por 1,2 milhões de libras. O United é o primeiro clube interessado, até porque a dupla Mark Hughes e Brian McClair está a dar para o torto. Cantona assina a 26 Novembro e joga a 1 Dezembro. O dia é indiscutivelmente do rei Eusébio. E também de outro rei (ou melhor, Le Roi, como lhe chamariam os adeptos em Manchester). Porque um jogo sem cartões é monótono, porque 90 minutos sem adrenalina não é nada, porque sim. Fosse pelo que fosse, Cantona estica a corda com duas entradas fora de tempo na segunda parte: aos 49 minutos, sobre Hernâni; aos 55’, sobre Fernando Mendes. É aí que o árbitro Vítor Pereira interrompe o jogo. E a brincadeira. Toma lá um cartão amarelo. O jogo, que serve de pretexto para recuperar fisicamente João Vieira Pinto, só seria resolvido aos 81 minutos por Rui Costa, a aproveitar defesa incompleta de Peter Schmeichel a remate de fora da área de Kenedy.

Um-zero em golos para o Benfica, um-zero em cartões amarelos para o United. Culpa de Cantona. Que até acusa o golpe na boa. O golpe de kung-fu, esse, é adiado por três anos. Saltamos para o dia 25 Janeiro 1995. Atrás dos painés de publicidade da moda (consola Sega) no Selhurst Park, casa do Crystal Palaca, 18.224 espectadores esperam golos. Nada, zero-zero. Aos 49 minutos, Schmeichel alivia a bola da sua área e proporciona um contra-ataque. Só que Cantona derruba Richard Shaw, com um pontapé nas pernas. A confusão é imediata, com a gritaria dos adeptos e a contestação dos jogadores do Crystal Palace, a que se junta a crispação dos do United, no momento do vermelho directo do árbitro Alan Wilkie. É o quinto para Cantona em 98 jogos pelo United.

Vê-se então um Cantona irreconhecível. A olhar para o banco, onde está Alex Ferguson com a cara mais rosada que a pantera dos filmes de Peter Sellers, baixa a gola da sua camisola e começa a caminhar em direcção ao balneário, escoltado por Norman Davies, chefe dos equipamentos do United. É então que Matthew Simmons, adepto do Crystal Palace com 20 anos de idade, sai do seu lugar e desce 11 filas para insultar o número 7. “Fuck off , back to France, you French motherfucker” (vai-te f****, volta para a França, seu francês filho da p***). Cantona ouve e passa à acção, como nunca ninguém havia feito.

E não é só o golpe de kung fu, pois seguem-se mais dois pontapés no estômago do prevericador. Enquanto os outros jogadores do United discutem com os adeptos, Schmeichel acalma Cantona e leva-o para o balneário.

Fim da história? Nada disso, ainda falta a parte picante. Martin Edwards quer expulsar Cantona para sempre e é Alex Ferguson quem acalma o presidente do United e ainda viaja até França a fim de convencer o avançado francês a voltar a Inglaterra para cumprir a suspensão atribuída pelo tribunal (nove meses na prateleira mais 120 horas de serviço comunitário mais 10 mil libras de multa). No dia da sentença, a 1 Abril 1995, Eric apresenta-se a um comité de observadores da federação inglesa. “Quero pedir desculpa ao presidente da comissão. Quero pedir desculpa ao Manchester United, a Maurice Watkins [director do clube] e a Alex Ferguson. Também quero pedir desculpa aos meus companheiros e à federação. E ainda à prostituta que dividiu a minha cama ontem à noite.” É o fungagá da bicharada.

Mais tarde, na conferência de imprensa, Cantona dirige-se aos jornalistas em pouco mais de 18 segundos, enquanto bebe um copo de água. “Quando as gaivotas [jornalistas] seguem a traineira [jogadores], é porque pensam que as sardinhas [frases controversas] vão ser atiradas ao mar [ao público em geral]” Camus? Sartre? Rien de rien, c’est Cantona.

Rui Miguel Tovar