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Brian Clough, o génio da bola
Desporto 5 min. 22.01.2022
Histórias da Bola

Brian Clough, o génio da bola

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Brian Clough, o génio da bola

Foto: Anita Maric/EPA
Desporto 5 min. 22.01.2022
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Brian Clough, o génio da bola

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Este sábado há um Nottingham Forest vs Derby County e é impossível passar ao lado da história dos dois clubes sem falar do maior.

And now for something diferent, eis Brian Clough. O mestre dos mestres, o mais carismático dos treinadores ingleses, o conquistador de proezas nunca mais vistas pelo Derby e também pelo Nottingham Forest. Nem de propósito, este sábado há Nottingham Forest vs Derby County. É a magia da 2.ª divisão inglesa, esqueça lá a Premier League com os clubes entregues ao novo-riquismo dos multimilionários asiáticos. Acredite em nós, embarque na viagem do Brian Clough em five, four, three, two, one…  

Segunda-feira, 20 Setembro 2004. Inglaterra acorda sobressaltada com a morte de Brian Clough, o homem dos milagres. Quais? O milagre de treinar dois rivais como Nottingham Forest e Derby County (até ao ponto de ter uma placa Brian Clough Way na via rápida entre as duas cidades). O milagre de levar o Derby ao título de campeão inglês da 2.ª divisão em 1969 e ao da 1.ª em 1972. O milagre de levar o Nottingham da 2.ª divisão inglesa à conquista da Taça dos Campeões em duas épocas.

A sua vida dá um livro. E, já agora, um filme. Chama-se Damn United (Maldito United). Diz quem vê: se gostar de futebol inglês, vá ver o filme; se não gostar, vá na mesma. Além de uma lição de bom comportamento é também uma chicotada (psicológica) na ambição desmedida. E enquanto a fita corre percebemos que aquela coisa do "quem tudo quer, tudo perde", afinal é verdade.

Conta-se a vida de Brian Clough, um tipo maniento, treinador do Derby County, um clube no fundo da tabela da 2.ª divisão, que toma Don Revie, treinador do Leeds United, como inimigo pessoal. Como seria de esperar, num filme de futebol pede-se glória, festejos e jogadores em tronco nu, a chorar de felicidade nos balneários. E assim é retratada a assombrosa escalada do Derby County à 1.ª divisão e posteriormente ao título. Logicamente o provinciano Derby torna-se demasiado pequeno para a ambição de Clough, que entretanto aceita chefiar o robusto Leeds United, campeão em título. Mas a passagem de Clough é breve e amarga. Só dura 44 dias.


A partir daqui, Clough converte-se e, redimido, aceita treinar o Nottingham Forest, clube que lhe dá a maior projecção possível. Desde Janeiro 1975 a Maio 1993, faz 907 jogos e ganha 11 títulos, três deles internacionais, todos em menos de um ano (duas Taças dos Campeões, vs Malmö e Hamburgo, mais uma Supertaça europeia, vs. Barcelona).

Veja lá bem esta saga: o Nottingham está em 13.º lugar da 2.ª divisão inglesa quando chega Clough, a 3 Janeiro 1975, para substituir Allan Brown. A estreia é promissora, três dias mais tarde, com 1:0 vs Tottenham para a Taça de Inglaterra. Quando essa época acaba, o Nottingham é 8.º e Clough chama um adjunto de sua confiança, Peter Taylor, dos tempos do Hartlepool (1965), e Derby County (1967).

A dupla encarrega-se de preparar a época 1976/77 e a subida à 1.ª divisão é uma realidade com o terceiro lugar. Entre os grandes, o Nottingham mexe-se com um à-vontade sensacional e (imagine-se!) é campeão inglês. Assim de repente, sem pré-aviso. Okay, o Nottingham imita Liverpool em 1906, Everton 1932, Tottenham 1951 e Ipswich Town 1962. E, atenção, é uma imitação das boas, daquelas em que não se nota uma única imperfeição.

Easy boy, há muito mais. O Nottingham não só é campeão inglês como ainda ganha a Taça da Liga ao Liverpool (1:0 no jogo de desempate). Now what? Brian Clough não quer parar e o Nottingham também não. Daí que os dois títulos sejam revalidados com naturalidade: primeiro a Taça da Liga, depois o campeonato. No fim da época, a cereja no topo do bolo. Que é como quem diz, a Taça dos Campeões. Após eliminar Liverpool (campeão em título), AEK, Grasshopper e Colónia com cinco vitórias e três empates, segue-se a final de Munique vs Malmö. Um golo de Trevor Francis arruma a questão a favor de Clough.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O ciclo está completo? Nem por sombras. Na época seguinte, o Nottingham conquista a Supertaça inglesa (5:0 vs Ipswich Town) e ainda a tal Supertaça europeia vs Barcelona (1:0 e 1:1). Na Taça dos Campeões cumpre-se o sonho do bis numa campanha mais sofrida que a anterior com cinco vitórias, um empate e duas derrotas, vs Öster Vaxjö, Arges Pitesti, Dínamo Berlim e Ajax. Na final de Madrid, vs Hamburgo, apitada pelo português António Garrido, um só golo de Robertson decide. O resto é com Peter Shilton, que defende tudo e mais alguma coisa: one-nil. Agora sim, o sonho dos títulos acaba – se bem que Clough continue por Nottingham até 8 Maio 1993.

O seu legado é extraordinário. Em várias frentes. Conta Viv Anderson, o primeiro negro internacional inglês. "Estou a aquecer na linha lateral e os adeptos insultam-me. Black this, black that. Atiram-me coisas. Regresso ao túnel de acesso, onde me deparo com o treinador, Brian Clough. Ele diz-me 'pensava que te tinha dito para aqueceres'. Já fiz isso, respondi eu, mas eles atiraram-me bananas, maçãs e peras. Clough muda de cara, olha para mim muito sério e diz-me só isto: 'Ai sim, fruta? Então mexe-me esse rabo e traz-me duas peras e uma banana!'"

Esta é só uma. Há mais, muitas mais.

'Se eu não consigo soletrar espaguete em italiano, como vou pedir para um jogador italiano pegar a bola?' (sobre o excesso de estrangeiros na Premier).

'David Seaman passa mais tempo à frente do espelho do que a olhar para a bola. Assim é impossível ser guarda-redes.' (sobre o guarda-redes da selecção inglesa e do Arsenal)

'Finalmente, temos um seleccionador que fala melhor inglês que os jogadores' (sobre a contratação do sueco Sven-Goran Eriksson pela federação inglesa).

'Não fui o maior treinador, mas sempre ocupei o lugar número um.' (sobre ele mesmo)

'Levava os jogadores a passear por 20 minutos e depois decidíamos que eu é que tinha razão'.

Brian, até sempre.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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