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Benfica vs Liverpool. O mundo de Graeme Souness
Desporto 6 min. 05.04.2022
Liga dos Campeões

Benfica vs Liverpool. O mundo de Graeme Souness

O escocês Graeme Souness, à esquerda na foto, foi treinador do Benfica entre 1997 e 1999.
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Benfica vs Liverpool. O mundo de Graeme Souness

O escocês Graeme Souness, à esquerda na foto, foi treinador do Benfica entre 1997 e 1999.
Foto: João Trindade/EPA/Lusa
Desporto 6 min. 05.04.2022
Liga dos Campeões

Benfica vs Liverpool. O mundo de Graeme Souness

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Único elo de ligação de treinador entre os dois clubes hoje em ação na Luz para a 1.ª mão dos ¼ final da Liga dos Campeões.

Tchan tchan tchan tchaaaaaaaaan, ei-la. A Liga dos Campeões, de volta. É a primeira mão dos ¼ final com três clubes ingleses, outros três espanhóis mais um alemão e um português. Ya, é o Benfica. Calha-lhe a fava Liverpool, a equipa mais rock n’roll do mundo e arredores por influência do estilo Klopp, Jürgen Klopp. É ele o treinador do Liverpool desde Outubro 2015, cinco meses após à saída de Dortmund. Curiosamente, Klopp está de férias em Lisboa no momento da proposta telefónica do dono do Liverpool para substituir Brendan Rodgers. A empatia desenvolve-se, Klopp voa para Liverpool e o resto é história. So far, 224 vitórias em 366 jogos mais cinco títulos, três deles internacionais. É obra.

Treinador, Lisboa, Benfica, Liverpool. Há algum elo de ligação? Ya, é Graeme Souness. O escocês completa 157 jogos pelo Liverpool entre Abril 1981-Janeiro 1984 mais 71 pelo Benfica entre Novembro 1997-Maio 1999. Em matéria de títulos, só um nessas duas passagens, o da Taça de Inglaterra 1992, em Wembley. Ainda é do tempo em que a RTP dá em directo, comentários de Rui Tovar. Acaba 2:0 vs Sunderland, com um super McManaman a driblar toda a gente pela direita antes de oferecer o primeiro da tarde a Michael Thomas – esse mesmo, o das 'big balls', expressão de Souness para acalmar os críticos benfiquistas à sua forma pachorrenta de jogar no meio-campo. O 2:0 é obra do lendário Ian Rush, a passe de Michael Thomas.

Dizíamos, Souness levanta a Taça de Inglaterra 1992 e é só. O seu currículo é curto, muito curto para a grandeza do Liverpool. E, ainda por cima, comete a proeza (sort of speak) de acabar a Premier League 1992-93 em sexto lugar, fora do acesso à UEFA, nunca visto em Anfield desde 1963, excepção feita à suspensão da UEFA provocada pelos incidentes em Heysel, of course. O seu nome é esquecido pelos adeptos, apagado da história, e Souness vai pregar para outra freguesia. Segue-se Galatasaray, Southampton e Torino antes de uma operação de charme de Vale e Azevedo.

Ah pois é, o presidente do Benfica saca Souness do nada. Estamos no primeiro dia de Novembro, 1997. Souness é um nome impressionante. Como jogador, chega a capitão do Liverpool e levanta Taças dos Campeões. Como treinador, é a tal obra da Taça de Inglaterra. O contrato é de dois anos e meio – abreviado pela dispensa em Maio 1999, na ressaca de um 1:1 vs Campomaiorense. No seu legado, Souness acumula mais conflitos que palavras portuguesas. "Não preciso de aulas de português, tenho um livro lá em casa que me ajuda a falar." Mentira, Souness nunca fala português aos jornalistas e aos jogadores. Como se isso fosse pouco, as suas contratações falam inglês até dizer chega: Harkness, Charles, Thomas, Saunders, Pembridge e Deane.

Entre os 71 jogos, há resultados do arco da velha como as três derrotas vs Boavista em quatro jogos, uma delas sobejamente conhecida por 3:0 em plena Luz. Há a incapacidade de ganhar aos amadores do HJK Helsínquia para a fase de grupos da Liga dos Campeões (2:0 na Finlândia, 2:2 na Luz). Por outro lado, há a dupla vitória no José Alvalade (2:1 com bis de Beto na própria baliza mais 4:1 no regresso de JVP aos relvados) e aquele 3:0 ao já campeão FC Porto. Estamos a falar de uma equipa com Preud'homme mais Poborsky mais JVP mais Nuno Gomes.

Às turras com o presidente Vale e Azevedo (e vice-versa), Souness sai pela porta pequena. Mais pequena é a sua atitude contra Portugal. Na véspera do jogo vs Inglaterra no Euro-2000, o treinador escreve uma página de escárnio e mal-dizer sobre a selecção portuguesa – só se escapa Figo. Ouçamo-lo:

  • "Ao contrário do que muita gente pensa, Portugal não tem um grupo de jogadores de classe mundial e a Inglaterra demolirá os portugueses mesmo a jogar 80 por cento do que sabe"
  • "Há dois anos, na estreia de Humberto Coelho como seleccionador, Portugal teve mais posse de bola do que a Inglaterra e perdeu 3:0. Quando os ingleses marcaram o segundo golo, Portugal passou a correr atrás da bola. A selecção portuguesa é uma equipa típica latina. É muito vistosa, mas que faz poucos estragos. Jogam bastante em zonas onde não causam perigo a ninguém."
  • "Portugal tem uma defesa fraca e dianteiros com medo de enfrentar os defesas, jogando como avançado-centro. Quando cheguei ao Benfica, havia uma meia dúzia de jogadores que pretendiam jogar no apoio aos dois avançados"
  • "Rui Costa, por exemplo, apenas pode jogar naquela posição na selecção portuguesa: a posição do 'sem-responsabilidade'. Essa é uma posição onde se faz pouco. É um lugar onde não se tem responsabilidade, não se recua para defender nem se recuperam bolas. Todos querem jogar atrás do avançado. Ninguém tem a coragem de avançar e dizer: 'Eu sou o vosso goleador. Passem-me a bola que eu coloco-a lá dentro'"
  • "Individualmente, Vítor Baía é um guarda-redes traiçoeiro, incapaz de comandar a defesa nos lances de bola parada e fraco no jogo aéreo"
  • "João Pinto não é uma ameaça goleadora, porque joga em zonas que são fáceis de defender. Não é, propriamente, um homem de assistências de golo. É mais um indivíduo com uma notável capacidade de fazer uns quantos 'números', mas que, no final, têm um rendimento quase nulo"
  • "Nuno Gomes tem uma rara habilidade para marcar golos na Liga portuguesa, mas duvido da sua capacidade para ser um goleador na selecção. No Benfica, costuma estar no sítio e locais certos, mas foge ao contacto. O Adams assustá-lo-á até à linha de meio campo"
  • "Apenas Figo tem classe mundial e pode jogar em qualquer campeonato do mundo. É o único jogador com quem a Inglaterra tem de preocupar-se".

Pois bem, a Inglaterra adianta-se no marcador. E dobra a vantagem. Antes do intervalo, Figo reduz do meio da rua e JVP empata num glorioso voo rasante – a jogada começa bem antes, lá atrás, antes do nosso meio-campo. Os ingleses andam atarantados com tanta troca de bola. Quer dizer, nem a vêem. É um pré tiki-taka, vá. De repente, Rui Costa. Abel Xavier. Paulo Bento. Rui Costa. Tudo num curto espaço de terreno, ali encostado à direita do nosso ataque. Insistimos, os ingleses não sabem o que fazer. Ainda hoje é assim: sem bola, é uma fragilidade inqualificável. Insistimos, Rui Costa. Do seu pé direito parte o cruzamento para o primeiro poste. Longe de ser o ideal, JVP adianta-se a Sol Campbell e atira-se de cabeça, metafórica e literalmente. O mergulho permite-lhe cabecear, ainda fora da área. As imagens seguintes variam entre o desalento de Seaman e os braços esvoaçantes de JVP na direcção de Rui Costa.

Na segunda parte, um pase cirúrgico (mais um) do sem responsabilidade Rui Costa isola Nuno Gomes. Na cara de Seaman, pressionado por Adams, o avançado remata para o 3:2 final. Pormenor engraçado: dos 139 golos do Benfica na era Souness, 49 pertencem a Nuno Gomes. Toma lá o 50, ò Graeme. Obrigado Souness, és o maior bazófias.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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