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Benfica vs FC Porto. O onze ideal dos vira-casacas
Desporto 7 min. 05.05.2022
Liga portuguesa

Benfica vs FC Porto. O onze ideal dos vira-casacas

Maxi Pereira no final de um jogo com o Benfica, em abril de 2017. O uruguaio trocou o Benfica pelo FC Porto em 2015.
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Benfica vs FC Porto. O onze ideal dos vira-casacas

Maxi Pereira no final de um jogo com o Benfica, em abril de 2017. O uruguaio trocou o Benfica pelo FC Porto em 2015.
Foto: Mário Cruz/EPA
Desporto 7 min. 05.05.2022
Liga portuguesa

Benfica vs FC Porto. O onze ideal dos vira-casacas

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Entre no texto, senta-se e discuta algumas ou mesmo todas as nossas opções entre Ovchinnikov, Maxi, Eurico, Otamendi, Eduardo Luís, Kulkov, Maniche, Zahovic, Futre, Yuran e Sokota.

A rivalidade é quase secular, o primeiro clássico data de 28 Junho 1931, é a final do Campeonato de Portugal. Ganha o Benfica por 3:0, em Coimbra, golos de Vítor Silva (2) e Dinis. Na época seguinte, os dois clubes encontram-se na ½ final da mesma competição e o FC Porto vence os dois jogos, primeiro em Lisboa, no Campo das Amoreiras (onde agora é o Liceu Francês), depois no Porto, no Campo da Constituição (onde agora é o centro de treinos da formação portista).

Daí para cá, o clássico cresce de intensidade e ultrapassa até a importância do dérbi entre Sporting e Benfica ali em meados dos anos 80, quando o FC Porto se assume como segunda força nacional, por culpa dos títulos de campeão nacional e também da acumulação do prestígio internacional, como finalista da Taça das Taças 1984 e, sobretudo, do hat-trick em 1987 com Taça dos Campeões, Taça Intercontinental e Supertaça Europeia.

Daí para cá, insistimos, há uma série de acontecimentos a salpicar o clássico entre resultados, indisciplina, bastidores e, claro, transferências. Ao todo, 42 jogadores e 11 treinadores passam pelos dois clubes, uns com honra e glória, outros só com honra, uns sem glória e por aí fora. O primeiro de todos é o extremo esquerdo Artur Augusto, único portista no primeiro onze de sempre da selecção portuguesa, em 1921, vs Espanha, em Madrid. É irmão de Alberto Augusto, do Benfica e autor do primeiro golo de sempre da selecção, de penálti, nesse mesmo jogo. Pois bem, Artur é Benfica desde 1915 até 1921, ano em que sai para o FC Porto e acumula a tal internacionalização. Em 1924, volta ao Benfica para fechar a carreira em 1926, aos 29 anos de idade.

O segundo caso de vira-casacas é o de Tavares Bastos. É do Benfica de 1917 até 1922 e joga no FC Porto de 1922 a 1924. Por muitas jogadas mirabolantes e golos extraordinários, o seu currículo é mais assinalável que todos os outros pela presença inaudita num Benfica vs Sporting. Sente-se e delicie-se. Estamos no dia 13 Abril 1924, joga-se a 8.ª (e última) jornada do Regional de Lisboa. O palco é o Campo Grande, mais conhecido por Estância de Madeira (onde agora é a bancada nascente do José Alvalade). As equipas entram em campo. E o árbitro? Repetimo-nos, sente-se e delicie-se. Chama-se Tavares Bastos e é um jogador do FC Porto. Primeiro avançado, depois defesa. Isso mesmo, um portista. Rezam as crónicas que Tavares Bastos é um homem dedicado à causa do futebol. Gosta de jogar, só pensa naquilo. Na bola. Natural da Madalena (Vila Nova de Gaia), é alegre e muito comunicativo. E também árbitro. Atenção, é costume os jogadores apitarem jogos – basta relembrar o caso do primeiro árbitro português num jogo internacional, um tal Jorge Vieira (capitão do Sporting) no Espanha-Bélgica de 1921.

José Tavares Bastos é só mais um. Mas um só mais especialíssimo. Afinal não é para todos apitar um dérbi. E como jogador do FC Porto, então, é inédito. Vá, curioso. Ou inacreditável nos tempos que correm. Já fora das contas pelo título, o Sporting joga tão-só pelo prestígio. E dá-se bem, com os golos de Jaime, João Francisco e João Francisco (sim, é um bis deste jovem, que gosta mesmo é de correr; daí o título de campeão nacional de atletismo na estafeta 4x100 metros). Três-zero para o Sporting e título de campeão para o Casa Pia, cuja taça é entregue à equipa naquele instante pelo presidente da República, um senhor chamado Manuel Teixeira Gomes.

Artur Augusto, um. Tavares Bastos, dois. O terceiro vira-casacas é Francisco Ferreira. A sua história futebolística está intimamente ligada a três clubes: FC Porto, Benfica e Torino. Nascido em Guimarães em Agosto de 1919, vai para o Porto aos 11 anos de idade, onde o pai se emprega como guarda da Constituição, estádio do FCP.

Com normalidade, Francisco joga pelo FC Porto desde os infantis até 1937. Nessa altura, pede um aumento de ordenado (ainda assim longe dos "prémios" da estrela Pinga) e o dirigente em questão apelida-o de malandro. Faz mal. Francisco Ferreira ofende-se e vai para a Lisboa, pela mão de Ilídio Nogueira. No Benfica, vive 14 belas épocas, acompanhado por títulos e promovido a capitão em 1943, com a saída de Francisco Albino. Durante nove temporadas, ostenta, orgulhoso, a braçadeira, situação que se repete na selecção por 12 vezes, entre 1947 e 1951.

Quando se decide pela festa de homenagem, em Maio 1949, convida o Torino, então a melhor equipa europeia. Mazzola e Companhia aparecem no Jamor e perdem 4:3. No dia seguinte, o avião do Grand Torino embate na basílica de Superga e todos os ocupantes morrem, na maior tragédia do futebol mundial. Francisco Ferreira só se retira do futebol em 1952, com uma dignidade maiúscula e a levantar a Taça de Portugal conquistada ao Sporting num extraordinario 5:4.

Posto isto, o top 3 dos vira-casacas, que tal um onze ideal? Maravilha, vamos a isso. Na baliza, Ovchinnikov. O russo comete a proeza de ganhar zero títulos nos dois clubes entre Benfica (1997-99) e FC Porto (2000-02). Pelo meio, é titular no Alverca. Só voltaria a Portugal no Euro-2004 e seria expulso na Luz, vs Portugal, por jogar a bola com a mão fora da área.

Escolhemos a táctica dos três centrais por modernismo (e, vá, comodidade). Ei-los, Eurico, Otamendi e Eduardo Luís. O primeiro de todos é já um clássico, bicampeão no Benfica (1976, 1977) e bicampeão no FC Porto (1985, 1986) – pasme-se, também seria bicampeão pelo Sporting (1980, 1982). Craque do além, é ainda eleito pela UEFA para a equipa ideal do Euro-84. Otamendi é incontornável de tão actual. É o capitão do Benfica, decretado por Jorge Jesus ainda em 2020, após passar quatro épocas de alto gabarito no FC Porto, em especial a primeira de todas, em 2010-11, com a conquista da 1.ª divisão, Taça de Portugal e Liga Europa. O terceiro elemento da defesa é Eduardo Luís, central e lateral-esquerdo de categoria internacional. É campeão nacional pelo Benfica em 1976, é campeão europeu pelo FC Porto em 1987 (joga a final vs Bayern no lugar do lesionado Lima Pereira).

Para o meio-campo, o equilíbrio é a palavra de ordem. Vai daí, Maxi na direita. O lateral uruguaio fala a língua de Octávio Machado – trabalho, trabalho, trabalho – e é uma fonte inesgotável de energia. É campeão sul-americano pelo Uruguai na tarde de 24 de Julho 2011 e voa para Montevideo para participar na festa do título. Passa um dia, dois... e decide voltar a jogar futebol.

Pelo Benfica, vs Trabzonspor, para a primeira mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. De Montevideo a Lisboa (não) é um tirinho. É uma viagem de 11 horas. E então? Maxi aterra na Portela na manhã do dia 27, todo sorridente, e vai para a Luz, onde entra a 27 minutos do fim, a tempo de participar na vitória por 2-0. Eis Super Maxi no seu melhor. Quando sai do Benfica em 2015, com um total de 333 jogos (e 21 golos) (e um cartão vermelho) (e 11 títulos), assina para o FC Porto e ainda faz quatro épocas (e um título de campeão, já com Sérgio Conceição).

No meio, um 6 (Kulkov), um 8 (Maniche) e um 10 (Zahovic). Artistas da bola, todos eles. Campeões portugueses pelo FC Porto, todos eles – só Kulkov também o é pelo Benfica. Encostado à esquerda, como se fosse um extremo, o inimitável Futre. Faz-se campeão europeu pelo FC Porto em 1987 e, depois, levanta a Taça de Portugal pelo Benfica em 1993, numa tarde irrepetível no Jamor em que marca dois golos sensacionais vs Boavista (5:2).


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O ataque é precioso, com Yuran e Sokota. O russo (é o terceiro russo deste onze, chi-ça) é homem de área, tanque, poço de força sem igual. É o primeiro de sempre a marcar pelo Benfica ao FC Porto (três golos) e pelo FC Porto ao Benfica (um). Todos na Luz. O croata é o último a sagrar-se campeão em anos seguidos pelos dois clubes, primeiro pelo Benfica de Trapattoni em 2005, depois pelo FC Porto de Co Adriaanse em 2006. Antes dele, só a dupla Kulkov-Yuran, com o mesmo percurso: primeiro pelo Benfica de Toni em 1994, depois pelo FC Porto de Robson em 1995.

Por falar em treinadores, quem é o homem do leme desta equipa? Saiba esta sexta-feira.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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