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Jogos profissionais
Desporto 3 min. 18.07.2021
Barcelona 1992

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Barcelona 1992

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Barcelona 1992

Jogos profissionais

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Portugal tinha esperança que Rosa Mota defendesse a medalha de ouro na maratona com outra, mas uma lesão impediu-a de viajar para Barcelona, onde mandaram os nadadores e os atletas profissionais. Sobretudo as estrelas da NBA. Montserrat Caballé cantou "Barcelona" na cerimónia de abertura.

Portugal, orgulhoso membro da CEE desde 1986, tinha em 1992 um teste de maturidade com a sua primeira presidência. Mas era na vizinhança espanhola que todos os ventos sopravam a favor, numa conjugação cósmica de holofotes. Espanha tinha em Madrid a capital europeia da cultura, em Sevilha a Exposição Universal e, em Barcelona, o maior evento desportivo do planeta. Há muito que o COI sonhava com uns JO consagrados à paz e à harmonia entre os homens. Desde os JO de Los Angeles (1984), as olimpíadas tinham-se transformado numa gigantesca máquina de marketing. Essa ruptura entre o que era amador e profissional era uma questão que se arrastava penosamente pelo olimpismo como uma verdade de La Palisse dentro de um armário. Quase por antítese, o COI queria dos olímpicos uma celebração quase ecuménica do desporto.

Apesar da ETA, organização separatista basca, fantasma sempre presente, para mais na Catalunha, Espanha não seria mau destino, mas o mundo não ajudava. O Médio Oriente continuava a dançar sobre explosivos. Um ano antes, as tropas de Saddam Hussein tinham invadido o Kuwait precipitando a Guerra do Golfo, a primeira transmitida em directo pela tv, como uma telenovela anacrónica chamada "Tempestade no Deserto". Na Europa, a guerra voltava a eclodir nos balcãs, onde se verificavam as mais cruéis atrocidades e os conflitos mais violentos desde a II Guerra Mundial, onde mais de 245 mil pessoas perderam a vida. Nos EUA, apesar de George Bush, pai, ter colhido dividendos de popularidade na Guerra do Golfo e a libertação do Kuwait (tradução: do seu petróleo) do invasor iraquiano, seria Bill Clinton a ganhar a corrida à presidência. Na África do Sul, depois de um longo cativeiro nas garras do racismo, Nelson Mandela estava em liberdade. De todo o modo, ainda não era desta que o signo fosse de paz. O melhor que se podia arranjar para esta época era uns JO "boicote-free", o que começava a ser uma raridade.

Espanha quis alhear-se de de todas as questões belicistas e das suas problemáticas independentistas, mostrando ao mundo todo o seu esplendor organizativo. Barcelona queria quase o mesmo, mas em nome da Catalunha. O próprio presidente do COI, Juan Samaranch, sendo catalão e natural de Barcelona, vivia esta bipolaridade. E um medo comum: a ETA tinha ameaçado deixar nestes olímpicos a sua marca explosiva. O que não se confirmou. Ainda assim, se signo houve nestes JO de Barcelona, foi precisamente o da independência. Por causa das cisões nas fronteiras da Europa, que não era alheias às cisões no Bloco de Leste, coisa que na verdade já não era, acabariam por fazer a estreia estas Olimpíadas uma série de novas nações, desde logo a Croácia, a Eslovénia, a própria Bósnia-Herzegovina. A Sérvia e Montenegro, que estavam sob um embargo das Nações Unidas, foram excepcionalmente autorizadas a competir, mas à sombra da bandeira do COI. Também a Letónia e a Estónia, independentes da gigante URSS, puderam voltar com estatuto de nação aos JO, o que não acontecia desde 1936, em Berlim. Assim como a Lituânia, esta sem percurso olímpico próprio desde os remotos JO de Amesterdão, em 1928. Com a desagregação da URSS, seria a CEI (Comunidade de Estados Independentes), que integrava algumas das repúblicas soviéticas, a dominar a competição, com os EUA atrás.

Nos JO de Barcelona atingiram-se expoentes de brilhantismo, mas não de quem se esperava, com excepção, claro está, da selecção olímpica de basquetebol norte-americana, com as suas estrelas NBA - Michael Jordan, Magic Johnson & company - a distribuir classe e autógrafos, deixando bem vincada a abertura dos olímpicos aos atletas profissionais. Dos 39 campeões mundias presentes, apenas três conseguiram vencer. Na ginástica brilhou altíssimo Vitali Scherbo, bielorusso, que ganhou seis medalhas de ouro. Na natação, cairam oito recordes mundiais. E, na modalidade de tiro aos pratos, sempre discreta, a organização resolveu inovar com um torneio paritário. Um tiro que feriu de morte o orgulho masculino. Shan Zhang, atleta chinesa, não deu quaisquer hipóteses nesta competição. Sabe-se lá porquê, após estas Olimpíadas, o COI viria a proibir torneios mistos. Se certo barão fosse vivo, ficaria orgulhoso.

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