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Avenida da liberdade: Fogo posto no Benfica!
Luís Filipe Vieira e Paulo Gonçalves.

Avenida da liberdade: Fogo posto no Benfica!

Foto: Lusa
Luís Filipe Vieira e Paulo Gonçalves.
Editorial Desporto 3 min. 14.03.2018

Avenida da liberdade: Fogo posto no Benfica!

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
As instituições são sempre mais importantes do que as pessoas que, conjunturalmente, as dirigem. É bom recordar este princípio, quando se mistura o nome do Benfica com um eventual escândalo de corrupção.

Eu sou portista dos quatro costados, desenganado pelos médicos. E tenho a Académica como causa de vida, diferente de qualquer clube. Mas nada disto me impede de respeitar o Benfica, como grande clube que, no plano internacional, já me deu grandes alegrias. Para não ser exaustivo, recordo apenas as duas Taças dos Campeões Europeus, quando eu estava a entrar na adolescência. É bom dizer que, em competições internacionais, eu torço sempre pelas equipas portuguesas.

Dito isto, vamos aos factos que nos preocupam. Um técnico informático do Ministério da Justiça dava peças processuais a um funcionário do Benfica, a troco de camisolas e convites para os jogos. Isto é de uma extrema gravidade, mas o Benfica não tem culpa alguma. A culpa é dos homens a quem faltará o sentido ético de vida que instituições como o Benfica merecem.

Este caso é novidade absoluta para mim. Mas o estratagema já é conhecido há muitos anos. Recordemos apenas que, há muitos anos, um jornal transcreveu, na íntegra, uma conversa telefónica entre o ex-árbitro José Guímaro e um dirigente do FC Porto. Os mais ingénuos podem agora perceber onde terá o jornal conseguido aquele documento que estava em segredo de justiça. Dessa conversa não se retirava qualquer indício de corrupção, apesar de existirem frases aparentemente cifradas. Por isso, o interesse público era nulo e o jornal, levianamente, violou a lei da privacidade que protege as conversas entre cidadãos e violou a lei do segredo de justiça.

Resgatei este caso apenas para dizer que, há muitos anos, gente com acesso aos processos judiciais “vende” peças e informações para servir interesses obscuros. Aparentemente e segundo as suspeitas do Ministério Público, foi isso que agora se passou. Com algumas agravantes a que, mais uma vez, o Benfica é alheio. Por exemplo, o uso abusivo da palavra-passe de uma procuradora, por parte do referido funcionário, de modo a permitir-lhe o acesso mais fácil a alguns processos.

No centro de toda esta trama, aparece o nome de Paulo Gonçalves, um homem que nem sequer é benfiquista de coração, a não ser que tenha sofrido de qualquer súbita reconversão. Já trabalhou no FC Porto e no Boavista, onde estava quando o clube desceu aos infernos, por obra de um acórdão da Comissão Disciplinar da Liga. E quem foi o relator desse acórdão? Nada menos, nada mais que um tal Ricardo Costa que agora aparece na teia de contactos de Paulo Gonçalves. Pelos vistos, já foram inimigos, mas agora são cúmplices, como diz o Expresso, na edição de sábado. Repito que não se pode confundir o Benfica com gente desta.

O presidente do Benfica reagiu exaltadamente e prometeu queixas-crime contra todos aqueles que, a partir de agora, manchem o bom nome do Benfica. Veremos então como se vai comportar a imprensa. E veremos também se os casos que atingem unicamente a figura do presidente do Benfica, as suas empresas e os seus filhos também serão considerados ataques ao Benfica.

O mais importante é que este caso veio demonstrar com se viola a lei do segredo de justiça com tanta facilidade. Há gente que, de há muitos anos a esta parte, “vende” informações e peças processuais. E, no passado recente, até existiram jornais que entraram neste negócio.

Com isto, a Procuradora-Geral da República quis dar um sinal e um aviso – começou a caça aos que, com os mais diferentes interesses, têm contribuído para a constante violação do segredo de justiça. E nada melhor que um caso que envolvesse uma instituição com a dimensão do Benfica, amado por milhões de portugueses. Mas aquilo que pretende ser apenas uma queimada para limpeza de matos rasteiros pode transformar-se num incêndio de proporções incontroláveis. E, como se pode ver, as labaredas são cada dia maiores e ameaçam queimar muita gente.

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