Escolha as suas informações

Avenida da Liberdade: Farsante
Bruno de Carvalho.

Avenida da Liberdade: Farsante

Foto: Lusa/André Kosters
Bruno de Carvalho.
Editorial Desporto 3 min. 12.04.2018

Avenida da Liberdade: Farsante

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
No curto intervalo de semanas, venho, pela segunda vez, falar das desgraças que cercam o futebol, tema que, obviamente, não é das minhas preferências. Mas há instituições nacionais vexadas por comportamentos abjetos.

O presidente do Sporting, mais preocupado com o seu umbigo e com os seus estados de alma, desencadeou uma guerra contra os futebolistas profissionais do clube, convencido de que não teria resposta.

Enganou-se. Os futebolistas replicaram com a dignidade que ele não teve e, literalmente, deitaram-no abaixo. Os sócios que o elegeram perceberam, finalmente, o logro que a figura constitui. Eu, desde as suas primeiras declarações públicas, não tive dúvidas.

Bruno de Carvalho, assim se chama o homem, é emocionalmente instável e intelectualmente desestruturado. Por via de regra, coloca os seus estados de alma à frente dos interesses de uma instituição com a História e a dimensão do Sporting. Como ele próprio afirmou no domingo, ali quem manda é ele, e só ele, e diz que não obedece nem aos presidentes dos restantes órgãos sociais.

Devia saber que preside a uma direção, isto é, um órgão colegial, onde as opiniões de todos os seus membros também contam. Existe depois a mesa da Assembleia Geral, cujo presidente detém a capacidade de escrutinar as decisões do presidente, apelando ao pronunciamento dos sócios.

Bruno de Carvalho ignora tudo isto e disse que ali quem manda é ele e só ele. Uma afirmação estulta, tanto mais que, neste momento de crise, desprezou apoios que lhe fazem falta. Com isso, isolou-se, e a sua demissão é reclamada em várias frentes.

O que vai acontecer, a partir daqui, é de difícil previsão, e as piores consequências já se podem ver. Depois de um trambolhão de 30 por cento, as ações da Sporting SAD têm a negociação suspensa para evitar males piores. O treinador alinhou pelo lado dos jogadores, o que inviabiliza a continuidade dos dois. Bruno de Carvalho deve retirar confiança a Jorge Jesus e, consequentemente, despedi-lo. Ninguém conhece todos os pormenores do contrato, mas, segundo a imprensa, isso implica uma indemnização de oito milhões de euros, a que se juntam os gastos com um novo treinador.

Destes profissionais que se amotinaram contra o presidente, quantos quererão continuar no Sporting, se ele sobreviver a esta hecatombe? Provavelmente, muito poucos, o que implica a necessidade de novas contratações. Se saírem, terão de pagar o montante inscrito nas respetivas cláusulas de rescisão, dirão alguns. Mas há juristas que entendem que os jogadores podem pedir a rescisão dos respetivos contratos com justa causa, alegando que o presidente atentou contra a dignidade profissional de cada um deles. E, numa circunstância destas, o prejuízo do Sporting seria imenso, uma autêntica descida aos infernos.

Com um quadro destes, a solução mais razoável parece ser a saída do presidente, substituído por alguém de bom senso que ponha paz e ordem naquela casa. Bruno de Carvalho é um grande problema e, por isso, não pode ser a solução de si próprio.

Este não foi o primeiro problema criado pelo presidente. No passado recente, houve outros e até recurso a um tipo de linguagem que um presidente de uma instituição como o Sporting não pode usar, em circunstância alguma.

No domingo, abandonou o Estádio de Alvalade aparentando uma dor lombar em que poucos acreditam. Invocou depois o seu estado de saúde, como quem pede clemência. Mas tudo pareceu uma farsa mal representada que serviu apenas para mostrar a deficiente estrutura humana da criatura.

Os próximos dias serão de brasa no Sporting. Bruno de Carvalho não vai querer abandonar a presidência, porque aquilo é o seu emprego, de onde recebe 20 mil euros mensais, de acordo com os dados fornecidos pela SAD à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). E isto refere-se ao exercício de 2015/16, admitindo-se que, entretanto, aquele valor tenha sido atualizado.

Mas a paciência dos sócios parece ter-se esgotado. Votaram nele, é certo, mas já se esqueceram. A memória é muito curta.


Notícias relacionadas

Avenida da Liberdade: Ai Jesus!
Ninguém, nem os mais pessimistas, conseguiam antecipar aquilo que se passou em Alcochete, nem o que se tem passado no universo do Sporting. Tudo por obra de um presidente com um estilo muito próprio, cuja escolha não se pode justificar.