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Enfim em casa
Desporto 4 min. 21.07.2021
Atenas 2004

Enfim em casa

Atenas 2004

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Atenas 2004

Enfim em casa

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Com a internet, foram as Olimpíadas mais mediáticas de sempre. Não faltou glória e drama. E uma agressão em directo ao atleta brasileiro que ia em primeiro na prova da maratona.

A espera foi olímpica, como um pai que anseia por um filho (não se pode dizer que tenha sido pacientemente) que um dia partiu numa viagem sem regresso marcado. Os olímpicos tinham feito uma viagem extraordinária, com maiores e menores vicissitudes, estando muitas vezes encostados às cordas da História, à beira de um KO técnico, à beira de atirar a toalha ao chão, encontrando sempre forma de sobreviver por entre regimes, convulsões políticas, económicas, sociais, por entre os escombros de duas guerras mundiais. Um século e oito anos depois, o filho tornava a casa. E a fasquia estava altíssima.

A Grécia não precisava de grande motivação para acolher os JO, mas se fosse o caso podia usar os mais recentes rancores. Não estava esquecida a olímpica desconsideração de o COI ter concedido a Atlanta a honra de celebrar o centenário das olimpíadas modernas. Se os JO tivessem vindo para a Grécia logo a seguir a Atlanta, a tarefa seria mais simples, dado o fiasco americano. O problema é que os jogos seguiram para Sidney, que tinha cumprido todas as promessas, mais juros. Foram reconhecidos um dos melhores de sempre. Os JO era agora sinónimo de lucro. Estavam apetecíveis como nunca. E isto colocava em Atenas uma enorme pressão. Até porque não foi consensual. Atenas tivera forte concorrência, com Buenos Aires, capital argentina, à cabeça. A África do Sul, que procurava fazer pazes com a História, apresentou a sua candidatura para a Cidade do Cabo. Juntavam-se à corrida outras candidaturas de peso: Istambul (Turquia); Lille (França); Sevilha (Espanha); São Petersburgo (Rússia); Estocolmo (Suécia) e Rio de Janeiro (Brasil).

Movida pelo orgulho, a Grécia não tinha quaisquer intenções de cometer um milimétrico erro na sua organização. A responsabilidade era gigante mas, convenhamos, a História e as infraestruturas estavam lá intactas. Seria um reencontro com os jogos da antiguidade e os da era moderna com a era moderna que a havia ultrapassado. Estes foram os JO mais mediáticos de sempre (até à data). Pela primeira vez iam chegar em directo pela internet. No balanço final, a organização helénica atirou um número de audiências astronómico: as olimpíadas tinham sido vistas por 3,9 mil milhões de pessoas, mais coisa, menos coisa, nos cinco continentes. Mais exacto foi o número de presenças, que pulverizaram recordes, como, aliás, vinha a acontecer consistentemente: 11 mil atletas, em representação de 201 países.

A Grécia lembrou-se de um golpe de marketing. Fazer circular a tocha olímpica, inaugurando uma tradição que ficou. Imagens inesquecíveis, a chama olímpica a percorrer o Estádio Panetenaico ao cair do sol, a passear no crepúsculo dos deuses pelas ruínas da velha Olímpia, onde há três mil anos tudo começara. E tudo isto ao vivo e a cores no mais ínfimo pontinho de qualquer meridiano. O palco estava lançado. Era virtualmente infinito.

Não sem drama e choque, estes JO produziram para a História os seus heróis, que, mais uma vez, sairam da água. Foram as Olimpíadas de Michael Phelps, norte-americano, que se tornou no melhor nadador olímpico de sempre, destronando o lendário Mark Spitz. O momento mais dramático, porém, estava guardado para o fim, para a prova de todas as provas, a maratona. Para espanto do mundo, a poucos km´s do fim, tinha isolado na frente Vanderlei Cordeiro de Lima. O maratonista brasileiro estava num ritmo imparável já a curta distância de Atenas, quando foi atacado por um irlandês tresloucado, de nome Cornelius Horan (dizem que tinha bebido uns copos). Com esforço titânico, Vanderlei conseguiu recompor-se e reiniciar a competição, não evitando uma queda para

a medalha de bronze. Nunca o terceiro atleta a chegar ao estádio fora tão ovacionado. Pelo seu esforço, o atleta brasileiro foi o primeiro de sempre a receber duas medalhas na mesma prova. O COI decidiu atribuir-lhe a medalha de honra Pierre de Coubertin. Por falar nisso, talvez o eterno barão não gostasse de saber que pela primeira vez nos Olímpicos participaram atletas transsexuais.

Os heróis portugueses foram Francis Obikwelu, que conquistou uma medalha de prata nos 100m, Rui Silva, que alcançou o bronze nos 1500m, ainda o ciclista Sérgio Paulinho, que fez uma prova épica nos 224 km´s de estrada, conquistando a medalha de prata. O EUA venceram de novo. Mas, em segundo, um gigante que já não estava adormecido: a China.

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