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As Olimpíadas que não foram
Desporto 4 min. 30.06.2021
Berlim 1916

As Olimpíadas que não foram

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As Olimpíadas que não foram

Desporto 4 min. 30.06.2021
Berlim 1916

As Olimpíadas que não foram

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Os Jogos Olímpicos quase se incluiam nas baixas da Primeira Guerra Mundial. As Olimpíadas de 1916, previstas para Berlim, foram obviamente anuladas. De Estocolmo tinha ficado uma discussão sobre o amadorismo e um estranho mistério por resolver. Para outras núpcias.

Os Jogos Olímpicos quase se incluiam nas baixas da Primeira Guerra Mundial. As Olimpíadas de 1916, previstas para Berlim, foram obviamente anuladas. De Estocolmo tinha ficado uma discussão sobre o amadorismo e um estranho mistério por resolver. Para outras núpcias.

Um enorme sucesso em Londres seguido de outro em Estocolmo, com a presença de atletas dos cinco continentes, tinham recolocado no pináculo a competição olímpica. No entanto, um mistério permanecia por esclarecer, que adensava, adensava e adensava. Na fatídica maratona das Olimpíadas suecas, em que Francisco Lázaro morreu, quase passou em claro um estranho caso. Shizo Kamakury, maratonista japonês, tinha desaparecido sem deixar rasto. A delegação japonesa esperou longas horas por ele na linha de meta. Temendo que lhe tivesse acontecido algo semelhante ao atleta português, chamou-se a polícia, que fez buscas por todo o percurso e arrabaldes. Nada. A delegação nipónica adiou por um dia o regresso, mas acabou por regressar ao Japão com menos um elemento. O tempo passou e Kamakury não apareceu. Passou de "missing person" a saudoso e, lentamente, a sua história caiu no esquecimento. O mundo teria muito com que se preocupar. Só pouco antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio, imagine-se, em 1964 é que o mistério foi desfeito. Um canal de televisão japonês viajou para Estocolmo e, ao contrário da delegação japonesa em 1912, não saiu de lá sem o encontrar. Tinha envelhecido bastante, mas estava de boa saúde. O que raio de coisa lhe aconteceu, Kamakury-san? Ele próprio explicou: lá para o meio da prova, estava quase a desfalecer de sede e de cansaço. Preparava-se para desistir quando foi abordado por uma simpática, alta e loura sueca, que o convidou para refrescar-se em sua casa e beber uma laranjada. Meio-século depois, eram felizes e tinham seis filhos. Amor e uma cabana, onde este homem viu a História passar.

Ventos negros sopravam. Em Julho de 1914, o arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do império Austro-Húngaro, era assassinado pela Mão Negra, grupo terrorista nacionalista sérvio, precipitando os acontecimentos que conduziram à Primeira Guerra Mundial. Quatro impérios haviam de ruir, mais de 9 milhões de pessoas haviam de perder a vida na guerra das trincheiras. Era impensável levar por diante o calendário olímpico, que tinha marcado os Jogos Olímpicos de 1916 para Berlim. O COI cumpriu a mera formalidade de declarar estas Olimpíadas anuladas.

O mundo estava virado do avesso, a Europa em cinzas. E não podia haver melhor analogia para o futuro dos JO. Até o barão de Coubertin se revelou impotente para contrariar o que lhe ditavam os acontecimentos. A probabilidade de se ter escrito na cidade de Estocolmo um glorioso epitáfio do olimpismo era elevadíssima. Também o COI se encontrava nas trincheiras, sob ataque cerrado de inimigos invisíveis. Pela primeira vez, o barão de Coubertin admitiu publicamente que talvez as Olimpíadas não tivessem futuro.

Pareciam agora pormenores os despojos olímpicos de 1912. Não seriam com certeza para Jim Thorpe, o grande vencedor destes Jogos Olímpicos de Estocolmo. Durante mais de um ano que se seguiu ao certame sueco, arrastou-se a discussão entre ingleses e americanos sobre os fundamentos amadores do olimpismo. Como se sabe, Jim Thorpe seria desclassificado e todas as suas medalhas lhe foram retiradas, com base numa acusação que ninguém tinha provado "beyond a reasonable doubt". Os resultados obtidos pelos "super-atletas" norte-americanos tinha deixado os britânicos desconfiados que eram atletas que vinham do desporto profissional, coisa que os EUA sempre negaram. Os ingleses não estavam sozinhos. A maior parte dos países da Europa de leste tinha apresentado inúmeras queixas ao COI. A razão era fácil de explicar: o "amadorismo" trazia todo o benefício olímpico aos atletas de leste. Thorpe estava no centro do furacão, já que o rei Gustavo V da Suécia o havia aclamado como melhor atleta do mundo, depois de ter pulverizado a concorrência no Pentatlo e no Decatlo, provas de enorme exigência. Os ingleses acusavam os americanos de ter implantado no seu sistema escolar uma máquina semi-profissional de criar atletas. A máquina olímpica, por sua vez, tinha encontrado o seu bode expiatório: um rapaz chamado James Francis Thorpe, que na reserva Sioux onde nasceu se chamava Wo Tho Huck. Só em 1983 o COI emendou o seu erro, devolvendo as medalhas e os títulos póstumos. Jim Thorpe morreu em 1953.

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