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As melhores histórias de Neno
Desporto 5 min. 25.09.2021
Histórias da bola

As melhores histórias de Neno

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As melhores histórias de Neno

Foto: Lusa
Desporto 5 min. 25.09.2021
Histórias da bola

As melhores histórias de Neno

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A propósito do Vitória SC-Benfica deste sábado, eis um apanhado de exibições do guarda-redes português do nosso contentamento.

A influência de Bento. O primeiro clube a interessar-se por mim foi o Boavista do major Valentim Loureiro. E o meu pai disse não, ‘ele está aqui no Barreiro é para estudar, não é para jogar à bola. Pronto, fiquei no Barreirense. É então que avisam o Bento, ex-Barreirense, das minhas exibições. Tipo ’vai lá ver o miúdo e tal’.

O Bento começa a ir os meus jogos e pergunta-me porque é que não defendo com luvas. Digo-lhe que está tudo bem e ele aconselha-me a usar luvas. ’Está descansado, vou arranjar-te umas.’ E dá-me umas deles. Luvas ensinadas.

Começo a jogar com elas e vejo realmente que é bem melhor, sobretudo nos lances rasteiros. Sem luvas, raspava os dedos no chão. Com luvas, é outra coisa. O Bento dá-me um par de luvas. E outro. E mais um. Depois, obriguei, por assim dizer, o Barreirense a comprar-me mais luvas ainda. Faço mais duas épocas a sénior e é quando o Benfica se mostra interessado.

Treinos às escondidas. ‘O Barreirense oferecia-me 25 contos e um Golf, o meu carro de eleição. O Benfica só me dava 17, sem carro. Só que o Benfica era o Benfica e ainda havia o factor Bento. Então, treinava-me normalmente no Barreirense e, às escondidas, ia a Lisboa para ver se o Eriksson dava o sim à minha transferência.

Os treinos eram no campo número um da Luz com os portões fechados. Convivi ali com os ídolos da altura: Humberto Coelho, Chalana, Shééééééu, grande Shéu. Assinei pelo Benfica e passei de 25 para 120 contos.

O empréstimo ao Vitória SC.

‘Além do Bento, havia ainda Silvino e Delgado. Eu era o quarto guarda-redes e o único sem experiência de 1.ª divisão. Fui emprestado ao Vitória SC como suplente do Jesus, do grande António Jesus. O treinador era um belga chamado Raymond Goethals, que vivia o futebol todo o dia, só falava disso, só, só, só. Vinha de grandes clubes e aterrou aqui de pára-quedas, era mais homem para Benfica ou Sporting. As suas palestras eram sempre em francês, traduzidas pelo Manuel Machado.

Contratação de Valdo

O Vitória saca um empate 0:0 na Luz, no dia em que o Valdo chega ao Benfica. Ele é apresentado no estádio, vai ao relvado e depois regressa ao balneário para conhecer os novos companheiros antes do jogo. Antes sequer de se aproximar da porta, ouve uma algazarra de todo o tamanho e vê-me a fazer aquelas palhaçadas todas. Ele pergunta a um colega ’quem é esse cara aí?’. E a resposta foi ‘é o Neno, goleiro da equipa adversária. Ahahahahah. Aquilo fez-lhe uma confusão danada, porque o Valdo entendia que eu devia estar no balneário do Vitória a concentrar-me para o jogo.’

Euro-96.

‘Fizemos nove jogos, o Vítor jogou oito e eu um. Como suplente, fiz oito e o Alfredo um. Quem é que o Oliveira leva para Inglaterra? O Vítor e o Alfredo. Até me lembro de um programa na SIC em que fizeram um inquérito de rua e 100 por cento das pessoas apostavam em mim como suplente do Vítor.

Mais tarde, durante uma festa com antigos jogadores, o Oliveira veio ter comigo e pediu-me desculpa por esse lapso. ’Olha, há uma coisa que tenho de admitir: quem merecia ir ao Euro-96, eras tu. Eras a alma da seleção e não fui correto contigo.’

Mortimore.

‘Eu jogava para o campeonato e o Silvino para a Taça. Depois do 4-2 do Porto na Luz para a Supertaça, em que errei feio no 3-1 do Futre, o Mortimore chamou-me a mim e ao Silvino e indicou que o Silvino ia passar a ser o titular do campeonato porque eu tinha estado mal.

Virei-me para ele e ’ò Silvino, nós somos muita burros; eles aqui nunca nos deram tranquilidade; se tu jogas mal, sais; que raio de confiança é essa?’ O Mortimore acrescenta que eu passo a jogar para a Taça. ’Muito bem, mister, mas vou até à final. Não me vai tirar o lugar na final, é até ao fim.’

Dos 4-2 do Porto na Luz para os 7-1 em Alvalade, nem um mês de diferença. E o John, grande John [Mortimore], diz para o Silvino ’o jogo não te correu bem, quem vai jogar a partir de agora é o Neno.’ E eu ’não, não, não mister, não, não, não: você já me matou e agora não vai matar o Silvino; o Silvino é do campeonato e eu da Taça.’ Assim foi.

Penálti Oceano.

‘O Vitória SC joga no José Alvalade e faz um jogo sensacional, só que há um penálti in-ven-ta-do. Avança o Oceano. Beeeem, saí da baliza, como é logico. Ahahahahahah. ’Ò preto, põe-te quieto pá. Deixa lá outro marcar, senão vou caçar-te o penálti e sair daqui mal-visto.’ Eu a tentar demovê-lo e o sacana, tranquilo. Eu a falar, sempre. ’Vou caçar-te essa porcaria, ainda por cima não foi penálti’. Ele, impávido e sereno. Olhou só uma vez para mim, na boa. Entretanto, o árbitro empurrou-me para a baliza.

Epá, eu sabia como ele marcava os penáltis pela experiência nos treinos da seleção. A minha dúvida era se ele vai manter ou mudar de lado? Não, o Oceano não muda. Porque o bom marcador de penálti não muda de lado. Quem me ensinou isso foi o Nélson Moutinho, pai do João, ainda no tempo do Barreirense. Não, vou atirar-me para o lado de sempre.

Este jogo mental e tal até ao apito do árbitro. O Oceano avança e mete o pé. Atiro-me para o lado de sempre do Oceano e ele engana-me. Não me disse nada. Nada. Acaba o jogo e o Paulinho vai ao balneário do Vitória à minha procura. Entrega-me um embrulho e diz que é da parte do Oceano. O que era? A camisola do jogo. O filho da puta, que não tem outro nome, desenhou a baliza, desenhou-me a mim num lado e a bola no outro. Ahahahahahahah. Foooogo. Ainda hoje tenho essa camisola guardada lá em casa.

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