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Antes da eternidade, Maradona vai ter banho de povo na despedida
Desporto 6 3 min. 26.11.2020

Antes da eternidade, Maradona vai ter banho de povo na despedida

Antes da eternidade, Maradona vai ter banho de povo na despedida

Foto: AFP
Desporto 6 3 min. 26.11.2020

Antes da eternidade, Maradona vai ter banho de povo na despedida

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Com fotogaleria. O corpo do astro argentino está a ser velado no palácio presidencial, em Buenos Aires, enquanto se sucedem as homenagens em todo o mundo.

Na Argentina, a comoção é absoluta. Como Evita e Che Guevara, Diego Armando Maradona sobe ao Olimpo das referências históricas de um povo que celebra a vida com paixão. Nasceu no bairro pobre de Fiorito e morre velado no palácio presidencial. 

Abatido, Alberto Fernández, Presidente da Argentina, afirmou que o país foi injusto com Maradona porque lhe exigiu ser o exemplo que não tinha de ser. A família e amigos velaram esta madrugada o corpo do astro argentino numa cerimónia privada. Estão presentes Carlos Tevez, Martin Palermo, Guillermo Coppola e os campeões mundiais de 1986 no México, visivelmente emocionados.   

As portas vão ser abertas ao público às 6 horas da manhã, hora local, onde se espera uma multidão. O velório, que será curto por pedido expresso da família, termina às 16 horas desta quinta-feira, apesar das especulações de que poderá durar 48 horas. 

Mas noutras partes do mundo também se chora Maradona. Na Síria, num edifício destruído pela guerra, aparece uma pintura dedicada ao jogador argentino. Em Nápoles, a noite foi de lágrimas e peregrinação, numa cidade repleta de murais com o gigante do futebol, que lhe deve muita da auto-estima que hoje tem. O clube Nápoles anunciou que vai dar ao seu estádio o nome de Diego Armando Maradona.

Com a morte do astro, desaparece uma lenda viva do futebol. Talvez no futuro digam que fomos privilegiados porque coexistimos no tempo histórico do 'barrilete cósmico', como lhe chamou Víctor Hugo Morales, o narrador do épico jogo contra Inglaterra no Mundial de 1986. 

Mas como em todas as paixões os defeitos varrem-se para debaixo do tapete porque Maradona para muitos estava acima de tudo isso. Eduardo Galeano escreveu que era "o mais humano dos deuses". O escritor uruguaio defendeu que foi adorado não só pelo prodígio dos seus malabarismos futebolísticos mas também porque era um "deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses".

"Jogava melhor do que ninguém apesar da cocaína e não por causa dela. Estava angustiado pelo peso do seu próprio personagem. Tinha problemas na coluna vertebral desde o longínquo dia em que a multidão gritou o seu nome pela primeira vez. Maradona carregava um fardo chamado Maradona, que lhe fazia doer as costas. O corpo como metáfora: doíam-lhe as pernas, não conseguia dormir sem comprimidos. Não demorou a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo", descreveu Galeano.

O facto é que nem os deuses se reformam, mesmo aqueles que trazem em si todas as debilidades dos comuns mortais. Foi mulherengo, alcoólico, toxicodependente e irresponsável tantas vezes. Mas também foi o jogador consagrado que se dedicou a denunciar o sujo mundo do dinheiro no futebol ao mesmo tempo que defendeu atletas que não eram famosos. Foi alguém que nasceu na pobreza e que apesar da consagração nunca renegou as origens. E levou tudo isso para os campos de futebol e para fora deles.

Em 1986, quando a seleção argentina triunfou sobre Inglaterra com dois golos de Maradona, haviam passado apenas quatro anos da guerra nas Ilhas Malvinas entre os dois países. Os argentinos tinham sido humilhados pelas tropas britânicas e despojados, uma vez mais, de um território que reivindicam como seu. Para a Argentina, Maradona foi a vingança que se serve fria. Uma vitória desportiva que foi sobretudo uma vitória política.

Em Nápoles, o jogador argentino carregou em ombros uma equipa que representava a maior cidade do sul de Itália, vítima histórica de preconceitos sociais. Aos do sul, os do norte chamam-lhes "terroni". Ou seja, cor de terra. Cor de quem trabalhava sol a sol nos campos ou no mar. Historicamente mais pobre, o Nápoles de Maradona foi a bandeira de uma cidade maltratada, caricaturizada pela miséria, exclusão social, tráfico de droga e máfia. 

Depois de se tornar campeão do mundo pela seleção argentina, Maradona levou o Nápoles, então uma equipa mediana, às costas, conquistando dois campeonatos (1986-87 e 1989-90), uma Taça de Itália (1986-87), uma Supertaça de Itália (1990) e uma Taça da Uefa (hoje Liga Europa, em 1988-89).

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