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Afinal qual é o clube português que ganhou mais campeonatos?
Opinião Desporto 8 min. 22.07.2022
Liga portuguesa

Afinal qual é o clube português que ganhou mais campeonatos?

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Afinal qual é o clube português que ganhou mais campeonatos?

Foto: Armend Nimani/AFP
Opinião Desporto 8 min. 22.07.2022
Liga portuguesa

Afinal qual é o clube português que ganhou mais campeonatos?

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Até 1937, o Campeonato de Portugal foi a prova máxima do país, de um ponto de vista oficial e na imprensa, momento em que é superado, em importância desportiva, pelas Ligas.

Há quatro anos, a direcção do Sporting Club de Portugal, numa reunião a que assistiu o presidente Frederico Varandas, convidou-me para levar a cabo uma investigação independente acerca da História dos Campeonatos Nacionais de 1921 a 1940. Tal como muitos adeptos do Sporting, conhecia a questão. Tratava-se da reivindicação, por parte do clube, de uma recontagem do número de campeonatos, mas nunca a tinha tratado de forma sistemática. O convite que me foi dirigido para desenvolver uma investigação independente foi extensivo a um dos meus colaboradores, Bernardo Pinto da Cruz. Estavam criadas as condições para o desenvolvimento de uma investigação séria e ponderada. 

Durante cerca de um ano, envolvemo-nos: na consulta de vários arquivos; na leitura da imprensa desportiva da época e na revisão do que foi escrito mais recentemente nas histórias do futebol, em Portugal. Atendemos, sobretudo, à documentação relativa às instituições organizadoras e reguladoras do futebol. Considerámos, ainda, um conjunto de padrões internacionais, da época em apresso, com os quais fosse possível comparar o caso português. 

As conclusões a que chegámos, provavelmente, não satisfazem totalmente quem nos encomendou a pesquisa, nem talvez todos os adeptos do Sporting. No entanto, fomos claros desde o início: nada faríamos que pudesse distorcer a nossa interpretação rigorosa, serena e objectiva do passado, para servir propósitos práticos do presente. 

O primeiro obstáculo com o qual tivemos de lidar foi de natureza historiográfica. Isto é, a versão que se encontrava estabelecida e mais generalizada fazia coincidir a História do futebol português com a história do desporto no Estado Novo. Impunha-se, por isso, pôr em causa, a ideia de que só depois de aprovada a Constituição de 1933, a qual legitimou um regime político autoritário, se teria dado início a uma comunidade nacional que se imaginava a si mesma a jogar futebol. 

Seria um erro crasso reduzir a possibilidade de organização de uma prova nacional ao Estado Novo. Quem cair nesse erro limita-se a reproduzir em termos de análise histórica aquilo que o próprio Estado Novo procurou fazer crer em muitos domínios, incluindo no do futebol: que a ideia de comunidade nacional só passou a existir com o novo regime, tendo ficado para trás a desordem e o caos da Primeira República. 

É que o Estado Novo procurou fazer crer que, antes da sua capacidade para organizar a nação em moldes corporativos, reinava o deserto, a confusão, a desordem e a violência. Contudo, não compete aos historiadores reproduzir as visões e as periodizações oficiais. Pelo contrário, qualquer historiador experimentado foi treinado para interpretar e explicar as sociedades, incluindo as nações, para além do que as representações oficiais pretendem fazer crer. Ainda por cima, é sabido que os regimes autoritários sempre procuraram manipular o passado. 

O segundo obstáculo com que a nossa pesquisa se deparou dizia respeito a um modo muito específico de incorrer em anacronismo. Trata-se de um erro grave que, neste campo de estudos, se traduz no estabelecimento de uma linhagem, muito enganadora. É que se afigura muito discutível argumentar que o Campeonato Nacional foi substituído pela Taça de Portugal, quando o que esteve em causa, a partir da época de 1937/38, foi uma configuração bem diferente de organização do calendário anual das provas desportivas. Claro que, até então, estas estiveram limitadas sobretudo pelas regiões, correspondendo a um modo mais diferente de imaginar a nação, para o qual contribuíam as maiores dificuldades de estabelecer comunicações intra-territoriais e de financiar os clubes. 

Uma vez removidos os obstáculos acabados de referir será possível formular o argumento principal: até 1937, o Campeonato de Portugal foi a prova máxima do país, de um ponto de vista legal (oficial) e social (na imprensa), momento em que foi superado, em importância desportiva, pelas Ligas. Estas últimas foram consideradas experimentais, a nível oficial, nas épocas 1934/35, 1935/36 e 1936/37. 

O argumento acabado de formular põe em causa a ideia de que o Campeonato Nacional da I Divisão e a Taça de Portugal foram a continuação, sob outra designação, das Ligas e do Campeonato de Portugal. Esta ideia, inteiramente falsa, teve origem num equívoco da Direção da Federação, que resultou de um procedimento ilegal, contrário às decisões do Congresso Extraordinário de Agosto-Dezembro de 1938 e que é insustentável numa perspetiva histórica. 

A polémica não é recente, apenas foi reaberta nos anos 90. Pelo contrário, desde 1938 que se questionou a interpretação da Direção da Federação. Esta, se passou a contabilizar, oficialmente, os campeonatos de Ligas como campeonatos Nacionais, não fez o mesmo com o Campeonato de Portugal e a Taça – ambos são contados como competições distintas nos palmarés dos clubes. 

No Congresso Extraordinário da Federação, que teve lugar em Agosto- Dezembro de 1938, não se fizeram alterações aos Estatutos e Regulamentos – votaram- se novos Estatutos e Regulamentos, novas designações de provas e novos sistemas competitivos. Legalmente, os Congressos Extraordinários não podiam deliberar e votar alterações. 

A posição da Direção é ilegal, porque contraria as decisões do Congresso Extraordinário de Agosto-Dezembro de 1938, que extinguiu as anteriores competições. Assim sendo, não foi o Campeonato de Liga que se transformou no Campeonato Nacional – foi o Campeonato de Portugal que mudou de modelo competitivo, passando para um sistema em poule! 

A imprensa generalista e especializada foi unânime em qualificar o Campeonato de Portugal de nacional. O mesmo aconteceu com a expressão “título máximo” ou “prova máxima”. Já o inverso, no que toca às Ligas, nunca aconteceu. É absolutamente indesmentível que até 1936/1937 esse atributo ficou reservado ao Campeonato de Portugal. Alguns periódicos usaram esta terminologia até 1938, inclusive. 

No Congresso Extraordinário de 8 de setembro de 1934, estabeleceu-se que as Ligas seriam experimentais, porque se desejava evitar o monopólio das Associações do Porto e Lisboa. A natureza experimental das Ligas ficou mesmo consagrada nas deliberações dos Congressos da Federação Portuguesa de Futebol que se seguiram. Aliás, o caráter experimental destas últimas provas deriva de um conflito que teve origem na votação do Regulamento do primeiro Campeonato de Portugal de 1921/1922, que foi considerado provisório. Por exemplo, a natureza experimental das primeiras Ligas foi de tal ordem vincada e reafirmada, que só nessa condição é que, por exemplo, a Associação de Braga lhe deu o seu aval. 

Um argumento de carácter analítico como aquele que aqui se expõe tem os seus pontos fracos. Primeiro, a partir de 1937, a imprensa não foi unânime no uso da terminologia em torno do título nacional: embora as Ligas nunca tenham sido apelidadas de nacionais, a verdade é que alguns jornais desportivos assumiram, explicitamente, a superioridade hierárquica dos campeonatos das Ligas. Os indícios desta inversão podem ser encontrados, também, nas reuniões directivas e nos Relatórios e Contas da Direção da FPF. É, pois, preciso ter cuidado com isto. 

Em segundo lugar, o argumento de que as Ligas, porque davam acesso ao Campeonato de Portugal, lhe eram secundárias é de valor relativo: nas mesmas discussões usou-se o Campeonato de Portugal, tal como a 2.ª Liga, como forma de compensar a interdição de acesso à 1.ª (não havia promoção, nem despromoção) – o que passa a ideia contrária! 

Terceiro ponto fraco: no defeso de 1937, as Ligas deixaram de ser consideradas experimentais – muito embora alguns congressistas continuassem a recorrer à ideia, por discordarem do sistema de apuramento do campeão (caso de Cândido de Oliveira). 

Por último, a referida ideia de a história do futebol não ser redutível à história do Estado Novo tem um inconveniente para o Sporting Clube de Portugal: pode dar a imagem de continuidade entre as competições anteriores e as do Estado Novo pós-1933. Isto é, o contrário do que defendemos. Contudo, tem a vantagem de trazer para dentro do cômputo nacional os Campeonatos de Portugal que decorreram durante a I República. 

Mais recentemente a Assembleia Geral da FPF tomou em consideração o nosso relatório, que aprofunda as conclusões aqui resumidas. Fê-lo em conjunto com outros dois pareceres encomendados por ela directamente. Face à não-decisão dessa Assembleia, o tema mantém-se em aberto e em discussão. Estou convencido que as conclusões da nossa investigação, serena e aprofundada, acabarão por se impor. 

 *O autor escreve ao abrigo do antigo AO.

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