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ADR Pasteleira. "Os miúdos gostam muito mais de vir para cá agora com a transferência do Bruno Fernandes"
Desporto 9 8 min. 12.02.2020

ADR Pasteleira. "Os miúdos gostam muito mais de vir para cá agora com a transferência do Bruno Fernandes"

A transferência de Bruno Fernandes do Sporting para o Manchester United, no valor de 55 milhões de euros, mais 25 milhões por objetivos, vai beneficiar outros dois clubes portugueses. o Pasteleira, clube de um bairro portuense com o mesmo nome, terá direito a 275 mil euros.

ADR Pasteleira. "Os miúdos gostam muito mais de vir para cá agora com a transferência do Bruno Fernandes"

A transferência de Bruno Fernandes do Sporting para o Manchester United, no valor de 55 milhões de euros, mais 25 milhões por objetivos, vai beneficiar outros dois clubes portugueses. o Pasteleira, clube de um bairro portuense com o mesmo nome, terá direito a 275 mil euros.
Foto: Rui Oliveira/Contacto
Desporto 9 8 min. 12.02.2020

ADR Pasteleira. "Os miúdos gostam muito mais de vir para cá agora com a transferência do Bruno Fernandes"

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
São seis horas da tarde de terça-feira, primeiro dia de treino da semana para os atletas do ADR Pasteleira, no Porto. Na freguesia de Lordelo do Ouro, os ânimos têm estado animados, receberam-se boas notícias no clube de futebol do bairro. Bruno Fernandes voou do Sporting até ao Manchester United naquela que foi a segunda transferência mais cara em Portugal.

O saldo foi de 55 milhões para o Sporting, mas graças ao mecanismo de solidariedade da FIFA, clubes como o da Pasteleira vão receber pela passagem do jogador. Os advogados ainda não chegaram a um consenso, mas as três épocas em que jogou pelo ADR Pasteleira vão valer ao clube bairrista um verdadeiro jackpot que pode variar entre os 195 mil e os 550 mil euros.   

A porta do clube está aberta e do lado de fora conversam três mães, que se preparam para despedidas. A sala ampla, quase vazia, está iluminada por luzes brancas. Ao fundo, do lado esquerdo, está montada a secretaria do clube com mesas em forma de um "L". 

Na parede do lado direito, que vai dar à porta do corredor dos balneários, vê-se um placar em cortiça onde estão afixados os resultados do sorteio da época para o campeonato distrital da segunda divisão. Em folhas A4, na horizontal, em letras bem visíveis, lê-se: "Cultura do Clube: Procura constante de SUCESSO em todas as circunstâncias, com futebol atractivo e eficaz. Importante é o sucesso do clube, o sucesso individual é uma consequência lógica da qualidade e emerge num contexto colectivo. Noção de colectivo".  

Vão chegando carros de onde saem rapazes, uns ainda crianças, outros com sinais de quem entrou na puberdade. Vêm já equipados de verde e branco, de mochila às costas, cumprimentam e seguem para os balneários.   

"Agora vão ter uma grande ajuda, não é?", pergunta a mãe de um dos atletas enquanto avança com a mensalidade em falta. A responsável pela secretaria sorri-lhe "todos os pais perguntam isso. Nós vamos receber, agora quanto é que não sabemos. Para nós é óptimo que não temos ajudas nenhumas, só dívidas antigas". 

Numa das mesas, um dos 'misters' desenha numa folha o plano de treino desta terça-feira. Começam a chegar mais pessoas, e entre elas está Carlos Rocha, presidente do clube desde 2018. 

"Os miúdos gostam muito mais de vir para cá agora com a transferência do Bruno Fernandes. Isto tem um impacto enorme", conta com ar de satisfação. "O Bruno merece. Para mim é o melhor jogador de Portugal. Isto foi bom para ele, mas o clube agradece o que vem a seguir". 

Destinos para o dinheiro que o clube irá receber, não faltam. "Dá para investir forte nas instalações, comprar duas carrinhas para leva-los aos jogos, é que neste momento não temos nada, temos usado carros de diretores. Alguns pais não têm condições nós trazemos os miúdos do bairro para jogarem aqui e temos de ser nós a pagar, bancámos taxis também, é assim que fazemos os transportes para os jogos e não devia ser", conta enquanto contextualiza o passado recente do clube que foi fundado em Agosto de 1962. 

"As dívidas vieram do passado, o futebol sénior era um problema, só despesas. Tivemos um privado a tomar conta disto durante quatro, cinco anos e não estava a ser aquilo que a gente queria", explica. 

Das finanças, à segurança social as dívidas em causa já tinham sido destino para o dinheiro que o clube foi recebendo de transferências anteriores às de Bruno Fernandes, tais como a de André Gomes que foi do Benfica para o Valência e mais tarde para o Everton.   

Hoje em dia, Carlos tem 45 anos, mas foi aos nove que pisou o campo do Pasteleira pela primeira vez. "Joguei cá até aos 18 anos. O clube para mim representa muito, é o clube do nosso bairro, vai além do futebol. Como sou aqui da zona e dou-me bem com toda gente, desafiaram-me, nunca pensei". 

O plano do Pasteleira é apostar na formação, para que se vá subindo aos poucos, até poder ser alcançada a meta de chegar ao campeonato nacional. Foi Jorge Morgado quem assumiu o comando como diretor de formação desde julho do ano passado. A convite do presidente do clube, a aventura que se avizinhava "não era pequena", mas "estava ciente do nível do desafio". 

Experiência no mundo do futebol sénior já tinha, mas estreou-se na área de formação com este novo projecto. "Temos tido dias muito complicados", desabafa sentado na secretaria improvisada, onde acabara de completar a inscrição de mais um jovem atleta. 

"Assumimos a formação do zero, o clube decidiu que queria fazer formação já nesta época desportiva. Houve aqui um processo de transição, tem sido um trabalho árduo porque partimos de zero atletas para os 180 e tal. Começámos a época tarde, mesmo até para recrutar treinadores foi complicado, mas felizmente tem corrido bem". 

Criar esta escola, segundo Jorge Morgado, é uma "tarefa titânica", já que "o clube não tinha ninguém com capacidade de levar a formação para a frente. Então eu, o Bruno Sousa com a ajuda do Miguel Pedro, que é o coordenador de formação e o Rui Sacramento que está connosco desde o início, fomos dinamizando isto". 

Servem-se do Instagram como ferramenta principal de comunicação com os mais jovens e onde notaram um feedback positivo desde o anúncio da transferência de Bruno Fernandes. "Houve um crescimento de visitas, seguidores, nestes últimos dias". 

As inscrições continuam abertas e continuam a chegar atletas novos porque "é evidente a melhoria da qualidade da nossa formação", afirma. Para a direção de formação do clube o impacto da transferência do ex atleta do Pasteleira é muito positiva, uma vez que "vai poder solucionar alguns problemas evidentes como a bancada que não tem condições nenhumas, quando está a chover os pais não têm onde estar, a iluminação também é muito fraca e queríamos ver se conseguíamos colocar iluminação LED, com os benefícios do consumo. Porque tudo isto é suportado por nós, não temos apoio de ninguém, nenhuma instituição, Câmara, nada". 

Com mensalidades que variam entre os 27 e os 35 euros, os recursos financeiros do clube que representa um dos bairros sociais mais famosos da cidade do Porto, estão completamente dependentes do número de atletas inscritos. 

"É difícil, por isso é que queremos crescer e atingir um numero de atletas que torne este processo de formação auto-sustentável", explica o diretor.

Que nem fénix renascida das cinzas, a motivação nos relvados do Pasteleira faz notar-se em todas as conversas que se ouvem pelos relvados. Lá fora, nos dois campos, os treinos já começaram. 

António Peres, treina os sub-15 e foi o responsável por mudar a posição de Bruno Fernandes, quando, há quinze anos, passou pela sua equipa. 

"Era um miúdo porreirinho, era humilde, gostava de trabalhar, tinha os problemas que os outros miúdos também tinham de se portarem mal, mas o treinador está mesmo aqui para os pôr na linha. É formação de homens e temos de andar sempre em cima deles, pegavam-se porque os treinos eram intensivos e um bocado viris. É uma coisa normal no futebol". 

Regressou este ano ao ADR Pasteleira e fala dos tempos antigos com nostalgia, porque lhe custa ver "falta de dedicação dos jovens atletas de hoje em dia". Conta que há uns anos "treinavam mais tempo e tínhamos piores condições. Hoje em dia temos um sintético, uma relva, e eles treinavam ali no campo de pelado. Para treinar em relva era uma vez por semana, e com os iniciados era a meio campo, num campo pequenino. Os miúdos chegavam aos jogos e rendiam. Faziam sacrifícios, deitavam-se cedo, não vinham para os jogos cheios de sono". 

O treinador de 60 anos, recorda-se que a geração de Bruno Fernandes, era mais dedicada e tinha vários atletas talentosos "não havia tanta tecnologia, agora passam a vida nos computadores e telemóveis, então vinham para o treino, aplicavam-se, lutavam, eram mais amigos".

Um pai aprecia o treino dos dois filhos jogadores do Pasteleira, "são os loirinhos, um tem cinco anos e o outro tem sete", ao saberem que o Bruno Fernandes tinha jogado na mesma equipa, conta que lá em casa  "ficaram todos orgulhosos". 

Manel Ferreira, de 13 anos, treina nesta casa há quatro anos. "Fiquei muito contente com a notícia do Bruno porque incentiva o clube a crescer. Desde que aconteceu isso já vieram muitos novos jogadores, no balneário falamos disto mas agora temos é de nos focar nos jogos para vencer".  

Entre os que chegaram há pouco tempo, está Gonçalo Ramalho, de 16 anos, jogava há três anos no Leixões mas mudou-se para o ADR Pasteleira em dezembro.

"Isto foi muito bom para nós e é um prazer ter um valor assim mais recheado para podermos tratar de algumas situações", comenta antes de voltar a correr para dentro do campo. 

Um ano mais velho e sub capitão, João Pedro já joga há cinco anos pela casa e acha que o processo de transição do clube tem corrido bem. Quanto a Bruno Fernandes diz que lhes "serve de inspiração a todos, mostra-nos que se trabalharmos podemos chegar ao mesmo nível".


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