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Adeus, Eusébio
A urna de Eusébio passou pelo Estádio da Luz, antes de seguir em direcção ao cemitério do Lumiar, onde o corpo foi a enterrar

Adeus, Eusébio

A urna de Eusébio passou pelo Estádio da Luz, antes de seguir em direcção ao cemitério do Lumiar, onde o corpo foi a enterrar
Desporto 5 min. 17.01.2014

Adeus, Eusébio

Eusébio da Silva Ferreira, nome maior do futebol português e mundial, morreu no domingo, com 71 anos de idade. Ícone para milhões de amantes do desporto-rei à escala planetária e também de gerações de portugueses espalhados pelo mundo, a morte de Eusébio deixou Portugal e a família do futebol mais pobres. Ser humano de excelência, foi figura de consenso capaz de criar unidade de opiniões e afectos. Esta segunda-feira, o país e o mundo prestaram-lhe a última homenagem num adeus sentido, como só os grandes merecem.

O genial jogador nascido em Moçambique foi um dos grandes embaixadores de Portugal nos quatro cantos do mundo. Não só pela sua qualidade futebolística – apenas reservada aos pré-destinados como ele –, mas também pelas qualidades humanas (unanimemente reconhecidas por muitos que conviveram de perto com ele) que fizeram de Eusébio um ser de excepção.

A sua importância e mediatismo extravasaram o mundo desportivo, tornando-o num autêntico símbolo. Eusébio foi, no coração dos portugueses, o maior herói popular do século XX. E foi também, a par de Amália Rodrigues, um dos portugueses mais internacionais de sempre. Deu muitas alegrias ao país e não há quem não recorde os seus jogos memoráveis.

A morte do "Rei" juntou portugueses de todos os quadrantes da sociedade e cores clubísticas numa homenagem merecida e sentida de forma especial pela família do futebol mundial um pouco por todo o planeta, como aconteceu, por exemplo, em Old Trafford. Com a bandeira de Portugal a meia haste, um minuto de silêncio em memória do Pantera Negra foi trocado por um emotivo minuto de aplausos por parte de todos os adeptos presentes na casa do Manchester United.

Depois de o corpo ter estado em câmara ardente desde domingo à noite, no Estádio da Luz, a urna foi levada para o relvado para uma volta ao estádio (como era o seu desejo) perante milhares de adeptos.

O cortejo fúnebre saiu depois do estádio e percorreu algumas das principais artérias de Lisboa, com paragem em frente à Câmara Municipal, na Praça do Município. Perante constantes aplausos, algumas das grandes figuras do futebol luso e a equipa sénior de futebol do Benfica, liderada pelo treinador Jorge Jesus e pelo director desportivo Rui Costa, juntaram-se a milhares de pessoas que se despediram esta segunda-feira de Eusébio no cemitério do Lumiar, numa onda de grande comoção.

Como disse José Mourinho, "Eusébio é um dos melhores futebolistas da história. Para Portugal ele significa mais do que isso: não há cor, não há clubes, não há cores políticas. Para os portugueses, Eusébio é Eusébio", sintetizou o emblemático treinador luso, que considerou ainda que "pessoas como ele nunca morrem".

UMA CARREIRARECHEADA DE TÍTULOSO

O futebol nos pés de Eusébio começou ainda menino, aos 15 anos, no clube "Os Brasileiros Futebol Clube", em Moçambique.

Curiosamente, chumbou nos testes para ingressar no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica no seu país de origem, e acabou por representar o Sporting de Lourenço Marques, onde se distinguiu.

Eusébio chegou a Lisboa em Dezembro de 1960, mas só se estreou pelo Benfica em Maio de 1961. Foi o princípio de uma carreira ímpar, com sucessos, prestígio, lesões, notoriedade e um nome que se transformou numa verdadeira marca, ao serviço dos encarnados e da selecção portuguesa.

Ganhou a alcunha de "Pantera Negra", atribuída pelo jornalista inglês Desmond Hackett, em alusão ao seu estilo felino de jogar.

Explosão e velocidade eram características puras em Eusébio, mas sob a sua chancela fica a excelência do remate: de qualquer ângulo, forte, colocado, que na maioria das vezes resultava em golo.

Ganhou a Bola de Ouro em 1965 e conquistou duas Botas de Ouro (1967/68 e 1972/73).

No Mundial de Inglaterra, em 1966, foi considerado o melhor jogador e foi o melhor marcador, com nove golos, levando Portugal ao terceiro lugar.

Jogou de águia ao peito durante 15 anos consecutivos (de 1960 a 1975) e no final da carreira ainda passou pelo Beira-Mar, Estados Unidos, México, Canadá, tendo terminado no União de Tomar, em 1978.

Sagrou-se campeão nacional pelo Benfica 11 vezes, foi campeão nos Estados Unidos e também no México. Ganhou cinco taças de Portugal e foi melhor marcador nacional por sete vezes.

Eusébio recebeu várias distinções nacionais e estrangeiras ao longo da vida, entre elas os colares de Mérito Desportivo (1981) e de Honra ao Mérito Desportivo (1990), além da "Águia de Ouro", o mais alto do Benfica, em 1982.

Do desporto às artes, Eusébio viu a sua imagem inspirar cronistas, realizadores, bandas de música, escultores ou outros criativos.

O "King", como também era conhecido, tem também o nome em ruas de várias localidades, na galeria da fama em Manchester, em Inglaterra, ou as pegadas no cimento da calçada da fama do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em iniciativas que prolongam no tempo um futebolista de excepção.

No cemitério do Lumiar, esta segunda-feira, milhares de pessoas despediram-se de Eusébio ao som do hino do Benfica e do hino nacional, cantado várias vezes durante o enterro. O cemitério foi pequeno para acolher tanta gente que durante horas esperou pela urna do antigo jogador do Benfica, debaixo de uma chuva e de um frio intensos que ainda assim não quebraram o ânimo da multidão, vinda para dizer o último adeus a Eusébio.

Á. Cruz   

Publicado no CONTACTO, a 8 de Janeiro de 2014.