Escolha as suas informações

A pedalada de Joaquim Agostinho
Desporto 4 min. 14.07.2022
Ciclismo

A pedalada de Joaquim Agostinho

Ciclismo

A pedalada de Joaquim Agostinho

Foto: AFP
Desporto 4 min. 14.07.2022
Ciclismo

A pedalada de Joaquim Agostinho

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Etapa rainha do Tour de France acontece esta quinta-feira, a 3300 metros de altura, no Alpe d’Huez, onde mora um busto do inimitável ciclista português.

Um dia, lá para os lados de Casalinhos de Alfaiata, perto de Torres Vedras, o comum mortal Joaquim Agostinho encontra a equipa do Sporting a treinar e dá-lhes um bigode. Ou seja, passa-lhes à frente como quem não quer a coisa e assim se mantém durante largos minutos. Pormenor: Joaquim Agostinho guia uma bicicleta banalíssima. 

A sua pedalada é velocíssima, uma imagem de marca muito sua e constatada pelos companheiros da tropa, em Moçambique, durante a guerra colonial, que o vêem fazer 50 quilómetros em duas horas, como mensageiro, enquanto os outros demoram cinco.

O Sporting, obviamente, contrata-o. Dura só um ano, essa relação. Em 1969, o histórico treinador francês Jean de Gribaldy seduz Agostinho com uma transferência para a Frimatic, que lhe permite correr na Volta a França. Na sua primeira experiência, ganha duas etapas. 

Venceria mais duas, um em 1973 e outra em 1979, aqui já com 37 anos de idade e na mítica etapa-rainha no Alpe d’Huez. O feito é ainda mais extraordinário porque Agostinho acumulara, três dias antes, mais uma queda aparatosa, que lhe provoca uma tendinite no joelho esquerdo.

Na 6.ª etapa, é vítima de uma queda a caminho de Saint-Brieuc e equaciona a desistência. Nada feito, o homem é de ferro. No dia seguinte, monta a bicicleta e pedala com o objectivo de chegar ao fim. Doze dias depois, no dia 15 Julho (um domingo), a etapa vai de Mehucres ao Alpe d’Huez num total de 169,5 km.


Cristiano Ronaldo, celebra um golo contra a seleção da Holanda. EPA/OLIVER BERG
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

O calor aperta, espera-se ataque para tirar a camisola amarela a Bernard Hinault. Na escalada a Madeleine, uma primeira categoria, quatro ciclistas (Van Impe, Battaglin, Martínez e Kuiper) assumem-se como favoritos. 

A caminho de Galibier, já só restam Van Impe e Battaglin, devidamente perseguidos por Hinault. Quando o Alpe d’Huez está ali à espreita, Joaquim Agostinho sai da casca e inventa uma corrida louca, memorável. As suas pedaladas bem ritmadas ultrapassam qualquer adversário, qualquer obstáculo. A uma velocidade média de 27,2 km/h, o português avança decidido para a vitória e corta a meta com quase dois minutos de avanço sobre o francês Robert Alban.

 O camisola amarela Hinault é oitavo classificado, a três minutos e 20 segundos. Ainda em cima da bicicleta, Agostinho dedica o dia glorioso à loirinha de Torres Vedras (Ana Maria, sua futura mulher). 

O desporto português escreve uma página de ouro e Agostinho ganharia uma placa de homenagem no quilómetro do arranque destemido para a sensacional vitória. Aos 37 anos, insistimos.

Palavras para quê? É um artista português. Com direito a um busto em Huez. Contas finais, corre 13 vezes no Tour e acaba duas vezes em terceiro lugar. Na Vuelta, em Espanha, ganha três etapas e acaba uma vez no segundo lugar do pódio, a 11 segundos do camisola vermelha. 

E em Portugal? É um festival sem igual, com um recorde ainda em vigor de 26 vitórias em etapas. Ganha três Voltas a Portugal. Numa delas, em 1971, é camisola amarela da primeira à última etapa e comete a proeza de dar 12 minutos de avanço ao segundo classificado na etapa entre Abrantes e Figueira da Foz.

Antes da dita cuja, todo o pelotão concorda em descansar, porque o percurso é difícil, servido por estradas e caminhos de baixíssima qualidade. A meio da corrida, Agostinho, camisola amarela com 13 segundos de avanço sobre o benfiquista Fernando Mendes, sente uma vontade incontrolável de urinar – ele é dos poucos sem jeito para fazer chichi em cima do selim. Tem de descer da bicicleta. Assim o faz. 

Quando volta ao pelotão, sempre em ritmo lento, Agostinho detecta a ausência de Fernando Mendes que, entre curvas e contracurvas, lá fura o embargo. Começa aí uma etapa memorável, com o sportinguista a pedalar furiosamente. Só abranda quando apanha Fernando Mendes. Zangado, dispara: "Agora acompanha-me, se és capaz..." Não vai. Em corrida desenfreada, Agostinho ganha avanço e mais avanço. Nem os pedidos desesperados de outro Agostinho (o Artur, dono da Sonarte, então organizadora da Volta) para abrandar o demovem. 


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Agostinho corta a meta na Figueira da Foz com 12 minutos de avanço e aquela Volta acaba-se ali mesmo. "É uma lição para todos. Quem me tenta fazer o ninho atrás da orelha, trama-se", justifica Agostinho, de amarelo de fio a pavio nessa Volta. Ganha oito etapas das 25 e dá 9,54 minutos de avanço sobre o segundo classificado, o francês Antoine Santy, da Bic.

Em 1984, durante a Volta ao Algarve, de volta ao Sporting, o bom do Agostinho dá água pela barba à concorrência. Conta Marco Chagas, seu companheiro de equipa: "Etapa de contrarrelógio e o Agostinho pregou-nos uma remessa." Uma remessa? "A mim, por exemplo, deu-me minuto e meio ou dois minutos de avanço, já nem me lembro. No dia seguinte, era dia de meias etapas. Era assim naquele tempo: corríamos, cortávamos a meta antes do almoço, tomávamos um banho, comíamos qualquer coisa e lá íamos correr outra vez até quase ao pôr-do-sol."

O dia seguinte é o fatídico. Agostinho embrulha-se na recta da meta com um cão e cai desamparado. Morreria poucos dias depois. Acontece que os heróis são eternos e Agostinho perdura na memória nacional. E esse facto é devidamente assinalado com 13 nomeações para nomes de ruas em todo o país, à frente de Carlos Lopes (10) e Eusébio (8).

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.