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A magia da CAN
Desporto 5 min. 08.01.2022
Futebol

A magia da CAN

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A magia da CAN

Foto: LW
Desporto 5 min. 08.01.2022
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A magia da CAN

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A Taça Africana das Nações, essa belíssima sequência de palavras, começa domingo com Queiroz (Egipto) e Toni (Camarões) em campo.

Rufai à baliza. Na defesa, Saber à direita, Wilson e Naybet no meio, Elderson à esquerda. No meio-campo, Abdel Ghany, N’Dinga e Lufemba. No ataque, Madjer com Ricky e Yekini. Ai sim, e o William? E o Tahar? E o Amunike? E o El Hadrioui? E o Ali Hassan? E o Vata? E o Ali Hassan? Eisschhhhh, grandes falhas. Bom, adiante, este bem poderia ser o onze ideal africano da 1.ª divisão em jeito de balanço a propósito do arranque de mais uma edição da Taça Africana das Nações.

Não está mal, não senhor, mas preferimos convocar outro onze, baseado em exóticas palavras onomatopaicas, cujo significado passa completamente ao lado de qualquer europeu mas representa (e assusta) muito para qualquer africano, por muito desinteressado que seja por futebol: Awele; Ikenga, Dogon, Gris-Gris e Maravú; Gouro, Ju-Ju e Makuy; Shira-Punu-Lumbo, Ndoki e Niam-Niam.

Esta é a verdadeira magia, na verdadeira acepção da palavra, da Taça de África, com muita superstição, rituais, poções e bruxaria. O resultado final de uma partida está portanto condicionado por tudo isso. E há gostos para tudo. Os habitantes do Togo, por exemplo, estão convencidos que foi Mama Togo, uma das santas togolesas mais conhecidas, quem garantiu o país no Mundial-2006 e não os 11 golos de Adebayor E por que razão ficou o Togo na primeira fase da CAN? Nada mais simples: a CAF impede todas as selecções de se fazerem acompanhar por santos ou bruxos. Com Mama Togo nas bancadas, Adebayor é uma sombra de si próprio.

É bom que siga a Taça de África, a competição oficial mais despreocupada e atacante do mundo. Há regras, mas as entradas duras são um must dos africanos. Há táctica, desde que seja bola para a frente e fé em Deus.

Esclarecido? É que há mais, muitos mais. Outro exemplo: em noite de lua cheia, os jogadores do Zimbabué costumam dançar em cima dos túmulos dos seus antepassados para dar sorte. Os ganeses sentam-se em círculo antes dos jogos e são impregnados com sangue de uma galinha degolada por um bruxo que dança à volta deles. Na África do Sul é costume que o seleccionador, em dia de estreia, meta os pés em sangue de veado para ficar imunizado contra a magia negra dos rivais. Os senegaleses fazem pequenas incisões cutâneas nas mãos, nos braços e nas pernas. Os zambianos encaram o adversário com muito mais confiança se tocarem numa mão humana mumificada. E vale lembrar que N’Kono, antigo guarda-redes e na altura adjunto dos Camarões, foi preso durante a CAN-2002, no Mali, por comprovados actos de bruxaria em pleno relvado.

Por tudo isto, é bom que siga a Taça de África, a competição oficial mais despreocupada e atacante do mundo. Há regras, mas as entradas duras são um must dos africanos. Há táctica, desde que seja bola para a frente e fé em Deus. Ou em Mama Togo. Ou outra entidade qualquer.

Agora sim, vamos analisar o onze ideal africano da 1.ª divisão. Rufai é um must. Sim, é verdade, William é campeão português pelo Boavista, onde passa quase uma década (nova épocas), mas, caramba, Rufai é Rufai. É príncipe de uma tribo na Nigéria e defende nas horas, seja em Portugal ou no Mundial-94. A sua cara de guerreiro nada condiz com o seu coração mole. Tímido por natureza, leva o Farense à Europa no ano em que Hassan é o melhor marcador da 1.ª divisão com 21 golos, em 1995.

No quarteto defensivo, o marroquino Saber é um lateral-direito com saber (e isto nem é brincadeira com o nome artístico) que se transfere para o Nápoles, juntamente com Quiroga e Vidigal. No outro lado do relvado, o nigeriano Elderson é uma figura de proa e, até agora, único estrangeiro de uma equipa portuguesa a marcar na Taça das Confederações – acontece em 2013, vs Tahiti, no Mineirão. No meio, Wilson é o capitão por excelência do Belenenses por anos e anos enquanto Naybet é o central perfeito do Sporting de Queiroz, contratado pelo olheiro Aurélio Pereira numa incursão a França, quando o objectivo até é outro jogador, e da equipa adversária.

O meio-campo reúne uma das figuras mais consensuais do universo futebolístico português. Tem nome de carimbo e tudo. Ya, isso mesmo: N’Dinga. O homem mais se parece com um polvo tal a capacidade de se desdobrar em infinitas acções. De 1986 até 1996, N’Dinga acumula 285 jogos na 1.ª divisão, a maioria dos quais com nota positiva e todos eles de cabeça levantada com a bola no pé. Com ele, também chegam outros dois zairenses de reconhecida qualidade: N’Kama e Basaúla.

Ao seu lado, o egípcio Abdel Ghany. Ponto prévio: marca um golo no Jamor pelo Beira-Mar. E não é um golo qualquer, é um golo ao Vítor Baía e implica prolongamento. Isso mesmo, Abdel Ghany obriga o Porto a trabalho extra (acabaria 3:1). De resto, um jogador cerebral, altamente técnico e muito árabe. Como assim? ‘Quando cheguei a Aveiro, causei sensação porque negociava todos os produtos no supermercado. Se aquilo custava x, dizia y e a conversa ia por aí fora.’ Só falta um para compor o tridente do meio-campo e é ele Amunike. Sim, Lufemba sai da convocatória porque Amunike decide dérbis (1:0 em 1994 é a primeira vitória Sporting vs Benfica no José Alvalade após o 7:1 em 1986), Taças de África (bis na final Nigéria 2:1 Zâmbia) e até Jogos Olímpicos (Nigéria 3:2 Argentina).

O ataque tem o nigeriano Yekini, o único a acumular o título de melhor marcador da 2.ª e 1.ª divisão em anos seguidos, ambos pelo Vitória FC, em 1993 e 1994. O seu estilo físico arrasta qualquer defesa, até Mozer (Benfica). Se o colocássemos ao lado do compatriota Ricky, estava o caldo entornado. É que Ricky é o último jogador do Benfica a marcar seis golos num jogo oficial (14:0 vs Riachense na Taça de Portugal 1988-89) e, depois, é o rei do golo na 1.ª divisão pelo Boavista, em 1991-92.

Atrás da dupla, um vagabundo chamado Rabah Madjer. Mais palavras para quê, é um artista argelino. E o maior responsável pela reviravolta do FC Porto vs Bayern na final da Taça dos Campeões 1987, com um golo (de calcanhar) e uma assistência em menos de dois minutos. Aqui está o melhor onze para combater as exóticas palavras onomatopaicas.

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