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A mãe de Cristiano Ronaldo (e o sete) sempre presente
Desporto 5 min. 14.07.2022
Futebol

A mãe de Cristiano Ronaldo (e o sete) sempre presente

Ronaldo e mãe, Dolores Aveiro, em 2008.
Futebol

A mãe de Cristiano Ronaldo (e o sete) sempre presente

Ronaldo e mãe, Dolores Aveiro, em 2008.
LUSA
Desporto 5 min. 14.07.2022
Futebol

A mãe de Cristiano Ronaldo (e o sete) sempre presente

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que sempre sonhou saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 5. A mãe (e o sete) sempre presente

Dolores Aveiro é o exemplo máximo de boa paternidade, de acordo com o pai desportivo Aurélio Pereira.

Há coincidências e coincidências. Esta é deslumbrante: Ronaldo, o 7 por natureza, assina pelo Sporting a 7 do 7 de 1997. Nem mais, 7 Julho 1997. O mundo do futebol descansa, Aurélio Pereira nem por isso. O olheiro aproveita uma viagem à Madeira dos juniores, treinados pelo seu irmão Carlos, e reúne a família de Cristiano no Hotel Infante Dom Henrique, no centro do Funchal.

"Falámos, jantámos e assinámos. Foi no dia 7 de Junho de 1997. Lá está o sete. Ele só perguntava ‘onde está a caneta, onde está a caneta?’. Já aí mostrava um miúdo com olho vivo e pé ligeiro. Foi agradável e útil conhecer os alicerces do Ronaldo. Nunca me esquecerei dos olhinhos dele, a brilhar intensamente, ao lado da mãe Dolores – que é uma sportinguista dos sete costados. O pai também estava, e até bebemos uma poncha."

Passamos a bola à mãe Dolores. "Houve aqueles torneios de Páscoa e chamaram-me para falar com o senhor Aurélio Pereira no Hotel Infante Dom Henrique. Ele disse-me 'o seu filho tem dom para o futebol' e perguntou se dava autorização para que ele fosse a Lisboa fazer umas provas. Disse-lhe que sim, porque era o meu clube. Se não fosse…"

Então? "O Benfica tinha-me falado primeiro, mas eu disse que ele não iria para o Benfica. Foi para o Sporting, ao cuidado do senhor Aurélio. Passado o teste em Lisboa, o senhor Aurélio disse-me que o Cristiano ia começar a viver em Lisboa, no lar do jogador. Tinha direito a três viagens por ano e ganhava 10 contos."

Em caso de crise, por saudades de casa ou outro pormenor qualquer, o Sporting oferecia os seus serviços (e dinheiro) para apaziguar a dor. Diz a mãe Dolores, dona da bola. "Ele teve crises, porque gozavam com ele. Fosse pela maneira de falar ou por ser o mais pequeno dos colegas. Quando ele tinha crises, falava com a minha directora, que era do Sporting, e trocava a minha folga para ir passar o fim-de-semana a Lisboa. Para mim, era como ir à Venezuela. Levava-lhe qualquer coisa de marca a pedido dele, porque todos os amigos também tinham e já ficava contente. Depois, dormia comigo no hotel, íamos ver o Sporting ao estádio e ele já ficava mais descansado, nem pensava mais em regressar a casa. No fundo, temos de pensar que ele era um rapazito de 12 anos sozinho em Lisboa, sem família. Uma vez, esteve uma semana a despejar o lixo no centro de estágio e a fazer as camas. O Carlos Martins brincava com ele e dizia-lhe 'Ronaldo, lá vais tu com o teu Ferrari', que era o caixote do lixo. E ele dizia 'estás a gozar, mas um dia hei-de ter um".

A solidão tem muito que se lhe diga, sobretudo para miúdos de tenra idade. No caso do Ronaldo, havia lágrimas nos telefonemas para casa e outros momentos tensos. Um dos mais famosos é no dia em que a professora acha piada ao sotaque madeirense e ri-se. O Ronaldo não gosta nada e reage. Forte e feio. A coisa rebenta a escala e Ronaldo passa dificuldades. "Apesar de ser um miúdo com alguma rebeldia, ouvia-me e acatava os meus conselhos", desconversa Aurélio.

"Um dia, antes de um jogo do Sporting na Madeira, o Ronaldo teve outro desentendimento com uma das nossas professoras. Como castigo (pedagógico), decidi desconvocá-lo. Beeeem, foi uma choradeira. O impedi-lo de ir à Madeira para ver a família deu-me um trabalhão imenso. Mas tinha de ser. Um castigo é um castigo. E o Ronaldo tinha-se portado mal. Telefonei à mãe e informei-a de tudo. Ela deu-me razão e falou com o Ronaldo, no sentido de puxar as orelhas e fazê-lo ouvir a razão. É por isso que digo, a mãe do Ronaldo é o exemplo máximo de boa paternidade, salvo seja. Porque ouvem os filhos, ouvem os problemas, ouvem o Sporting e decidem pelo melhor. Esse trabalho de raiz é muito importante, talvez o mais importante. Porque se um pai se transforma em pai-galinha e vai contra o clube, está o caldo entornado e o filho nunca irá crescer devidamente dentro da estrutura por nós idealizada."


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Ora bem, a mãe Dolores também se lembra deste episódio. Como não? "O Ronaldo ficou revoltado, até quis abandonar. Só que eu lhe disse 'se estivesses com a mãe, eu castigava-te. Com eles do Sporting, é igual. Tens de saber dar a volta.' Foi pena, claro. A verdade é que ficámos frustrados, todos nós, a família e os amigos. Até tínhamos feito cartões de boas-vindas para esperá-lo no aeroporto, como 'Força Ronaldo'. Foi pena, mesmo. Mas se fez asneiras, tinha de ser castigado. E ele aprendeu a ser homem nessas alturas."

A presença de Dolores na vida do filho é uma constante, espécie de porto de abrigo. "Passei a viver com ele em Lisboa, a partir do momento em que passou a jogar com os adultos. Até me lembro da fase em que se afirmou como jogador profissional e pediu-me para acabar com os estudos. Porque aquilo era duro: treino de manhã, treino à tarde e aulas à noite, das 7 às 11, se não me engano. Ele ligou-me a dizer que não queria mais estudar. Insistia nessa ideia e, às tantas, convenceu-me. Disse-lhe 'se é isso que queres, a mãe vai assinar e serás jogador de futebol'. Assim foi, assinei e ele deu o salto. Morávamos ali na Expo, num apartamento que era do Hugo Viana. Fazia-lhe o pequeno-almoço, antes do treino. E fazia-lhe o almoço, depois do treino. A mesma táctica em Manchester."

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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