A história de Yonas Kinde

Refugiado quer regressar aos Jogos Olímpicos para representar Luxemburgo

Yonas Kinde pretende naturalizar-se e fazer uma vida normal no Luxemurgo
Yonas Kinde pretende naturalizar-se e fazer uma vida normal no Luxemurgo
Foto: Lex Kleren

Yonas Kinde deixou a Etiópia devido a problemas políticos. Chegou ao Luxemburgo em 2012, onde pediu asilo político. Teve uma integração difícil e passou por várias localidades e lares no Grão-Ducado. Foi ajudado por amigos, entre eles alguns portugueses. A sua determinação e talento levaram-no a ser escolhido para representar a equipa do Comité Olímpico Internacional nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e, apesar de não lhe serem homologados os títulos no Luxemburgo por não possuir a nacionalidade, gostaria de representar o Grão-Ducado nas próximas Olimpíadas, em Tóquio.

Por Álvaro Cruz e José Luís Correia

Yonas Kinde fez parte da primeira equipa de dez desportistas do Comité Olímpico Internacional (COI), que representou os 60 milhões de refugiados em todo o mundo, tendo corrido a maratona nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Yonas tem 36 anos, cresceu em Adis Abeba, capital da Etiópia, mas é natural da região de Gondar (norte), e confia não querer regressar ao seu país. Gosta do Luxemburgo, vive em Hamm, na capital, e está a aprender o luxemburguês para se poder naturalizar, trazer a família e encontrar trabalho como fisioterapeuta. Diz que vai continuar a correr por mais alguns anos e depois quer transmitir os seus conhecimentos aos mais jovens.

CONTACTO – O que sentiu ao participar na prova mais emblemática da maior competição desportiva do mundo?

Yonas Kinde – Fiquei muito feliz. Foi uma experiência extremamente enriquecedora em todos os aspectos. Contactar com atletas do mundo inteiro e estar entre os grandes campeões foi muito agradável. Sempre tive o sonho de um dia poder competir nos Jogos Olímpicos, embora preferisse ter ido em representação do meu país.

CONTACTO – Com que sentimento recebeu a convocatória para integrar a selecção de refugiados do Comité Olímpico Internacional?

YK – Foi uma grande surpresa e alegria ao mesmo tempo. Eu ia no autocarro, no meio da cidade, e comecei a gritar de alegria quando recebi o telefonema da confirmação. Acho que as pessoas pensaram que eu estava maluco. Eu sabia que havia várias dezenas de candidaturas de atletas de alto gabarito e quando o meu amigo Pierre Gricius, que me ajudou na inscrição, me comunicou a convocação pelo telefone, foi, obviamente uma grande satisfação.

CONTACTO – Como foi tratado enquanto atleta refugiado no Rio de Janeiro pelos outros atletas e pelo público?

YK – Acima de tudo, com um grande respeito. Recebemos fortes incentivos por parte de toda a gente e um grande encorajamento a cada prova que era disputada. Todos os refugiados foram apoiados de uma forma que nos marcou muito e que jamais poderemos esquecer. Foi uma grande emoção quando encontrei compatriotas meus com os quais corri na Etiópia. Alguns, estupefactos, diziam-me: “Mas, como é que tu estás aqui?”.

CONTACTO – Terminou em 90° lugar na maratona dos JO. Pensa que poderia ter obtido uma melhor classificação?

YK – Sim, na verdade esperava fazer bem melhor. Terminei com o tempo de 2h24’, mas queria baixar o meu recorde, que está nas 2h17’. O facto de ter estado no Brasil desde a cerimónia de abertura, 20 dias sem as melhores condições para treinar, acabou por influenciar negativamente o meu desempenho. No Luxemburgo, estou habituado a correr em florestas e circuitos mistos. No Rio, tinha que treinar no estádio ou em estrada de asfalto e acabei por pagar a factura na classificação final. No entanto, fiquei bastante satisfeito com o resultado obtido num contexto difícil, apesar de saber que poderia ter feito um tempo melhor.

CONTACTO – Foi difícil ter deixado a família na seu país?

YK – Sim, muito difícil, apesar de manter contacto com eles. Sou casado e tenho uma filha de oitos anos. Sei que eles me viram pela televisão nos Jogos Olímpicos e que estão muitos orgulhosos, mas a distância é sempre muito difícil de ultrapassar. Tenho muitas saudades.

CONTACTO – Quando e porque razão saiu da Etiópia?

YK – Devido a problemas políticos, mas prefiro não falar no assunto.

CONTACTO – Como veio parar ao Luxemburgo?

YK – Na verdade, vim para a Holanda e só depois para o Luxemburgo, mas quando aqui cheguei pensava que estava na Alemanha (risos).

CONTACTO – A adaptação ao país foi difícil?

YK – Foi muito difícil, sobretudo no primeiro ano. Nunca pensei que a vida de refugiado fosse tão difícil. Não conhecia ninguém, não falava francês nem luxemburguês, só inglês, fazia muito frio... Fiquei inicialmente num lar de acolhimento na cidade do Luxemburgo, mas pouco tempo depois mudei-me para Sanem, passei também por Larochette, Esch-sur-Alzette, Ingeldorf e estive ainda no Centro Educativo de Eisenborn, onde fiz alguns trabalhos.

CONTACTO – Quando chegou ao Luxemburgo inscreveu-se num clube de atletismo?

YK – Quando estive em Sanem integrei o Belvaux, foi o clube pelo qual ganhei a minha primeira prova no Luxemburgo, a meia-maratona de Beckerich. Mas fiquei um pouco desiludido, pensava que o primeiro prémio era pecuniário e eu podia ganhar algum dinheiro, mas só me ofereceram um ramo de flores. Depois, foram-se seguindo várias outras provas nacionais e internacionais, algumas já remuneradas. No ano passado, mudei-me para o Celtic, clube que represento actualmente.

CONTACTO – Já venceu muitas provas nacionais e internacionais?

YK – Sim, mas infelizmente como não tenho ainda a nacionalidade luxemburguesa, sou apenas campeão da Federação Luxemburguesa de Atletismo, não me dão o título de campeão do Luxemburgo. Sou campeão de cross-country e da meia-maratona, fui terceiro classificado e o melhor atleta do Luxemburgo na meia-maratona ’Route du Vin’ em 2014, mas não posso ter os títulos homologados.

CONTACTO – Com que idade começou a correr?

YK – Desde muito cedo, na Etiópia, onde muita gente pratica atletismo. Mas foi a partir dos 17 anos que me tornei profissional e comecei também a representar o meu país, especialmente nas provas da meia-maratona e no cross-country. No meu clube, acumulava ainda as funções de fisioterapeuta, mas aqui ainda não obtive a equivalência do diploma para poder exercer a profissão.

CONTACTO – Quantas vezes treina por semana?

YK – Todos os dias. Faço uma média de mais ou menos 150 quilómetros por semana, o que equivale a cerca de 20/25 por dia.

CONTACTO – Participa regularmente em competições no Luxemburgo e no estrangeiro?

YK – Sim, sempre que posso.

Aliás, consegui o tempo de 2h17’ na maratona de Frankfurt (Alemanha) e que me garantiu os mínimos olímpicos. Já participei em quatro maratonas e numa delas, em Hockenheim, também na Alemanha, ganhei e estabeleci o melhor tempo do percurso. No Luxemburgo, participo nas competições regulares, com especial enfâse para as meias-maratonas, cross-country e provas de fundo como a Postlaf, a Walfer Vollekslaff e outras que também já ganhei.

CONTACTO – Como passa os seus dias? Tem muitos amigos no Grão-Ducado?

YK – Essencialmente treino bastante e estou, também, a frequentar cursos de francês e luxemburguês para poder pedir a nacionalidade. Quanto aos amigos, não tenho muitos. Conheci uns portugueses em Larochette, que me ajudaram a renovar o meu pequeno apartamento e por vezes vou comer frango assado com eles, porque gosto bastante. São gente aberta e muito simpática, como no meu país e no Brasil, ao contrário de muitos luxemburgueses que são mais fechados. Por vezes, quando faço alguma pergunta na rua sobre um endereço ou coisa no género, reagem com distância e se calhar pensam que lhes vou pedir alguma coisa. Tenho também uma vizinha luxemburguesa com a qual aproveito para falar luxemburguês, mas o meu grande amigo é Pierre Gricius, antigo jornalista do Luxemburger Wort. Ele tem sido uma pessoa extraordinária e tem-me ajudado muito. Foi ele que estabeleceu os contactos com a Federação Luxemburguesa de Atletismo e conduziu todo o processo que levou o Comité Olímpico Internacional a convocar-me para os Jogos Olímpicos. Devo-lhe muito, ficará para sempre no meu coração.

CONTACTO – Espera voltar ao seu país?

YK – Não. Espero obter a naturalização o mais rapidamente possível e assim que me for possível quero trazer a minha família e encontrar trabalho para ter uma vida normal.

CONTACTO – Que projectos tem a breve e longo prazo?

YK – Quero continuar a correr por mais alguns anos e, se possível, representar o Luxemburgo nos próximos Jogos Olímpicos, em Tóquio. Tenho também sido abordado por algumas pessoas que me pedem para preparar alguns treinos, sobretudo para os mais jovens. Talvez quando deixar de correr me dedique a treinar os mais jovens para lhes poder transmitir conhecimentos e toda a experiência de vida que fui acumulando.

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