Escolha as suas informações

A falta que nos faz Dudelange
Opinião Desporto 3 min. 17.09.2022
Ciclismo

A falta que nos faz Dudelange

Ciclismo

A falta que nos faz Dudelange

Foto: Stéphane Guillaume
Opinião Desporto 3 min. 17.09.2022
Ciclismo

A falta que nos faz Dudelange

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
A Volta ao Luxemburgo em Bicicleta, ou Skoda Tour, não passa este ano por Dudelange e isso deixa-me francamente triste.

O único ciclista português a vestir a jaune na Volta a França foi um português de Montalegre que cresceu em Dudelange e se chama Acácio da Silva. Na verdade ele não ganhou apenas uma etapa, antes envergou a camisola amarela durante três jornadas – quatro dias e meio, no total. O que aconteceu foi que nesse ano o Tour partiu do Luxemburgo e os três primeiros dias da competição decorreram no Grão-Ducado.

Silva é um tipo extraordinário, de uma humildade e um sentido de humor desconcertantes. Há um ano, andei com ele a percorrer o país para acompanhar a Volta ao Luxemburgo, que acabaria por ser ganha por João Almeida. No fim da prova, aliás, ambos abraçar-se-iam e trocariam galhardetes. Acácio apostava que o rapaz iria tornar-se no primeiro português de sempre a ganhar o Tour. Almeida confessava a honra de ter o apoio de uma lenda na competição.

Uma parte importante desses dias foi ver como Dudelange e o ciclismo eram parte da mesma história. Conheci, aliás, Acácio da Silva na cidade onde ele cresceu e se fez profissional. Nos dias em que fiz a reportagem com ele contou-me uma das mais extraordinárias epopeias daqueles seus tempos de glória.

Na primeira etapa que ganhou do Tour de France, passou por Dudelange e viu que os seus irmãos estavam na esplanada do Étoile du Sud. Naquele café tinha assento o núcleo do Sporting no Grão-Ducado, presidido precisamente por um dos seus irmãos. Acácio tinha fugido do pelotão com mais dois e ia com bom avanço. Mas depois viu ali a família toda e parou. Levou os pés ao chão porque lhe passaram um cálice de vinho do Porto para as mãos. “Bebi aquilo de um trago. Depois pedalei monte acima e ultrapassei os outros todos. Ganhei a etapa”, lembro-me de ele me contar.

Gosto francamente de Dudelange, acho-a enérgica e criativa. Um quarto da sua população é portuguesa, e isso ajuda bastante à festa. E creio que será difícil para mim dissociar o mundo das duas rodas da quarta maior cidade do país. Talvez tenha sido o facto de ter andado por ali com Acácio há um ano, a acelerar nas contracurvas da estrada e a ouvir as memórias do mundo que avançava quando ele era miúdo e rolava por aquele mesmo alcatrão, por aquela mesma terra batida.

A Volta ao Luxemburgo em Bicicleta, ou Skoda Tour, não passa este ano por Dudelange e isso deixa-me francamente triste. O ano passado tive a oportunidade de seguir toda a competição e em nenhum outro lugar vi tamanho amor ao ciclismo. Há etapas míticas em cada competição desta modalidade. O Tour não seria o Tour sem o Alpe d’Huez, é difícil imaginar o Giro sem o Passo Del Mortirolo ou a Vuelta sem a passagem pelos Lagos de Covadonga.

Bem sei que a Volta ao Luxemburgo também tem as suas tradições, que termina inevitavelmente diante do Hall Victor Hugo, em Limpertsberg, e pode até ser que os especialistas da questão discordem de mim neste assunto. Não faço ideia do motivo que determinou este desvio da rota, mas sei bem o que sinto. E o que eu queria, nestes dias, era estar em Dudelange – se calhar com Acácio da Silva outra vez – a ver passar as bicicletas.

(Grande Repórter)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

As lições de Acácio da Silva, único ciclista português a vestir a camisola amarela no Tour de France, quando vê o primeiro dos seus compatriotas vencer a Volta ao Luxemburgo, país onde cresceu.