A conquista do torneio Skydome
A conquista do torneio Skydome
Canadá, Toronto, 13 graus centígrados negativos, estádio coberto, piso sintético, fiscais-de-linha femininas. E o que fazia a selecção portuguesa neste lado do mundo? A resposta certa vale 200 mil contos – o valor recebido pela Federação Portuguesa de Futebol para participar no Torneio Skydome, a meio da nossa época desportiva, em Janeiro de 1995.
A ideia de aproveitar a paragem do campeonato nacional para dar um pulinho ao Canadá e fazer dois jogos numa competição menor gerou muita polémica e fez correr muita tinta nos jornais, com o Sporting a assumir o papel principal da discórdia, relativamente à convocatória dos seus três jogadores (o lateral-direito Nélson, o médio/capitão Oceano e o avançado Sá Pinto) no que entenderam ser uma provocação do seleccionador António Oliveira, que, justiça lhe seja feita, também chamou três benfiquistas e outros três portistas.
Ora, Neno, Paulo Madeira e Nelo jogaram com o Canadá e só o guarda-redes ficou de fora com a Dinamarca, enquanto Secretário, Jorge Costa e Folha foram sempre titulares. Do trio leonino, Sá Pinto foi a único a entrar em acção. Os outros dois, que viajaram com pequenas lesões, entretanto tratadas no Canadá, ficaram de molho, o que não impediu o Sporting de enviar faxes e fazer telefonemas à delegação portuguesa a pedir um tratamento especial para a dupla em questão. Sporting, esse, que até era a única equipa portuguesa invicta no campeonato (13 vitórias e cinco empates), mas nem isso lhe garantia a liderança, entregue ao FC Porto (15-2-1), na primeira época em que uma vitória já valia três pontos.
Só com um sportinguista em campo, embora os outros dois quisessem jogar, conforme se lê nas páginas de jornais desportivos e generalistas da época, Portugal fez história e conquistou um troféu pela primeira vez no escalão sénior. E quem o levantou foi Nelo, o número 10 do Benfica e capitão dessa selecção, que surgiu como alternativa à geração de ouro (Baía, Figo e JVP ainda em Portugal; Couto, Paulo Sousa, Rui Costa e Futre já no estrangeiro). Com um empate frente ao anfitrião Canadá e uma vitória sobre a Dinamarca (que, a exemplo de Portugal, só convocou jogadores do seu campeonato, prescindindo de todos os heróis campeões europeus em 1992), a selecção nacional deu o ar da sua graça, graças sobretudo à classe de Pedro Barbosa, autor das assistências para os golos de Folha e Paulo Alves.
Vamos por partes. O primeiro jogo é com o Canadá. Que, curiosamente, estreou Fernando Aguiar. O domínio português foi intenso na primeira parte. O extremo Folha marcou o 1-0 bem cedo e ainda atirou à trave aos 19 minutos. À medida que o tempo ia passando, a equipa de Oliveira perdeu fulgor, coincidindo com o acumular dos erros de arbitragem, que não viu um penálti claro sobre Paulo Alves. E, perto do fim, os canadianos fizeram o empate, com Alex Bunbury, avançado do Marítimo (que fazia dupla com Paulo Alves), a aproveitar um erro de Neno, que ficou a meio de um cruzamento. Resultado final, 1-1.
O segundo jogo é com a Dinamarca. Como nos filmes, contra tudo e contra todos, Portugal venceu com um golo no último minuto. Paulo Alves foi o herói português – um pré-Éder, por assim dizer. Numa jogada iniciada por Jorge Costa e prosseguida por Pedro Barbosa, o avançado maritimista concluiu com um pontapé acrobático. Mal a bola entrou na baliza, a maioria dos espectadores fez-se ouvir. Verdade seja dita, a maior parte era portuguesa. As maravilhas da emigração.
Foi, diga-se, um triunfo justo face a uma Dinamarca, campeã europeia em título que apostou forte no empate, resultado que lhe daria a vitória no torneio. Para o seleccionador Oliveira, que lançou jogadores como Calado e Caetano, “foi o triunfo do mérito”. A sua memória ainda hoje está bem fresca. “Ninguém fala disso, mas nunca se tinha ganho absolutamente nada e ganhámos à Dinamarca, campeã europeia em título. Um-zero. Lembro-me perfeitamente do último lance do jogo. O Barbosa estava sem fôlego, completamente de rastos.
Vale a pena dizer que o torneio jogou-se no SkyDome, um dos estádios mais bonitos e modernos que vi. A pala abria e fechava-se de acordo com a temperatura do ar. Como estávamos em Janeiro, havia neve até dizer chega e jogámos fechados. Adiante, o Barbosa está podre de cansaço e eu levanto-me do banco para o incentivar. Ahahah. Insultei-o tanto: ‘morre no teu poste, meu g’anda’. Ele começa a correr, vai à linha e cruza para a área, onde aparece o Paulo Alves para fazer o golo da vitória à Dinamarca e também o do torneio.
Torneio esse em que o Marítimo era, bem vistas as coisas, a equipa mais bem representada, com quatro jogadores – dois portugueses (Vado e Paulo Alves) e dois canadianos (Fernando Aguiar e Alex). Mas deles nem se ouviu um pio sobre poupança de esforço em contra- ponto com o argumento do Sporting.
Só para a história, aqui vai a lista dos 18 heróis portugueses por Oliveira: Neno, Paulo Madeira e Nelo (Benfica), Secretário, Jorge Costa e Folha (FC Porto), Nélson, Oceano e Sá Pinto (Sporting), Alfredo e Rui Bento (Boavista), Vado e Paulo Alves (Marítimo), Calado (Estrela), Tulipa (Salgueiros), Barroso (Braga), Caetano (Tirsense) e Pedro Barbosa (Vitória SC).
