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A sociedade do tiro

  • Um dos maiores atletas portugueses
  • Um assíduo da carreira de tiro
  • O amigo António Montez
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A sociedade do tiro

A sociedade do tiro
A caminho das Olimpíadas

A sociedade do tiro


por Luís Pedro Cabral/ 21.07.2021

Esta é uma história de balas, algumas olímpicas, outras não. A história começa no início do século XX, depois de ressuscitado o espírito olímpico. Cruzou a monarquia, o regicídio, a república, duas guerras mundias, o Estado Novo, a guerra colonial, a ditadura, a democracia. Ainda não terminou o seu percurso. Como uma bala, atravessa ainda gerações.

Esta é a história de um especialista em contrariar a impossibilidade.


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Um dos maiores atletas portugueses
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Um homem e uma árvore mediam forças. A árvore era só uma árvore. Deste homem se diz que foi o melhor atleta português de todos os tempos. Um "sportsman" do alvor do século XX, de mente sã em corpo são. Carregou a sua arma. Apontou. Falhou. Falhou outra vez. Falhou as vezes todas. Ninguém diria que seria um dia o melhor do mundo na modalidade de Tiro e atirador olímpico. António Augusto da Silva Martins (pai do médico Gentil Martins), era um especialista em contrariar a impossibilidade

Nasceu em Rio Torto, Abrantes, em 1892. Era de débil condição de saúde. Até ao liceu, em Coimbra, parecia faltar algo à sua equação. Faltava a lógica sueca. Em 1906, cruzou caminho com o professor Anderson Boo Kullberg, que nos Jogos Olímpicos (JO) de 1912, em Estocolmo, integrou a equipa de 24 ginastas de ouro. Como viria a provar este seu aluno de Coimbra, o futuro é a mais imprevisível das modalidades. Além da ginástica, todos os dias nadava no Mondego. E no rapaz começou a crescer um corpo de homem, alcançando a primeira conquista desportiva - 1, 32 m, no salto em altura sem balanço -, batendo o recorde nacional. Em 1912, deixou a Universidade de Coimbra, para entrar na Faculdade de Medicina de Lisboa, ingressando também no CIF (Clube Internacional de Football), embora não fosse o seu desporto de eleição. Era notável, nas mais variadas disciplinas, fosse num 19 no exame da cadeira de Anatomia, fosse no salto em altura ou em comprimento, lançamento do peso, dardo, martelo. E no lançamento do disco, no qual também foi atleta olímpico. Os JO, porém, não estavam nos seus pensamentos, à medida que a medicina seguia o seu curso e a História fazia o mesmo, na rota de colisão para a Primeira Guerra Mundial. Foi por esta altura, que lhe deram uma arma para a mão, para testar a sua perícia no tronco de uma árvore. Tinha 21 anos. Aceitou como um homem essa derrota. Passou a ser assíduo da carreira de tiro.

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Um assíduo da carreira de tiro
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Em 1913, quando já era assistente de Anatomia na Faculdade de Medicina, achou que era hora de encarar os alvos de frente. Integrou a Sociedade de Tiro nº 2, o mais antigo clube de tiro português (1893), onde aprofundou todas as vertentes do Tiro Desportivo. Quatro anos depois, concluiu o curso de Medicina e alcançou a primeira vitória no campeonato nacional. Corria para o fim o ano de 1918. Outros valores falaram mais alto. Como tenente-médico foi voluntário no Corpo Expedicionário Português, o que lhe valeu a "Cruz de Guerra".

Um tiro imprevisto

Foi por dez vezes recordista e 12 vezes campeão nacional no lançamento do peso, do disco, do dardo, salto em comprimento e em altura. Mantinha a ginástica e a natação de plataforma. E o Tiro como a verdadeira paixão, que em 1920 o conduziu aos JO de Antuérpia. Era já campeão do exército de terra e mar. Coleccionava títulos, com armas de precisão. Foi 11 vezes recordista de Portugal, 28 vezes campeão nacional, várias vezes diplomado mestre atirador. Em Antuérpia, alcançou o 9º lugar na pistola. Nos JO de 1924, em Paris, seria o porta-estandarte. Foi o primeiro português a participar numa olimpíada em duas modalidades: Tiro, com um 6º lugar. E no lançamento do disco, classificando-se em 12º.

Na medicina, António Martins era o braço-direito do professor Francisco Gentil, no Hospital Escolar de Santa Marta, na 1ª Clínica Cirúrgica. O médico era um homem de variadíssimos interesses, tão díspares como as pinturas em aguarela, os retratos a lápis, os desenhos anatómicos, a cirurgia plástica e reconstrutiva, um gene que ficaria na família. Só possível porque em 1926 casou com Maria Madelena Gentil, filha do professor Francisco Gentil. Tiveram três filhos. Francisco, Alice e António Gentil Martins, todos médicos. Só António deu continuidade aos pergaminhos olímpicos do pai, que colaborou com Egas Moniz nos estudos da angiografia cerebral, que em finais dos anos 40 valeram a este o Prémio Nobel da Medicina. Em 1929, quando já era mestre atirador em todas as armas, em Portugal dificilmente era ultrapassado, embora não faltassem adversários à altura. Um deles, era seu amigo: António Duarte Montez, proprietário da Espingardaria Central, que ainda hoje tem as portas abertas, entre a Estação do Rossio e o Teatro Nacional D. Maria II. António Montez era exímio no Tiro, atirador olímpico em 1924. António Martins era um perfeccionista. Em Portugal, no atletismo ou no tiro, continuava a bater recordes que já eram seus. Ninguém tinha dúvidas que caminhava para a glória olímpica em 1928, em Amesterdão, até porque conquistara o primeiro lugar no campeonato do mundo com espingarda de guerra. Por ironia do destino, o Tiro seria excluído desses JO.

Não foi por isso que desistiu. No dia 3 de Outubro de 1930, lá estava ele, com a sua carabina e o seu bloco de notas, na carreira de tiro de Pedrouços, preparando mais um campeonato nacional, no caminho para os JO de 1932, em Los Angeles. Aconteceu algo de muito improvável neste homem meticuloso. Quis acertar a mira da sua arma, esquecendo-se que estava carregada. Pousou a carabina. E a bala partiu, partindo com ela António Martins. Desde este dia, António Montez nunca deixou de usar um laço negro.

Sociedade do tiro

Longe iam os tempos em que deixou Alcanede, Santarém, a sua terra natal. Em 1905, trabalhava numa casa de ferragens, quando um cliente de Lisboa o convidou para trabalhar na capital. Heitor Ferreira era o dono da Espingardaria Central, mais que uma loja, uma instituição em plena baixa lisboeta. Mal chegou a Lisboa, António Montez inscreveu-se na Sociedade de Tiro nº 2. Certo dia, confins de 1907, apareceu na loja um cavalheiro, de sua graça Ribeira Brava, com uma encomenda específica: 9 carabinas Winchester, as mais modernas armas de repetição, e umas quantas pistolas Browing. As pistolas vieram da Bélgica. As Winchester, da casa Monkt Cª, em Hamburgo. No dia 1 de Fevereiro de 1908, soube para o que serviram as armas, no Regicídio de D. Carlos I e do príncipe D. Luís Filipe. A polícia vasculhou a espingardaria e deteve o rapaz, concluindo-se que este desconhecia os propósitos do comprador das armas.

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O amigo António Montez
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No Ateneu Comercial de Lisboa, começou a praticar esgrima, pesos e halteres, futebol, luta greco-romana e o jogo-do-pau, coleccionando medalhas. Foi na Sociedade de Tiro nº 2, quando já mestre atirador, que conheceu António Martins. 

Tinham muito em comum, António Martins e o seu homónimo Montez, que entretanto se tornara dono da Espingardaria Central, também seleccionado para os JO de Antuérpia, em 1920. Por causa dos afazeres da Espingardaria Central A. Montez não pôde estar presente. 

Mas em Paris, 1924, acompanhou o amigo. No desporto, Montez alcançou os mais variados prémios, com destaque para a Esgrima. E, inevitável, o Tiro. Ganhou mais de duas centenas de medalhas em 60 anos de competição. Em 1985, com 80 anos, ficou em 3º no Campeonato de Tiro com Pistola de Guerra.

Quando o pai morreu, António Gentil Martins tinha três meses de vida. Como o pai, encontrou na medicina, no desporto e na família, todas e a mesma coisa. Era impossível nomear todas as honras que obteve, servindo sempre a cirurgia pediátrica e cirurgia plástica, reconstrutiva e estética, bem como a oncologia pediátrica, assim como o desporto. Abraçou várias modalidades, do ténis de mesa, ao ténis, do badminton ao voleibol, arrecadando títulos. O seu clube não podia ser outro: o CIF, do qual é sócio número um. A sua modalidade de eleição: o Tiro Desportivo. "Foi na Sociedade de Tiro nº2, em 1943, tinha eu 13 anos, que apareceu na minha vida António Montez. Não tinha dinheiro. As armas e as munições eram caríssimas e ele esteve sempre presente. Devo a minha participação olímpica a ele, o meu tutor e patrocinador", recorda.

Em 1944, Gentil Martins fez debute na carreira de tiro do Ateneu Comercial, iniciando uma longa marcha na modalidade, com vários recordes e títulos de campeão nacional. Destacou-se na pistola automática, da qual se tornou mestre atirador. Foi nesta disciplina que representou Portugal nos JO de 1960, em Roma. De novo, seguindo o trajecto das balas.

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