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A acelerar na vida e ao volante
Steve Fernandes terminou no terceiro lugar da edição deste ano do Rali do Luxemburgo.

A acelerar na vida e ao volante

Foto: Roland ARENDT
Steve Fernandes terminou no terceiro lugar da edição deste ano do Rali do Luxemburgo.
Desporto 13 1 3 min. 17.07.2018

A acelerar na vida e ao volante

Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Steve Fernandes dedica-se de alma e coração aos carros, paixão que vem da adolescência por influência do pai. Muitas horas de trabalho diário entre a garagem que administra em Ell e os ralis, mas o piloto lusodescendente que pretende competir em Portugal garante que “quem corre por gosto, não cansa”.

O roncar do potente motor de quase 300 cavalos do Skoda R5 faz vibrar o escape, indicando que o carro está pronto para atacar a última classificativa do Rali do Luxemburgo. Após o sinal de partida, no ’checkpoint’, Steve Fernandes acelera a fundo e em poucos segundos perde-se de vista no asfalto molhado pela chuva. Vai a voar baixinho e garante o último lugar do pódio, graças ao recorde alcançado no derradeiro troço da prova.

O melhor tempo da 8a e última classificativa deixa o piloto lusodescendente satisfeito, congratulando-se pelo terceiro lugar na edição deste ano: “Foi bom”, diz com um sorriso, já de capacete na mão. “Não consegui revalidar o primeiro lugar alcançado no ano passado, mas desta vez a prova foi muito disputada, contando com alguns carros de alta potência como os WRC, com os quais é difícil competir”, justifica.

“Estou satisfeito pelo excelente trabalho desenvolvido pela equipa que para mim é como família”, comenta. E confessa: “Sinto-me mais confortável com chuva, como prova o excelente tempo que fiz na última classificativa, mas devo reconhecer que era difícil fazer melhor dada a grande competitividade. No fundo, junto mais um pódio ao meu palmarés. Procuro melhorar em tudo aquilo que faço, porque, como costumo dizer, a competição, para mim, é ganhar ou morrer.”

Mas o sucesso não cai do céu e Steve Fernandes, competidor por excelência, sabe-o bem. Dedica-se a cem por cento à sua paixão, porque preparar um carro de ralis não é tarefa fácil. Tudo exige grande rigor, concentração e também avultados meios financeiros.

Para o piloto, filho de pai português e mãe luxemburguesa, os últimos preparativos deste rali iniciaram-se na véspera, pouco antes das 7h da manhã. Após um pequeno almoço ligeiro, rumou ao ’paddock’ da equipa, instalado em Hosingen, onde nada é deixado ao acaso. Desde a revisão completa do motor ao aparafusar da última porca das jantes, tudo foi passado a pente fino. Níveis de óleo, sistema elétrico, caixa de velocidades, pneus, suspensões, diferenciais, filtros e sistema de comunicação, entre outros, foram controlados minuciosamente pela equipa de mecânicos na plataforma. Seguiu-se o reconhecimento das oito classificativas para tirar notas que serão reajustadas à segunda passagem nos trajetos, trabalho a cargo de Olivier Beck, o co-piloto belga com quem faz equipa há anos.

“Arranque com cem metros em frente, prego a fundo e a seguir curva à direita a 90°. Reduz e dá-lhe gás até ao milharal, e depois gancho à esquerda e mais 200 metros seguidos sempre a abrir!” . Esta coleção de ordens é gritada por Olivier Beck com firmeza durante uma fase dos treinos, debaixo de sol intenso. Já capotou várias vezes, fez algumas piruetas, mas saiu sempre ileso dos despistes. Adora o que faz, mas assegura que é impossível ser piloto profissional no Grão-Ducado porque “o investimento é muito elevado e as ajudas são poucas”.

O percurso sinuoso, composto por asfalto e terra batida, é uma combinação de troços apertados que para Steve são quase familiares. As saudações do público ao conhecido piloto durante os percursos são muitas, entre as quais a do pai, o seu maior fã, a quem fez uma promessa ainda por cumprir. “Prometi ao meu pai que, um dia, vou disputar o Rali de Portugal, e não vou falhar. Muitas das etapas têm lugar perto de Paredes de Coura, onde ele nasceu e eu ia passar férias quando era pequeno. Assim, cumpro um sonho que nos é comum e terei a oportunidade de competir ao mais alto nível”, garante, projetando uma das mais ambiciosas metas.

Steve Fernandes vai brevemente participar em provas na Bélgica e talvez no Rali Vinho da Madeira, em 2019. Até lá, vai continuar a trabalhar na sua garagem em Ell, a construir carros e a preparar-se para os ralis, acelerando de manhã à noite. Porque sem adrenalina não sabe viver.


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