Escolha as suas informações

Inverno maravilhoso
Desporto 3 min. 21.07.2021
2016 Rio de Janeiro

Inverno maravilhoso

2016 Rio de Janeiro

Inverno maravilhoso

Foto: AP
Desporto 3 min. 21.07.2021
2016 Rio de Janeiro

Inverno maravilhoso

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Um enorme escândalo de "doping" ensombrou estes Jogos Olímpicos (JO) muito antes de acender a tocha. Descobriu-se que a Rússia tinha um programa nacional de dopagem no atletismo. A Rússia esteve para ser banida destes jogos, 117 atletas seriam excluídos. Paulatinamente, os EUA ultrapassaram a milésima medalha olímpica.

A Cidade Maravilhosa já perseguia a organização de umas Olimpíadas há décadas. Chicago ou Rio de Janeiro? O Rio de Janeiro ganhou a corrida e houve festa no Brasil. Havia boas razões para celebrar e muito mais para fazer. Não basta um palco, pois isso estava garantido: o mítico Maracanã, com uma lotação de 90 mil pessoas, testada para lá de todos os limites em qualquer FLA/FLU (Flamengo x Fluminense, eterno derby carioca, que é património imaterial do Rio de Janeiro). Pela segunda vez na América Latina, mas a primeira na América do Sul, uma cidade recebia umas Olimpíadas. Era a quarta vez, todavia, que os JO de Verão decorriam noutra estação, sendo a primeira que decorria integralmente no Inverno.

A realização de um evento desta magnitude, maior ainda que o Campeonato do Mundo de Futebol, do qual o Brasil tinha sido anfitrião em 2014, implica alterações substanciais na própria cidade. Numa cidade com as características do Rio de Janeiro, cercada de enormes favelas, isto não acontece sem implicações sociais, como, aliás, se verificou. Em projecto, era tudo tão maravilhoso quanto esta cidade. A zona central do Rio de Janeiro sofreria uma profunda revitalização para dar lugar ao "Porto Maravilha". A rede de abastecimento de água, saneamento, drenagem, gás e electricidade e telecomunicações cresceram 700 quilómetros. Foram igualmente assentes mais de 650 quilómetros quadrados de calçada, construídos 70 quilómetros de estradas e quatro de túneis. Só mais tarde se soube que, segundo dados da Amnistia Internacional, no grandioso processo de renovação do Rio de Janeiro, mais de 22 mil famílias ficaram desalojadas sem direito a indemnização.

Mudando de assunto. A Cerimónia de Abertura contou com a presença de Caetano Veloso e de Gilberto Gil, de Anitta e de Gisele Bundchen. Quando foi anunciada a vitória da candidatura do Rio de Janeiro, era Lula da Silva presidente do Brasil. Na inauguração das Olimpíadas de 2016, era "presidente" Michel Temer, vaiado pelas 70 mil pessoas presentes, talvez para ensaiar para a enorme coreografia que se seguia, da responsabilidade de Deborah Colker - que tinha sido a primeira coreógrafa latino-americana a dirigir um espectáculo do Circe du Soleil -, numa coprodução com

Fernando Meirelles. No espectáculo actuariam mais de 6 mil dançarinos voluntários.

O destino destes JO de 2016, porém, começou a ser traçado um ano antes, consequência do famigerado Relatório "McLaren" (nada a ver com os automóveis), produzido pela Agência Mundial Anti-Doping, com resultados explosivos: a Rússia tinha um longo programa nacional de "doping" no atletismo, até então indetectável. A Associação Internacional de Federações de Atletismo suspendeu provisoriamente a Rússia de todas as competições de atletismo. Isto incluia os JO, embora tivesse a última palavra o COI, que decidiu por não decidir banir a Rússia destas Olimpíadas, aceitando apenas os atletas que conseguissem provar não ter envolvimento no programa de dopagem. Dos 387 seleccionados para representar a Rússia no atletismo, 117 foram excluídos dos jogos. Tudo isto deu muito que pensar aos EUA, pensando qual o alcance temporal do uso de "doping" do seu grande rival olímpico, pensando, por outro lado, que estas olimpíadas já estavam na bagagem e ainda os jogos não haviam começado. O que, aliás, se confirmou amplamente. Nestes JO, os EUA ultrapassariam a marca mítica de mil medalhas olímpicas. Nestes JO, aliás, foram batidos 65 recordes olímpicos e 19 mundiais.

Quem competisse na vela, como os portugueses, disputariam as provas na baía de Guanabara ou na marina da Glória. O remo e a canoagem, outras disciplinas com tradição olímpica em Portugal, teriam lugar na lagoa Rodrigo de Freitas. Depois de análises feitas à água, era rezar para não cair lá dentro. A qualidade da água, concluiu-se, estava ao nível de "puro" esgoto. Os problemas ambientais tomaram conta destas olimpíadas, onde estiveram 207 delegações, para participar em 306 eventos, 28 desportos e 42 modalidades, que tinham o golfe e o rugby de "sevens" a fazer a sua estreia olímpica.

Portugal enviou para o Brasil a segunda maior delegação de sempre (92 atletas para competir em 16 modalidades). A judoca Telma Monteiro foi a única a trazer uma medalha: para a colecção nacional de bronze.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Olimpíadas de sofá
E, ao sexto dia, uma medalha de bronze para um verdadeiro campeão, que fala como luta. Todos se juntaram a ele nesta vitória olímpica. Mas ele não estava satisfeito. Quem luta pelo ouro não fica contente com o bronze. "Waza-ari".
Pela primeira vez os JO disputam-se num ano ímpar, cortesia da segunda pandemia do nosso século. Ao longo da sua história, sobreviveram a duas guerras mundiais e a uma Guerra Fria. Uma viagem secular, com início em 1896.
TOPSHOT - This general view shows Mount Fuji, Japan's highest mountain at 3,776 meters (12,388 feet), seen from Lake Yamanaka, next to a Tokyo 2020 Olympics banner on July 19, 2021. (Photo by Charly TRIBALLEAU / AFP)