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109 golos do destino

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109 golos do destino

109 golos do destino
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109 golos do destino


por Luís Pedro Cabral/ 01.09.2021

Foto: EPA

Se Cristiano Ronaldo jogar, e se marcar, ultrapassará um recorde que parecia inalcansável: tornar-se no melhor goleador de sempre ao serviço de uma selecção nacional. Toda a gente fala do extraordinário recorde de Ali Daei, o goleador iraniano, mas ninguém consegue falar com ele. Há uma razão para isso: o Irão. Onde se encontra Ali Daei, à sombra do seu recorde e do Islão. Foi difícil, mas contou-nos a sua história.

Se o mundo fosse de seda, não seriam necessários satélites ou drones para encontrar a civilização num dos seus berços, como se estivesse num esconderijo ancestral, cercada por montanhas sem fim, como se a cordilheira de Elbruz tivesse escorregado do cume do estratovulcão do Monte Damavand, a 5604 metros de altitude, o ponto mais alto do Irão, de onde o Médio Oriente avista a Ásia Central. A norte, a República do Turquemenistão, que tem a sudoeste o Afeganistão e, a sudoeste deste, o Paquistão. No extremo sul destas suas fronteiras, forma-se um imenso geobarril de pólvora, que tem no âmago a Arábia Saudita, entre-margens o golfo pérsico, a Este a península arábica (Emiratos Árabes Unidos e Omã), a Oeste, o Iraque e a Síria.

Lá ao fundo, na chamada Pérsia central, na grande planície iraniana, a mais de mil metros de altitude, a pouco mais de 70 quilómetros do mar Cáspio, para onde corre o rio Baliqly Chay, que naquele lugar é atravessado por um ponte de sete arcos - legado da dinastia Safavid, xiita, que dominou o Irão por mais de dois séculos (entre 1501 e 1736) -, fica Ardabil, a cidade materna do maior império irariano até à conquista islâmica, que tem ali mausoléu. Ardabil, vizinha ramificada do Arzebaijão, significa solo sagrado. Mas, lá por ser sagrado o seu solo, não significa que as pessoas não tenham a fisiologia da fome e das outras coisas que compõem o ser humano. Em 1969, após duas guerras mundiais, o mundo já estava mais do que dividido em dois. De um lado, a ONU. Do outro, o Pacto de Varsóvia, separados por uma cortina de ferro e por uma Guerra Fria, com todas as suas psicoses, entre outras, lunares.

A 21 de Março de 1969 nasceu em Ardabil um menino, o terceiro de cinco filhos. Os pais chamaram-lhe Ali Daei. Quando as suas memórias viajam para aqui, é como se ele se tornasse de novo criança e a vida ficasse de novo simples. "A vida nem sempre era fácil, mas havia um calor, uma união especial na minha família". E algo que só uma criança consegue exercer na plenitude, mesmo sem o saber: liberdade. Uma forma maravilhosamente inocente de liberdade. Evita pensar muito nisso, porque no Irão não fica bem a um homem chorar. Assim que pode, muda de assunto, embora permaneça na geografia do seu coração. "Ardabil é uma cidade muito antiga, rodeada por montanhas e natureza magnífica. As estradas que conduzem à minha cidade são as mais belas do Irão". Os pais herdaram do povo de Ardabil "um espírito especialmente alegre e positivo". Ele herdou isto dos pais, mesmo que por inúmeras vezes a vida o tenha contrariado, embora não lhe custe reconhecer que esta lhe concedeu também um número invulgar de carimbos no passaporte e privilégios que a esmagadora maioria dos iranianos nem em sonhos tem.

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A natureza defensiva
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Nem o seu pai, que levou uma vida de esforço e de trabalho, nem a sua mãe, que tinha a dura tarefa de ser dona de uma casa que se tornou minúscula para sete, tinham sonhos próprios. Todas as suas ambições se projectavam nos filhos. Ao pé deles, eram felizes sempre que podiam. Um sentimento ambíguo, difícil de explicar. Era como se os pais soubessem que a mudança só seria possível quando um dia eles partissem para a grande cidade de Teerão ou, heresia das heresias, para a diáspora. A emigração iraniana, com o passar dos anos e dos embargos, cresceu exponencialmente em direcção à Turquia ou à Geórgia, para o longínquo Canadá ou, num passado recente, procurando a porta de entrada para a UE, atravessando chamada "rota da morte", para a Sérvia.

Hoje Ali Daei equaciona mais racionalmente esse sentimento. Era como se os pais guardassem um tesouro que eram eles, apreciando-o numa estranha consciência de perda. Com tudo o que é  incomparável com o Irão, esse agridoce sentimental é algo que os portugueses sabem identificar de olhos fechados. O que em Portugal é o fado, no Irão é o que tem de ser. É República Islâmica do Irão desde 1979, quando foi deposto Reza Pahlavi, o útimo Xá do Irão, que pagou o seu longo regime opressivo, com tendência pró-ocidental, transitando o país de uma monarquia autocrática para um poder absoluto, centrado no seu líder religioso: o ayatollah Khomeini. O Irão radicalizou sem volta. E o país fechou-se. E o mundo ocidental fechou-se a este, ficando o Irão cercado por muito mais do que montanhas. Esse Ocidente distante, que no imaginário de muitas nações do Médio Oriente equivalia às mais obscuras forças do mal, para o Islão, o grande Satã, era igualmente distante em Ardabil, como se a ocidentalização fosse uma coisa de Teerão.

Em Ardabil, os dias tinham uma tendência melancólica. Levou muito tempo para que Ali Daei a soubesse saborear. Hoje, as horas que ele passava na rua com os amigos parecem-lhe tempos infinitos, mas naquela altura eram velozes, tal como os miúdos atrás de uma bola de plástico, imaginando-se numa final do campeonato do mundo. O Irão contra a URSS. O Irão contra Israel. O Irão contra a USA. O Irão contra o Iraque (consequência da longa guerra de vizinhos, entre 1981 e 1989, que elevou Ali Khamenei a líder supremo do país). O Irão contra a selecção do resto do mundo. "Desde que me lembro que jogava futebol na rua. Ainda sinto o toque mágico da bola de plástico". Ali Daei era algo tímido, mesmo quando tinha os dois irmãos mais velhos na equipa. Instintivamente, deixava-se ficar para trás nas investidas em direcção às duas pedras que formavam a baliza adversária. E foi assim que ele foi ficando na posição de defesa. Talvez porque atrás de uma bola está sempre o sonho de um dia ter a sua cara numa caderneta de cromos, com todas mordomias da vida que isso implica, ele adorava futebol pela mesma razão que qualquer menino adora futebol numa favela, num musseque, num deserto, num gueto de subúrbio ou no mais recôndido dos lugares, incluindo a pequena localidade de Santo António, Funchal, ilha da Madeira, onde existia um clube de bairro chamado Andorinha Futebol Clube.

 Em Ardabil, o bairro da sua infância também tinha um: "O Javanan Ardabil, onde eu ingressei talvez com uns 15 anos, nas camadas jovens do clube, onde jogavam os meus irmãos. Houve uma altura em que parecia que lá jogavam todos os rapazes da família". Entre o futebol de rua e o clube, Ali Daei não trocara de posição. Até ao dia em que o goleador da equipa, ainda hoje não se sabe se por um capricho de vedeta ou por castigo do pai, não apareceu para um jogo. O treinador informou Daei que ele ia passar de defesa para avançado. Era rezar. "Nesse jogo marquei um hat-trick". O mister ficou a pensar. No dia seguinte, houve folga. No outro, nasceu Ali Daei, o "striker".

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Educação Cósmica
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Bem podia sonhar, o jovem Ali Daei. Ao pai, que em matéria de futuro não era de ceder, não agradava essa ilusão do futebol, embora já tivesse sido avistado nas bancadas esqueléticas do Javanan Ardabil para ver os seus rapazes. No entanto, não abdicava dos planos que formulara para cada um deles. Para além disso, os meninos que nomeassem um jogador iraniano que tivesse ficado rico com o futebol? Um só, que jogasse numa grande equipa de um grande campeonato? Que tivessem juizo. Ali Daei seria engenheiro e não se falava mais nisso. "O meu pai tinha esse desejo. A minha educação era uma prioridade para ele. Ele achava que o futebol era uma distracção, que só me desviava da rota. A minha mãe, por outro lado, apoiava-me no futebol. Chegava a levar-me o equipamento às escondidas para os jogos". A pouca vontade de ir estudar para a universidade não superou a possibilidade de desobedecer ao pai, que nunca imaginou que uma coisa conduziria à outra. Al Daei ingressou na melhor universidade de Teerão, a Sharif University of Technology, em Engenharia de Materiais. Tudo levou a que ele se transformasse num jovem engenheiro e, em simultâneo, num jogador de futebol algo tardio. Em Ardabil faltavam muitas coisas que a capital tinha. "Nas pequenas cidades de Irão não existiam olheiros como existem actualmente". O destino, outra especialidade portuguesa, tem destas coisas: "Se não tivesse ido estudar para Teerão, nunca teria sido jogador de futebol profissional". O futebol, já se sabe o impacto que teve na sua vida. A engenharia, só agora revela a sua importância: "é a base do meu actual negócio".

Quando terminou o curso, deu consigo numa encruzilhada. Como engenheiro, era debutante. Como jogador de futebol, sabia já a posição que ocupava no terreno. Enquanto estudante, jogou em alguns clubes de Teerão, dos mais anónimos aos mais importantes. Até a coisa se tornar séria. O amor que tinha ao pai tornava a decisão muito difícil. De qualquer forma, com o curso na bagagem, só lhe daria meio-desgosto. O seu primeiro clube na capital iraniana foi o Taxirani FC. Só lá esteve uma época, transitando para um clube mais poderoso, não tivesse o nome de um banco: Bank Tejarat FC, onde o seu investimento como futebolista lhe havia de render juros. Em quatro épocas, num total de 75 jogos, Ali Daei marcou 49 golos. Até o pai teve um dia de reconhecer que aquele engenheiro metalúrgico era um goleador nato. O mesmo reconheceu o Persepolis FC, um dos principais clubes de Teerão, com o qual assinou o primeiro contrato profissional da sua vida, em 1994. Tinha então 25 anos. Em certos jogadores de futebol, é como a velhice cósmica. Neste, só o início de uma história bem mais longa.

Nesse mesmo ano, concretizou uma jogada que mantinha em segredo desde menino. Fintar todos os adversários que se tinham colocado à sua frente e marcar um golo de belo efeito na baliza do destino. Foi convocado para a selecção, começando a construir um recorde que até há poucos anos parecia virtualmente intransponível, que só um extraterrestre madeirense, marca CR7, conseguiu alcançar. Foi a representar a sua nação nos Jogos Asiáticos em 1994, no Japão, que ele teve do futebol a sua recordação mais dolorosa. O local era de certo modo apropriado: Hiroshima. "Jogávamos contra o Bahrain. O guarda-redes saiu em voo a um cruzamento e no lance deu-me um pontapé no abdómen. Fiquei no chão, a contorcer-me de dores, com imensa dificuldade em respirar. Já não tínhamos mais substituições. A equipa médica decidiu que eu continuava em campo. Esses 20 minutos foram como horas. No balneário, acabei por desmaiar. Levaram-me de urgência para o hospital, onde fui informado que tinha uma ruptura no baço e uma lesão grave no fígado. Fui submetido a duas cirurgias e tive de ficar um ano sem jogar futebol. Lembro-me que muitos diziam que a minha carreira tinha acabado ali e ter chegado a Teerão dentro de um Kimono". Os profetas da sua desgraça estavam de novo enganados. 

 Ali Daei regressou aos relvados e aos golos. E, em 1995, a um ano dos Jogos Asiáticos seguintes, desta vez nos Emiratos Árabes Unidos, foi contratado pelo Al-Saad, do Qatar. Nos Emiratos, em 1996, ao serviço do Irão, Ali Daei deu de novo nas vistas. Foi a Arábia Saudita que ganhou, mas foi a vida de dois iranianos que mudou. Estavam presentes "olheiros" de grandes clubes europeus, entre os quais do Arminia Bielefeld, grande clube da Renânia do Norte - Vestefália, cuja capital é Bona, na antiga RFA, parte de uma só Alemanha desde a queda do Muro de Berlim, em 1990. O Arminia Bielefeld, na fase de transição para a Bundesliga, contratou dois jogadores da selecção do Irão: Karim Bagheri e Ali Daei. De repente, estavam a jogar numa das ligas mais competitivas do planeta. Nem o próprio Ali Daei conseguiu avaliar o impacto que isto teve no Irão. Foi a partir desse momento que os meninos que jogavam à bola na rua começaram a sonhar com algum critério. A regularidade inaceditável com que fazia golos na selecção, fez com que no Irão se tornasse estrela maior. E não lhe custa reconhecer que essa é uma sina dos goleadores. Seja numa tasca do Cais do Sodré, o que começa a ser raro, seja no bazar de Ardabil, que é património da humanidade, ninguém se lembra da defesa monumental de um guarda-redes num jogo decisivo. Dos golos, ninguém se esquece. Os golos são o sal do futebol e o poder dos poucos capazes de encontrar permissividade na ortodoxia. A jogar numa liga de infiéis, Ali Daei era um mau protótipo para o Islão, mas um excelente exemplo do seu triunfo. Cada golo seu, que tem descendência azeri, era como uma nota de rodapé, inscrita no Alcorão com o suor de um homem simples.

 Até que ele chamou a atenção de um gigante. O Bayern de Munique, um clube maior que as estepes de Ardabil, queria contratá-lo. Um convite desses não se recusa. Daí até uma integração fácil, ia um longo trajecto, que lhe recordou a sua pequenez e ao mesmo tempo lhe demonstrou a humildade dos grandes. Como podia ele imaginar, quando o seu anonimato ainda lhe permitia viver num vulgar apartamento de Munique, que a meio da noite tocava o telefone e ele atendia e do outro lado estava Franz Beckenbauer, para lhe perguntar se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa, "para garantir que nada me faltava para ter sucesso em campo. Beckenbauer teve grande impacto no futebol germânico". E, com todas as diferenças possíveis e imaginárias, "na minha vida".

O Bayern, na sua inerência crónica de colosso, não é um clube fácil para um jogador se assumir, ainda para mais quando tem de competir com os nomes como Lothar Matthaus, Mario Basler, Shweinsteiger, Roque Santa Cruz, Lizarazu e companhia. Não havia um jogador que não fosse internacional pelo seu país. Só esteve uma época em Munique. Em 1999, transferiu-se para um clube em ascenção na Alemanha, o que fazia deste um clube em ascenção na Europa: o Hertha de Berlim, nos seus anos de ouro. Pelo Hertha de Berlim, Ali Daei transformou-se no primeiro jogador asiático a marcar na Liga dos Campeões, contra o Chelsea. É difícil não se lembrar do momento: "antes do jogo, Tony Sanneh, o meu colega de equipa americano, jurou-me que ia cruzar e que eu ia marcar, o que aconteceu ao segundo minuto. Marquei de cabeça entre o Lebeouf e o Desailly. Nesse jogo, marquei dois golos. Ganhámos 2-1". 

Quando está no auge ou em ascenção, a vida de um jogador de futebol transforma-se numa imensa ilusão, um misto de "big-brother" com uma playstation incorporada. Se algum jogador disser que não gosta da sensação de fazer um estádio explodir de alegria, de ouvir os cânticos com o seu nome, ou está na profissão errada ou a mentir. Há até jogadores que se viciam nessa sensação. Ali Daei conheceu alguns. Ele próprio teve os seus momentos de glória mas, à excepção da selecção iraniana, onde chegou a capitão, nunca foi propriamente uma dessas super-estrelas, muito menos multimilionário. Acaba cedo a carreira de um futebolista profissional e a sua tinha começado tarde. Em 1999, tinha 30 anos. Para um avançado, não é bem um atestado geriátrico. Daei marcou 6 golos nessa época. Não foi registo que o disparasse para a patamares mais altos.

 "A vida de um futebolista é mesmo assim". Os adeptos podem achar que se anda de um lado para o outro de jacto privado, que o quotidiano é preenchido de glamour, que se toma banho em dinheiro, que se tem tudo o que as pessoas comuns não têm e a quadriplicar. É essa quimera que alimenta a máquina galáctica do futebol. É essa imagem que leva milhões e milhões de meninos por esse mundo fora a correr atrás de uma bola, correndo atrás de uma ilusão. É isso que torna este desporto numa verdadeira multinacional, onde um golpe de sorte se mantém sempre no campo das hipóteses e a desgraça raramente se vê.

Ali Daei já não era assim tão novo e tão inexperiente que não soubesse a distrinça entre a realidade e a ficção. Se a sua carreira contribuira para algo importante, algo maior, era no Irão que tal se traduzia. Lá, sim, era a mais brilhante das estrelas. No Irão, a sua popularidade não parava de crescer, em razão dos 149 jogos oficiais ao serviço da selecção e um número de golos do outro mundo: 109. Viesse lá o futuro que viesse, dava a impressão já tinha escrito um capítulo de ouro na história do futebol, que teve no Campeonato do Mundo de 1998, em França, o seu acontecimento épico. A tômbola colocara frente a frente Irão vs EUA. No Irão, muito mais que um jogo.

Quando se pergunta a Ali Daei qual foi o golo mais saboroso da sua história, ele responde que "não foi um golo. Foi a assistência para o golo da vitória sobre os EUA. O nosso povo celebrou esta vitória em todo o mundo". Em 2006, já na fase final da sua carreira, o Irão encontrou Portugal na fase de grupos. Ali Daei ficou no banco. Foi de lá que viu pela primeira vez de perto um rapaz chamado Cristiano Ronaldo, que não deixou de fazer o seu golo na vitória de Portugal por 2-0. Nunca Ali Daei imaginou o quanto o seu nome havia de ficar ligado a um homem que ainda por cima se chama Ronaldo em honra de um presidente americano com queda para Hollywood. A História havia de uni-los. 

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O seu cognome é "Shariar"
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No Irão, ainda hoje o seu cognome é "Shariar". Rei. No Hertha de Berlim, onde permaneceu até 2002, sentiu que a sua história se aproximava do fim. A lei de um futebolista é a fisiologia de um atleta. O tempo é cruel mais depressa, já para não falar dos adeptos. Em cada adepto há um treinador e um "ayatollah" secreto. Vinha aí a rota descendente. Estava na hora de mudar de ares, seguiu a lógica do futebol: o dinheiro. Aceitou o convite do Al-Shabab, no Dubai. Um ano depois, regressou ao Irão, a Teerão e ao clube que o tinha lançado para o estrelato, o Persepolis, onde ficou uma época, transitando depois para um clube mais discreto da capital iraniana, que era parte de uma empresa, cujo ramo estava bem explícito no nome: Saba Battery FC.

Depois do Campeonato do Mundo de 2006, Ali Daei, com 37 anos, foi para um modesto clube da cidade de Karaj, província de Alborz, no distrito Central do Irão. O Saipa FC seria o seu último clube enquanto jogador e o primeiro enquanto treinador, sendo que isto aconteceu em simultâneo. Saipa, que é o maior construtor de automóveis do Irão, não era muito tolerante com treinadores que não ganhassem. E, a meio da época de 2006/2007, deu-se a chamada "chicotada psicológica". Foi assim que Ali Daei se transformou em jogador/treinador. Ou seria treinador/jogador? "As duas coisas". Ali Daei pedia a Ali Daei para marcar e as vitórias sucederam-se até o Saipa FC se tornar campeão iraniano. Foi no último jogo do campeonato. "Nesse jogo marquei o golo da vitória e o último da minha carreira". A poucos minutos do fim, Ali Daei substituiu-se para sempre.

 A sua marca como melhor goleador de todos os tempos ao serviço de selecções parecia absolutamente escrita na pedra: 109 golos. Foi quando percebeu que, quando um jogador arruma as botas, é como um super-herói que perde a sua capa. Fica só um homem, num lugar só, numa posição bastante mais frágil. No Irão, a fragilidade paga-se caro, assim como o passado. Há coisas que não se podem dizer com todas as letras e Ali Daei, apesar de se manter discreto, nunca foi homem de se manter calado. O tempo foi passando e as circunstâncias absorveram-no lentamente. O Irão fez-lhe a si o que o mundo ocidental faz ao Irão. Às vezes sente que se transformou numa estátua viva. O "Shariar" continua a ser idolatrado, mas a "Sharia" encontrou forma de lhe devolver o anonimato.

Até que um dia, quando já faltavam argumentos para enaltecer as exibições de Cristiano Ronaldo ao serviço da selecção portuguesa, alguém se lembrou de trazer para o ciberespaço um objectivo que CR7 ainda não tinha alcançado e que dificilmente alcançaria: os 109 golos do iraniano Ali Daei. Para Cristiano Ronaldo, já se sabe, um objectivo é como uma substância dopante. De repente, o jubilado rei estava ao mais alto nível, numa competição de sofá com o melhor jogador do mundo. O mundo aprecia estas competições. E ninguém lhe leva a mal por ele capitalizar à boleia de CR7, em si, uma rede social. Em torno de Ali Daei formou-se uma imensa operação de marketing que, por óbvio, não pode ter âncora no Irão. Ainda há pouco tempo, quando se queria ler um jornal ou qualquer media iraniano online, a mensagem que aparecia era esta: "This website has been seized by the Unitet States Justice Department". Face actualizada de um embargo que há longos anos arrasta o Irão para o lado B da história ocidental, a mesma que resgatou Ali Daei para o lado A.

Há uma razão para ninguém conseguir falar com Ali Daei, o homem que Cristiano Ronaldo conseguiu alcançar no trono dos melhores marcadores de sempre nas selecções nacionais. O embaixador português em Teerão tentou e não conseguiu. O presidente da Federação de Futebol iraniana tentou e não conseguiu. Através de Carlos Queiróz, ex-seleccionar do Irão, não foi possível. António Simões, que foi seu adjunto, empenhou-se nisso. Toni, que treinou o Traktor, clube do Irão, tentou ajudar. Mas só através dos Emiratos Árabes Unidos (a empresa que gere a sua imagem encontra-se no Dubai), foi possível o que já parecia impossível: falar com Ali Daei. Para contar a sua verdadeira história.  

Muito se falou dele nos últimos tempos, como se fosse um troféu para Cristiano Ronaldo ultrapassar, mas ninguém consegue falar com o próprio Ali Daei, que se tem comportado nesta competição como um verdadeiro cavalheiro, twitanto à distância sucessivos parabéns. "Sinto-me honrado que este feito pertença a Cristiano Ronaldo. É um privilégio para mim, para os meus colegas de selecção e para o Irão. Os recordes fizeram-se para ser quebrados. Ele é um cavalheiro dentro e fora do campo".

No último campeonato da Europa, disputado em toda a parte menos em Portugal, Cristiano Ronaldo igualou o seu recorde de 109 golos, deixando CR7 na vertigem da glória absoluta e Ali Daei no vertigem do absoluto anonimato. Toda esta competição deu-lhe novo fôlego e inesperada estabilidade. É no Irão que está a sua vida, o "calor do meu povo". É no Irão que ele gosta de estar, com todas as implicações que isso tem. Ali Daei define-se hoje como um homem simples, que é "marido e pai". O seu sonho está mais modesto: "O futebol é parte de mim. Sonho com a oportunidade de voltar a treinar". Todo este tempo, este ombro a ombro mediático com Cristiano Ronaldo foi gerido por controlo remoto e com engenharia empresarial. Tendo de um lado o marketing e do outro o Islão. Ninguém reparou que o melhor goleador da história do Irão tinha voltado a jogar na antiga posição com que jogava na rua, quando era menino.

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