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Yves Saint Laurent: Meninos da mamã... e do papá

Yves Saint Laurent: Meninos da mamã... e do papá

Cultura 4 min. 15.01.2014

Yves Saint Laurent: Meninos da mamã... e do papá

CINEMA, com Raúl Reis - Uma biografia tem sempre como principal "handicap" o facto de que toda a gente sabe como acaba. Os mais informados podem mesmo saber o que acontece ao longo do filme.

Se o biografado for muito conhecido, os criadores de cinebiografias (em inglês diz-se "biopic", mas a tradução lógica biofilme dá a ideia de estarmos a fazer compras na Naturata) vêem-se gregos para despertar o interesse do público. Habitualmente, procuram-se coisas que ninguém sabe sobre a personagem; os chamados "podres", que podem até nem ser verdade, mas que escapam à censura e aos advogados se o realizador argumentar que se trata de liberdades artísticas.

Yves Saint Laurent é bastante conhecido. A sua vida pública é por demais... pública. Como noutras biografias, o público aguarda novidades, sangue e escândalo. Em "Yves Saint Laurent" não há nada disso. Mas há sexo. Discreto, diga-se em abono da verdade. Contudo, eu não levaria o meu miúdo de 14 anos a ver o filme de Jalil Lespert.

"Yves Saint Laurent" é um filme que aposta na estética. É bonito e apetece passear com os actores por aqueles espaços – quase sempre fechados – para viver aquela vida de excesso e deboche. Se eu tivesse como objectivo ser estilista ia querer ser assim. Mas não sou e não gostava de ser como o Yves Saint Laurent (Pierre Niney) deste filme.

Os admiradores do estilista vão certamente confortar aquilo que pensam do homem e do artista. Vão-lhe desculpar as loucuras, os defeitos, a droga e as infidelidades, porque afinal ele era um génio. Quem o diz é o seu namorado, Pierre Bergé (Guillaume Gallienne), que aguenta tudo e mais alguma coisa quase sem pestanejar e sem dúvidas aparentes. Assim sendo, porque havíamos nós, meros espectadores, de julgar o pobre génio perdido na espiral do sexo e da droga?

Cada um é como cada qual, mas eu confesso que não aturei as manias do rapaz muito tempo. Nem sequer se pode argumentar que Yves tenha uma vida complicada. Inicialmente, o protagonista ainda informa os pais e o público que fica angustiado quando pensa na sua família, longe, na Argélia das revoltas. Mas depois de o jovem estilista assumir a sua homossexualidade e acolher a família em França, o que o atormenta ainda? Não sei. E o filme não me ajudou a responder à questão. É assim fácil deixar de se preocupar com aquele menino da mamã que tem tudo mas que explode em caprichos de criança e que parece comportar-se mal de propósito.

O realizador decide nunca explorar verdadeiramente as relações de Yves com a mãe, o que poderia contribuir para entender o homem. Tudo fica pendurado, sem verdadeira profundidade.

A interpretação brilhante de Pierre Niney peca por excesso. O actor da Comédia Francesa fotocopiou os maneirismos de Saint Laurent mas utiliza-os em todas as situações. É discutível que o estilista reagisse e falasse da mesma forma durante um desfile, num bar entre amigos ou a vomitar na sanita. Mas Niney opta por uma continuidade que destrói o realismo. Dito isto, Niney é Saint Laurent. Muitas vezes parece que estamos a observar imagens da época ou fotografias que já cruzámos em qualquer lado.

Saint Laurent revela-se um menino mimado rodeado de outros putos mal comportados com dinheiro dos papás e das mamãs. Curiosamente, uma boa parte do elenco de "Yves Saint Laurent" é constituída por filhos de actores. Laura Smet é filha de Nathalie Baye e Johnny Halliday; Marie de Villepin é nem mais nem menos que o rebento do ex-governante francês Dominique de Villepin; Nikolai Kinski é, obviamente, o mano de Nastassjia e o herdeiro de Klaus; enquanto que Charlotte Le Bon é filha da actriz Brigitte Paquette.

Entre os intérpretes dos jovens amigos de Yves Saint Laurent, um dos poucos actores sem progenitores ilustres é Ruben Alves, o luso-descendente que realizou "La Cage Dorée". Mesmo o protagonista, Pierre Niney, tem ligações familiares à Sétima Arte: o pai é professor de cinema.

A personagem de Pierre Bergé é uma espécie de pai desta gente toda. Bergé acumula esta função com a de narrador, explicando coisas que qualquer espectador inteligente poderia deduzir. Mas esta estratégia simplifica a vida ao realizador, que pode assim concentrar-se nas imagens e completar a história com algumas vozes "off".

"Yves Saint Laurent", de Jalil Lespert, com Pierre Niney, Guillaume Gallienne, Charlotte Le Bon, Laura Smet, Marie de Villepin, Nikolai Kinski, Ruben Alves e Marianne Basler.

Raúl

Reis