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Yasmine Hamdan. " o mundo árabe foi feito refém pelos homens, depois pela religião e finalmente por um sistema corrompido"
Cultura 2 9 min. 17.10.2018 Do nosso arquivo online

Yasmine Hamdan. " o mundo árabe foi feito refém pelos homens, depois pela religião e finalmente por um sistema corrompido"

Yasmine Hamdan. " o mundo árabe foi feito refém pelos homens, depois pela religião e finalmente por um sistema corrompido"

Cultura 2 9 min. 17.10.2018 Do nosso arquivo online

Yasmine Hamdan. " o mundo árabe foi feito refém pelos homens, depois pela religião e finalmente por um sistema corrompido"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Mal se lembra do Líbano da sua infância. A guerra obrigou-a a fugir com a sua família. Andou de país em país e de hotel em hotel. Quando regressou à terra sentiu que não era de lado nenhum. A música salvou-a. A cantora falou com o Contacto em Portugal e atua este sábado em Bruxelas no Flagey.

Yasmine Hamdan encontrou a sua terra, o lugar onde se sentia pertencer, na música. “Por causa da guerra civil libanesa tive de saltar a minha infância”, diz, na conversa que tivemos com a cantora. “Tive de andar de país em país, estabelecer ligações, ao mesmo tempo que continuava a sentir-me estrangeira. Dá uma certa liberdade sentir que não se pertence a nenhum lado, mas por outro lado torna-nos sós. A música foi o lugar que eu construí para me salvar”.

Nasceu em 1976, quando a guerra civil começava a incendiar o Líbano, os pais eram militantes de esquerda e tiveram de sair do país. A família foi vivendo no Dubai, Grécia, normalmente em hotéis. A itinerância era feita aos ritmo dos empregos do pai como engenheiro. A educação sentimental de Yasmine era feita a escutar as rádios. A música tornava-se um explicador do mundo: Hamdan ia descobrindo as canções mágicas da lendária cantora egípcia Umm Kullthum, ao mesmo tempo que ouvia The Cure, Madonna, Prince, misturada com músicas árabes.

Em 1991, depois da invasão iraquiana do Kuwait, a família regressou de carro, numa aventurosa viagem, para o Líbano. Hamdan sentia-se como peixe fora de água no seu país. Não se reconhecia nos códigos sociais existentes numa sociedade cheia de ricos que tinham saudades de quando o Líbano era chamado a Suíça do Médio Oriente. Tal como nessa altura, a riqueza opulenta continuava a conviver com a pobreza esmagadora, em que as pessoas têm o destino traçado por divisões religiosas e tribais. Começou a estudar Psicologia, mas foi a música que construiu aquilo que viria a ser a sua terra.

Encontrou Zeid Hamdan, amigo que tem um apelido igual ao seu, apesar de não ser seu familiar, e começou a cantar em árabe, canções influenciadas pela voz do cantor sírio Asmahan e pelas canções de amor de Abdel Wahab. Músicas que misturavam o árabe com as roupagens da música moderna, do trip-hop e do rock. “Era o fim da guerra civil, tudo parecia novamente possível, havia muita esperança, e no entanto as marcas da guerra continuavam presentes”, recordou Yasmine Hamdan.

O grupo da dupla do Hamdan foi batizado de Soapkills e foi o primeiro conjunto a misturar as culturas arábicas e música moderna ocidental na região. “Queríamos ser considerados um grupo árabe, mas livre, novo e diferente”, confessou a cantora.

O grupo tornou-se uma espécie de porta-estandarte de um movimento underground do Médio Oriente, influenciando uma miríade de novas bandas. Tudo parecia uma agressão para os mais conservadores, a mistura dos sons entre Oriente e Ocidente e, sobretudo, uma atitude que outros consideravam insultuosa e provocadora: “Eu não queria provocar pessoas, estava revoltada e havia simplesmente coisas que considerava insuportáveis”.

Mas apesar disso, Yasmine sentia-se sufocada em Beirute, onde os horizontes eram, de alguma forma, limitados, e sobretudo as condições de vida e de trabalho dos artistas eram totalmente precárias. “Qualquer coisa normal custava imenso a fazer”. Foi viver sozinha para Paris. Regressando periodicamente ao Líbano. Fazendo a sua vida entre esses dois mundos. Nada que lhe fosse totalmente desconhecido.

Uns anos depois, conheceu o realizador palestiniano Elia Suleiman, que tinha usado duas canções dos Sopakils para o seu notável filme “A Intervenção Divina”. Casaram-se anos depois.

Quando começaram as revoluções da Primavera Árabe sentiu um vento de esperança: “Senti-me estimulada e livre. Senti que a juventude finalmente começava a tomar a palavra e a ter voz. Mas sei que todas as mudanças precisam de tempo e que a situação continua muito complicada na região”.

A sua música mistura a cultura árabe com vestes alternativas, cantando o amor e a política, procurando uma terra para aqueles que não aceitam os poderosos de sempre e a herança de miséria no Médio Oriente. “Eu gosto de usar material e influências clássicas com liberdade. Misturar segundas vozes, com diferentes tipos de estruturas de melodias, mais pop, indianas misturadas com influências árabes. Estou interessada num diálogo entre tradição e modernidade”, confessou a um jornalista norte-americano.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Foi numa noite ventosa, no Castelo de Sines, de onde se vê o mar de águas profundas, e em que o Festival das Músicas do Mundo tem o seu palco principal, que se sucedeu esta breve conversa:

É-se sempre estrangeiro num país que está em guerra civil?

Depende se partilhamos, ou não, as razões ou a história dessa guerra civil. Mas de alguma forma somos todos estrangeiros nessa situação. Pelo menos, em relação ao que me diz respeito, passado tantos anos há muitas coisas nessa guerra que eu nunca conseguirei aceitar.

Adorno dizia que era impossível fazer a poesia depois de  Auschwitz . É possível fazer a poesia e cantar depois do massacre de milhares de refugiados palestinianos nos campos de Sabra e Chatila em Beirute?

Sabra e Chatila são histórias terríveis que eu ouvi contar, porque era demasiado pequena na altura em que sucederam. Mas é possível continuar a fazer poesia, porque há sempre emoções, sentimentos e o sentido de que é necessário corrigir e fazer justiça em relação ao que se passou. É preciso perceber que fazemos parte dessa história, somos produto dela e  relacionamo-nos com ela, e que temos de tomar posição sobre ela. Para mim, a única forma em que isso faz sentido é nesse espaço livre de criação em que posso encontrar pessoas, em que pode acontecer o anti-Sabra e Chatilla, em que pode haver poesia, e em que posso tentar compreender as coisas da guerra no Líbano que permanecem totalmente incompreensíveis para mim. Apesar de saber que será sempre uma guerra que ao limite será totalmente absurda e fratricida.

Partiu do Líbano muito nova, viveu no Dubai, Grécia e Kuweit e depois regressou ao Líbano. O que sentiu nesse momento? Sentiu que fazia parte desse lugar de regresso?

Senti muitas coisas, mixed feelings. Por uma parte estava excitada, o Líbano é um lugar muito interessante que transmite muita energia - embora nem sempre positiva - que pode atrair. A mim deu-me a energia para começar a criar música. Mas é verdade que a ideia de pertença sempre me escapou e se calhar sempre me fez sofrer. E provavelmente foi sorte minha não fazer parte de um grupo, não jogar um jogo, não aceitar um código e não ser marioneta disso.

Começou a fazer música como?

Comecei a fazer música por acidente. Estava desesperada. Não pertencia a nada. Estava numa boa escola, mas muito burguesa, sentia-me como peixe fora de água. Havia muitos privilegiados nessa escola. Sentia-me um zombie. Não percebia os códigos. Sentia-me diferente. Penso que procurei um lugar e com a música encontrei alguma coisa que me permitiu não só ter um sítio de refúgio, como encontrar um lugar onde pudesse existir para mim e para os outros. Toda a gente que conhecia à minha volta tinha herdado o que eram; não falo só do dinheiro e dos conhecimentos sociais, mas da própria mentalidade. Não queria isso. Sentia-me um bocadinho um eletrão livre. Sempre desejei fazer música mas era muito tímida. Quando comecei a fazer música ultrapassei a minha timidez mas também consegui afirmar-me enquanto mulher. Fazia escolhas que quebravam com a tradição e com aquilo que esperavam de mim.

Foi também feito como uma provocação o facto de começar a cantar em árabe uma música que não era vista como sendo árabe?

As pessoas viram-na como uma provocação porque havia enormemente de preconceitos. É preciso ver que o Líbano era pequeno e que eu toquei música árabe que era suposto ser quase sagrada e em que não é permitido mexer. Posso ter sido provocadora, mas eu não queria chocar as pessoas. O que acontecia é que eu sentia uma verdadeira rebelião em mim: havia coisas que não conseguia aceitar. Não queria aceitar determinadas leis, não queria aderir à auto-censura. Mais tarde, compreendi que procurei sempre essa liberdade. E quando nos meios de comunicação árabes me diziam que provocava, que era assim e assado, pensava que não era uma história de provocação. Era simplesmente porque não aceitava as coisas e portanto tratava de propor outras coisas. Bati-me sempre por essa liberdade.

Vivi num país árabe e estive algumas vezes no Saara Ocidental. Ao longo dos anos senti que havia uma espécie de retrocesso em relação ao papel das mulheres, acha que isso é verdadeiro?

As mulheres são muito centrais no mundo árabe. O problema é que o mundo árabe foi feito refém pelos homens, depois pela religião e finalmente por um sistema corrompido. A mulher foi colocada como um problema simplesmente para distrair, porque realmente as pessoas que estão no poder no mundo árabe, tirando depois das Primaveras Árabes, estão no poder desde sempre e por herança. Fizeram as guerras para estarem no poder. Em conclusão, é uma dominação política e económica em que a mulher surge como um suposto problema, em muitos casos para distrair. A religião e a mulher são assuntos delicados com os quais é possível manipular as massas. Para ser uma mulher forte no Médio Oriente é preciso uma enorme qualidade e ser 100% forte. Por isso há muitas mulheres excecionais e até homens. Há pessoas que se batem por um futuro melhor e por pontos de vistas progressistas.

Para mudar é necessária uma intervenção divina (nome de um dos filmes mais conhecidos de Elia Suleiman, realizador palestiniano e companheiro da cantora)?

(Risos). Penso que o mundo árabe é uma intervenção divina, só não sei por qual Deus. Penso que o facto de tentarem separar homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais é para dividir para reinar. É isso que querem as pessoas que estão no poder. Precisam de nos dividir para ficarem com os seus privilégios. É preciso muitos homens e mulheres para conseguirmos libertar a sociedade de uma determinada maneira. Às vezes perguntam-me o que penso da repressão de um determinado grupo. Eu sinto-me próxima, identifico-me, sinto-me triste em relação aos homossexuais que são perseguidos, os jornalistas que são presos e em relação aos palestinianos que são reprimidos. Estamos todos juntos, queremos todos uma sociedade mais progressista. Não a chamo demo-liberal, mas de facto mais igualitária. Penso que é bom procurar-mos todos um certo ideal em que certos valores são prioritários. De formas diferentes, essa luta vai encontrar-nos a todos, fazendo esse combate em comum.

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