Escolha as suas informações

“White Lines”. Um português escreve direito por linhas tortas
Cultura 4 min. 28.05.2020

“White Lines”. Um português escreve direito por linhas tortas

Apesar do calor de Ibiza, Duarte Silva, conhecido como Boxer, prefere o preto

“White Lines”. Um português escreve direito por linhas tortas

Apesar do calor de Ibiza, Duarte Silva, conhecido como Boxer, prefere o preto
Foto: DR
Cultura 4 min. 28.05.2020

“White Lines”. Um português escreve direito por linhas tortas

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Na última semana, a plataforma Netflix indicava como série mais vista numa grande maioria de países do mundo, e praticamente em toda a Europa, “White Lines”.

As razões que levam a Netflix a propor aos seus utilizadores uma ou outra série, este ou aquele filme, serão sempre um mistério para nós, meros mortais. Será que há um algoritmo que calcula, com toda a honestidade, aquilo que já vimos, fazendo propostas semelhantes, ou a plataforma promove aquilo que lhe interessa que vejamos por razões puramente económicas?

Se aceitarmos que o algoritmo por trás da aplicação Netflix tenta procurar filmes ou séries semelhantes ao que fomos vendo ao longo do tempo, é natural que “White Lines” tenha aparecido como uma das obras indicadas pela plataforma porque quase todos nós vimos em abril “La Casa de Papel”, que além de ser uma série espanhola tem o mesmo criador.

Álex Pina, além da saga dos bandidos mascarados de Dali, é também responsável por “Vis a Vis”, uma história que se passa numa prisão, ou ainda “El Embarcadero”, cuja ação decorre em Valencia.

“White Lines” é um projeto que Pina estimava tanto que, diz-se, o argumentista foi a Los Angeles para o propor pessoalmente aos patrões da Netflix. Reza ainda a lenda que o espanhol conseguiu carta branca da Netflix para fazer a série, mas também a possibilidade de se associar com Andy Harries, da britânica Left Bank Pictures, empresa que é responsável por séries tão marcantes como “The Crown” ou “Outlander”.

Afinal de que trata “White Lines”? Segundo o seu autor é uma saga policial falada em inglês mas com personagens britânicas e espanholas no cenário tórrido de Ibiza e das suas 'raves' polvilhadas de cocaína e outras drogas onde tudo pode acontecer. Terá sido este “pitch” que convenceu a Netflix, mas permitam-me desenvolver um pouco mais: a ação da série começa quando é descoberto o cadáver de um homem na região de Almeria, nas mesmas vastas planícies onde foram filmados os “spaghetti westerns”. O corpo é o de Axel Collins, um jovem DJ inglês, desaparecido há mais de vinte anos em Ibiza, a muitos quilómetros dali. Zoe Walker, irmã da vítima, deixa em Inglaterra o marido e a filha, partindo às pressas para Ibiza, decidida a apurar a verdade sobre a morte de Axel. “White Lines” propõe uma bela galeria de personagens: a família Calafat, pai, mãe e filhos, os amigos Axel, Marcus, David e Anna e Boxer o segurança do patriarca Calafat, que superintende os bares e discotecas do clã, interpretado pelo português Nuno Lopes. Boxer acaba por ser a personagem central, tirando protagonismo à vítima Axel.

Boxer é interpretado por Nuno Lopes, um ator (e DJ) que, aos 42 anos, é dono de uma extraordinária carreira internacional. Segundo o ator, Boxer é um homem com “uma ética muito forte, não tem medo de nada, mas apesar da sua segurança tem uma sensibilidade muito particular”. São estas contradições que tornam, muito facilmente, Boxer na personagem favorita de quem vê “White Lines”. A isso não é alheia a brilhante interpretação de Nuno Lopes que consegue dar à personagem uma profundidade que muitos dos outros atores não conseguem atribuir aos seus papeis. Apesar do autor da série Álex Pina conhecer bem os segredos da criação dramática, o resultado final de “White Lines” está muito longe do brilhantismo e da originalidade de “La Casa de Papel”. O ritmo da ação é elevado, não se perde muito tempo com apresentações nem, infelizmente, com a criação de verdadeiras personagens. Depois, alguém teve a penosa ideia de colocar, aleatoriamente, uma voz off da protagonista demasiado explicativa e umas consultas telefónicas com uma psicóloga para ajudar o espetador a entender o que já era óbvio. O problema é que não há quase nada para explicar em “White Lines” porque tudo é relativamente simples. Contudo, os criadores da série parecem ter decidido que somos todos estúpidos e optam por momentos constrangedores como é dedicar um diálogo de um minuto e tal a explicar o sentido de 'carpe diem'... por via das dúvidas.

No meio destes defeitos é positivo o elevado ritmo da ação, um enredo que obriga a esperar pelo fim, um bom retrato da loucura que é Ibiza e a fidelidade total à diversidade linguística, com espanhóis a falarem espanhol e estrangeiros a falarem inglês. Nessa mistura de línguas, volta a destacar-se Nuno Lopes que prova ser capaz de ser ator em português, inglês e espanhol, além de francês, pois já tem no seu currículo muitas participações em produções gaulesas.

Uma última nota para outro português em “White Lines”: Paulo Pires, o manequim e ator, desempenha um pequeno papel.

“White Lines”, com Nuno Lopes, Laura Haddock, Marta Milans, Pedro Casablanc, Daniel Mays, Juan Diego Botto e Tom Rhys Harries.



Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.