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VvV. Corrente criativa inédita une mais de 40 escritores portugueses
Cultura 5 min. 23.03.2020

VvV. Corrente criativa inédita une mais de 40 escritores portugueses

VvV. Corrente criativa inédita une mais de 40 escritores portugueses

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Cultura 5 min. 23.03.2020

VvV. Corrente criativa inédita une mais de 40 escritores portugueses

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Todos os dias, um novo episódio literário é lançado num modelo de folhetim à moda antiga.

Amor em tempos de cólera e uma maré de criatividade por toda a Internet. Nos últimos dias, são vários os projectos que tencionam alentar o espírito dos que se deparam com mudanças drásticas de rotinas em isolamento social.

Desta leva, mais de 40 escritores portugueses dão vida ao "Bode Inspiratório", um projecto inédito baseado numa corrente criativa em formato de "folhetim à moda antiga". Criam uma estória colectiva, com um novo texto a cada dia publicado na página do Facebook, que completa o desenrolar do anterior e abre portas ao capítulo seguinte.

 Com formato adaptado à leitura digital, os textos são escritos em menos de 24 horas e a ideia é que não se ultrapasse muito além dos 3000 caracteres. A curiosidade deve ser estimulada de forma a que se mantenham os leitores presos à leitura sequencial, mas o conteúdo é completamente livre e o seguimento "dará voltas inesperadas". 

Ana Margarida de Carvalho, arquitecta deste folhetim, partilha com o Contacto que a inspiração surgiu "deste estado de confinamento em que nos encontramos, de isolamento social e a responder a esta interrogação que é: o que podemos fazer para ajudar?". 

A novidade desta iniciativa é o facto dela ser colectiva. “Reunirmo-nos todos, agora que todos temos as nossas agendas totalmente despovoadas de eventos e acontecimentos. É uma maneira de podermos ajudar e podermos continuar em comunicação com o leitor, nesta conjuntura totalmente inédita e até um pouco inverosímil que é a esta pandemia", comenta.

O primeiro capítulo foi escrito por Mário de Carvalho, o último será escrito por Luísa Costa Gomes. 

"Eu ao início até não estava muito disposto, mas a minha filha insistiu", comenta o escritor que foi responsável pelo primeiro texto do Bode Inspiratório.

Em chamada telefónica, Mário de Carvalho, conta que esta não é primeira vez que participa de um projecto colaborativo. Em 1986, escreveu "E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?", em conjunto com Clara Pinto Correia, à imagem do que tinham feito Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão no livro O Mistério da Estrada de Sintra.  Considera tratar-se de uma "experiência, um jogo, um divertimento. No caso, havendo 40 escritores, é muito mais interessante para ver as diferentes abordagens, os estilos e as formas de encarar as situações". 


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Numa altura em que a solidariedade se propaga por várias frentes e ofícios, Mário de Carvalho considera muito curioso "ver a forma como os escritores se interessaram imediatamente, acolheram a ideia e estiveram disponíveis para ela. Penso que tem muito que ver com este género de crise. Isto é, de certa forma, uma afirmação de resistência". 

Ana Margarida de Carvalho comenta que tem continuado a receber mais participações e, por isso, não está a contar escrever. "Estou a ter tanto trabalho na parte da articulação, que dei o meu lugar a outros. Começaram a exceder os 40 e cedi diretamente o meu lugar ao seguinte, mas eu acho que se calhar vai chegar aos 50, se os escritores não demorarem muito tempo a escrever, se usarem as suas capacidades todas".

Não acha que o primeiro texto seja o mais difícil, porém tem alguns requisitos como o de "ter sempre o cuidado de apresentar algumas personagens, já com as suas personalidades e características e deixar muitas portas abertas". E, "sem querer revelar muito", adianta que os textos que tem já em mãos tomaram "direções completamente inesperadas, que eu não estava nada a espera"

Mário de Carvalho, na sua parte, cumpriu todos os requisitos expectáveis de primeiro capítulo e nele sobressaem alguns elementos que dão já sinais da atualidade. "O que foi criado, foi um ambiente de laboratório, numa altura que não está rigorosamente identificada, mas que se presume que esteja alguma coisa a passar-se lá fora", explica . O escritor teve a missão de desenhar o ponto de partida para os seus colegas e diz que "não é por acaso que o laboratório está instalado numa gruta, bem recolhida e bem defendida. Os cientistas estão a trabalhar intensamente, têm os seus amores, os seus desamores, as suas simpatias e antipatias, as idiossincrasias, formas próprias de estar na vida, isso fica logo apontado no primeiro episódio".

Esta poderá ser uma forma de viajar, sem que se saia de casa, já que "tudo o que contribua para que a pessoa exerça a sua imaginação e entre no jogo que nós propomos, é evidente que é mais um passo na descoberta de novos horizontes. A escrita é mesmo isso." 

Entre os escritores que participam no "Bode Inspiratório" estão Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Ana Cristina Silva, Isabela Figueiredo, Valério Romão, Luís Miguel Rainha, Afonso Reis Cabral, Patrícia Reis e Helena Vasconcelos.

Participam ainda, entre outros, Gabriela Ruivo Trindade, Adélia Carvalho, José Fanha, Domingos Lobo, Licínia Quitério, Tiago Salazar, Ricardo Fonseca Mota, Álvaro Laborinho Lúcio, Rita Ferro e Luís Castro Mendes.

 Ana Margarida de Carvalho, explicou ainda que para além do folhetim, foi também lançado um desafio a artistas plásticos para mostrar, na mesma página, as obras que estão a criar durante o isolamento. As fotos das suas obras ficam expostas "na capa da página do Facebook" e incluem-se nomes como António Olaio, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira e Marta Wengorovius.

De acordo com a escritora, no final deverá haver uma exposição com as obras criadas durante o isolamento.

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