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Venus in Fur: O dueto de Polanski
Mathieu Amalric agora trabalha numa sapataria

Venus in Fur: O dueto de Polanski

Mathieu Amalric agora trabalha numa sapataria
Cultura 3 min. 27.11.2013

Venus in Fur: O dueto de Polanski

Sozinho num velho teatro parisiense, e depois de uma dura jornada de audições, o encenador Thomas (Mathieu Amalric) prepara-se para regressar a casa. O espectador entra em voo planado no teatro e ouve as reclamações de Thomas ao telefone. Que o dia foi longo, que o nível das candidatas era baixo e que, sim, ele vai passar na mercearia para levar aquilo que a sua querida lhe pede.

Thomas prepara-se para sair quando Vanda (Emmanuelle Seigner) aparece. Cheia de energia, a entrada de Vanda no teatro é como um furacão. Sobretudo que a jovem actriz representa quase tudo aquilo que Thomas detesta.

Ele acha-a simples, banal, parva, pirosa e o facto de ela insistir que é a pessoa ideal para protagonizar a peça que Thomas dirige enerva-o ainda mais.Só que Vanda não abandona facilmente.

Quando Thomas menos espera, a actriz já está a interpretar o papel principal da peça. A surpresa é total: Vanda utiliza o vestuário e os adereços ideais e – curiosamente – conhece a peça toda de cor e salteado.O filme "Venus in Fur" foi escrito por David Ives e Roman Polanski, com base na peça de David Ives.

Tudo isto, obviamente, directamente inspirado da obra do mesmo nome de Sacher-Masoch. "Venus in Fur" é um dueto entre Amalric e Seigner, mas a estrela é claramente a mulher do realizador.Roman Polanski admitiu que ao ler o argumento pensou imediatamente que este era um papel para Emmanuelle Seigner.

"Eu ainda não tinha feito um filme com ela em língua francesa para que ela pudesse expressar melhor a sua personagem", explicou o realizador durante o festival de Cannes, completando: "esta foi a motivação deste trabalho; tinha de ser em francês".

Na verdade, tanto Seigner como Amalric desempenham dois papéis cada um já que são, em paralelo, a actriz e o director e as personagens da peça. E se quisermos ser ainda mais precisos, pode mesmo dizer-se que desempenham ainda mais um papel, mas contar mais do que isto estragava a surpresa.

A forma como Polanski utiliza essa dualidade não é novidade: Manoel de Oliveira ou Alain Resnais multiplicaram esta abordagem. Os dois actores entram e saem dos papéis com brio e Emmanuelle Seigner desempenha a mais impressionante prestação dos dois, já que as personagens que tem de encarnar são muito diferentes.

É impressionante descobrir ao longo de "Venus in Fur" que Amalric se parece imenso com Roman Polanski quando era mais novo, por exemplo na época de "Dance of the Vampires". Apesar da óbvia semelhança, o realizador franco-polaco diz que não foi de propósito: "ao princípio nem sequer reparei", defendeu-se.

Tal como no seu trabalho anterior, “Carnage”, que conta com apenas quatro actores, o filme melhora à medida que o final se avizinha. É nessa altura que se torna mais provocante e cativante. O "huis clos" com apenas dois actores é um desafio (o primeiro grande êxito de Polanski, "Knife in the Water", tinha três actores) mas o experiente realizador mantém o ritmo deliciosamente teatral e mostra as suas excepcionais capacidades para dirigir.

Roman Polanski dá uma lição de inventividade. Quase com 80 anos, o cineasta mostra ousadia e coragem, para além da sua proverbial inteligência. "Venus in Fur" não é um dos mais brilhantes exemplos na sua cinematografia, mas prova que Polanski é um dos melhores a gerir os limites entre ficção e realidade e a deixar o público na dúvida, uma dúvida constante que só pode encantar quem gosta de ir ao cinema para exercitar as meninges.

"Venus in Fur" de Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric.

Raúl Reis