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Van Gogh. Afinal não sofria de esquizofrenia mas sim de alcoolismo
Cultura 4 min. 05.11.2020

Van Gogh. Afinal não sofria de esquizofrenia mas sim de alcoolismo

Van Gogh. Afinal não sofria de esquizofrenia mas sim de alcoolismo

Foto: Pixabay
Cultura 4 min. 05.11.2020

Van Gogh. Afinal não sofria de esquizofrenia mas sim de alcoolismo

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Especialistas consideram que Van Gogh era não só um "grande e influente pintor, mas também um homem inteligente com uma enorme força de vontade, resiliência e perseverança".

Um artigo publicado por investigadores no International Journal of Bipolar Disorders apontou provas de que Van Gogh era dependente do álcool, sobretudo vinho e do absinto, desde 1886 até à sua morte, a 29 de julho de 1890, aos 37 anos de idade. 

O estudo pioneiro sobre a saúde psiquiátrica do pintor holandês nos anos anteriores ao seu suicídio descobriu que o artista tinha delírios em parte devido à privação de álcool após ter cortado a orelha a si próprio e ter sido internado no hospital. A conclusão é o resultado de uma investigação a 902 cartas do artista, das quais 820 foram escritas ao seu irmão Theo e outros familiares, bem como de entrevistas com três historiadores que estudaram o artista em profundidade. 

Os últimos três anos de vida do artista holandês foram, aliás, dos mais produtivos, durante os quais pintou mais de 30 autorretratos e a série de sete pinturas de girassóis. 

Segundo os autores do estudo, liderado por Willem Nolen da Universidade de Groningen, na Holanda, o artista terá desenvolvido um distúrbio de humor bipolar ainda em jovem, com traços de distúrbio de personalidade limítrofe - caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade em relacionamentos, autoimagem, humor e comportamento. Mas este "provavelmente agravou-se através de um distúrbio de uso de álcool combinado com desnutrição, o que levou em conjunto com tensões psicossociais crescentes, a uma crise em que cortou a orelha".

Depois de entregar a sua própria orelha a uma mulher num bordel, Van Gogh esteve hospitalizado por três vezes consecutivas em Arles, França, entre dezembro de 1888 e maio de 1889. Foi subsequentemente transferido para o asilo de Saint-Rémy-de-Provence em maio de 1889. 


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Depois da Dinamarca e da Roménia, o Grão-Ducado regista a terceira taxa mais elevada no que respeita ao consumo de álcool em excesso. Nem o confinamento travou a tendência.

Durante duas das estadias no hospital, Van Gogh escreveu que sofria "alucinações insuportáveis", ansiedade e pesadelos. "Febre ou loucura mental ou nervosa, não sei bem o que dizer ou como nomeá-lo", descreveu o pintor. Os investigadores sugerem agora que estes sintomas estariam ligados a um período forçado sem álcool. 

A equipa acrescenta ainda que os dois delírios relacionados com a abstinência foram seguidos por "episódios depressivos graves (dos quais pelo menos um com características psicóticas) dos quais não recuperou totalmente, tendo conduzido ao seu suicídio". 

"Aqueles que consomem grandes quantidades de álcool em combinação com desnutrição correm o risco de prejudicar a função cerebral, incluindo problemas mentais", escreveram. Além disso, a paragem abruta no consumo excessivo de álcool pode levar a fenómenos de abstinência, incluindo delírios. "Por conseguinte, é provável que pelo menos a primeira breve psicose em Arles nos dias após o incidente da orelha durante a qual provavelmente parou de beber abruptamente, tenha sido na realidade um delírio de abstinência de álcool. 

Só mais tarde, em Saint-Rémy, quando foi obrigado a minimizar ou mesmo a parar de beber, provavelmente conseguiu fazê-lo e também não teve mais problemas de abstinência". A publicação desvaloriza uma série de outras teorias relacionadas com a saúde mental de Van Gogh. 

Um dos primeiros diagnósticos após a sua morte foi esquizofrenia, teoria posta de lado após ter sido descoberto que não apresentou quaisquer sintomas psicóticos antes do incidente do ouvido aos 35 anos de idade, nem durante os intervalos entre os seus episódios psicóticos nos últimos 15 meses da sua vida. Também a falta de sintomas relevantes, tais como a diminuição da expressão emocional, também leva os investigadores a descartar a hipótese de esquizofrenismo.

O artigo sugere ainda ser improvável que Van Gogh tivesse sífilis, apesar de ter sido tratado para a gonorreia e o irmão Theo ter morrido seis meses mais tarde desta última. A equipa não encontrou qualquer sugestão de sífilis nos relatos médicos de Van Gogh. E descartam também a hipótese de envenenamento por monóxido de carbono libertado pelas lâmpadas de gás na sua casa em Arles.

"Não existem outros relatos de (possível) envenenamento por monóxido de carbono em Arles", disse o estudo. Os autores, contudo, não descartam que o pintor terá tido epilepsia meses antes da morte, "resultando numa expressão altamente variável de ansiedade, delírios e alucinações".

No estudo lê-se ainda que, apesar de todos estes problemas os especialistas  salientam que "Van Gogh era não só um grande e influente pintor, mas também um homem inteligente com uma enorme força de vontade, resiliência e perseverança".

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