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Upside Down: Ao som do contrabaixo
Beija-me antes que o mundo fique ao contrário!

Upside Down: Ao som do contrabaixo

Beija-me antes que o mundo fique ao contrário!
Cultura 4 min. 10.09.2013

Upside Down: Ao som do contrabaixo

"Upside Down" de Juan Solanas, com Kirsten Dunst, Jim Sturgess, Timothy Spall, Blu Mankuma, Nicholas Rose e Vlasta Vrana.

"Pra cima pra baixo Ao som do contrabaixo Pra baixo, pra cima Ao som da concertina" Ena Pá 2000

A ideia de "Upside Down" anda no ar há, pelo menos, quatro anos. O conceito é original: dois mundos, situados um em cima do outro, e um habitante de cada mundo que cruza outro.

Como todos os filmes baseados num conceito revolucionário, duas coisas podem acontecer: ou dá um bom resultado ou revela-se um falhanço. Infelizmente, "Upside Down" cai na segunda categoria porque não soube aproveitar o filão e acaba por estabelecer limites a si próprio.

Qualquer amador de ficção-científica sabe que é necessário basear o argumento numa ideia credível ou, pelo menos, bem fundamentada. No caso de "Upside Down" o conceito da dupla gravidade não convence ninguém.

Não é preciso ser um génio da astrofísica para saber que a rotação terrestre desempenha um papel na gravidade, facto que o filme de Juan Solanas esquece.

Isto não seria importante se "Upside Down" deixasse os pormenores "técnicos" de lado, mas o realizador e argumentista Juan Solanas explica ao pormenor toda a lógica dos mundos paralelos e passar ao lado da questão da força da gravidade é imperdoável. E, como é sabido, a gravidade pode fazer desmoronar-se o mais pretensioso edifício...

O criador de "Upside Down" parece ter querido criar um romance num contexto de ficção-científica. Mas, também a este nível, Solanas fica longe do objectivo.

A culpa é de um argumento saltitante e com imensa falta de emoções. Há cenas que existem obviamente para apelar à vertente emotiva, mas todas elas são falhadas. É difícil incutir emoção numa narrativa que – devido às muitas elipses – acaba por ter buracos que não deixam o público perceber muito bem a razão das coisas.

A escolha dos dois protagonistas – Kirsten Dunst e Jim Sturgess – também parece pouco acertada. Ambos têm uma carreira firmada em grandes papéis, mas o casal que eles formam em "Upside Down" tem falta de química, de emoção. Falta carisma aos actores e, sobretudo, ao casal que eles encarnam.

Como o casal se junta e separa mais do que os protagonistas de uma telenovela brasileira, a falta de compatibilidade dos Dunst e Sturgess é ainda mais flagrante. Os espectadores começam rapidamente a cansar e não desenvolvem empatia nenhuma com Adam e Eden.

Querem mais defeitos?

A forma de narração, com uma voz "off" monocórdica, parece motivadora no início, mas acaba por cansar e tornar-se insuportável a partir de um certo ponto do filme (que no meu caso foi bastante cedo). O cansaço do público chega também por causa de "Upside Down" ter uma falta de ritmo entristecedora.

A oposição dos dois mundos poderia ter dado origem a uma temática complementar: o mundo de cima explora o de baixo, que é pobre. Esta metáfora social – apesar de não ter nada de original – poderia ter sido aproveitada para enriquecer o filme, mas Juan Solanas passa ao lado deste aspecto como se não lhe interessasse muito.

E que tal uma lista de coisas boas?

Falta dizer que "Upside Down" é um belíssimo filme porque é uma maravilha visual. Os efeitos especiais são magníficos e os homens dos computadores, das luzes e das câmaras fizeram um trabalho absolutamente impressionante.

O responsável pela fotografia, o canadiano Pierre Gill, assina aqui uma prestação extraordinária, jogando com as cores e as luzes para nos esconder que uma boa parte das cenas foram rodadas sobre fundos verdes. "Upside Down" tem planos que davam um quadro de ficção-científica digno de uma exposição internacional.

"Upside Down" é lindo de se ver e o conceito de base é excelente. Mas passar a ideia do papel para o ecrã resulta nisso mesmo: um conceito que não descola, que nunca sai da sua concha. Talvez por causa da gravidade, que neste caso é dupla.

"Upside Down" de Juan Solanas, com Kirsten Dunst, Jim Sturgess, Timothy Spall, Blu Mankuma, Nicholas Rose e Vlasta Vrana. 

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 08.05.2013