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“Une fille facile”. Guerra dos sexos na Côte d’Azur
Cultura 3 min. 26.08.2020

“Une fille facile”. Guerra dos sexos na Côte d’Azur

“Une fille facile”. Guerra dos sexos na Côte d’Azur

Foto: DR
Cultura 3 min. 26.08.2020

“Une fille facile”. Guerra dos sexos na Côte d’Azur

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A jovem atriz franco-argelina tornou-se conhecida por estar envolvida num escândalo sexual que se tornou mediático, quando ainda era menor, e que provocou uma revolução no futebol francês.

 O ator português Nuno Lopes é a presença lusa mais regular no cinema europeu. Recentemente tornou-se na personagem preferida dos netflixers graças à sua interpretação de Boxer na série hispano-britânica “White Lines”. Em 2019 esteve em Cannes na pele de Andrès no filme “Une Fille Facile”, obra que chega agora à plataforma Netflix.

O filme da realizadora francesa Rebecca Zlotowski, escrito pela própria e por Teddy Lussi-Modeste, começa por apresentar Naïma, uma jovem que acaba de celebrar os seus 16 anos, quando a sua prima Sofia, de 22 anos chega para passar umas férias. Ambas vão viver um verão que deixará marcas para a vida das duas.

Se para os portugueses Nuno Lopes será o destaque nesta película, o público francês aguardou com curiosidade o filme por ele ter como protagonista Zahia Dehar. A jovem atriz franco-argelina tornou-se conhecida por estar envolvida num escândalo sexual que se tornou mediático, quando ainda era menor, e que provocou uma revolução no futebol francês, nomeadamente a exclusão de Karim Benzema da seleção daquele país.

Este foi apenas o início do mediatismo de Zahia Dehar. A jovem trabalhou depois como manequim e modelo, tendo desfilado por exemplo para Karl Lagerfeld, e acabou por lançar uma linha de roupa interior.

“Une fille facile”, cujo título se liga inevitavelmente e inconscientemente à protagonista, passa-se em Cannes, quando a parisiense Sofia vai visitar a família e, sobretudo, a sua prima Naïma, de 16 anos, que está em estágio num hotel chique da Côte d’Azur. Numa noite, ambas são convidadas para o iate de um milionário brasileiro, interpretado por Nuno Lopes. Sofia não vai resistir à atração do dinheiro e Naïma observa entre admiração e condenação o que faz a sua prima.

O filme de Zlotowski está cheio de referências que por vezes o tornam quase anacrónico. As personagens do milionário e do seu assistente parecem saídas de um filme do final dos anos 60, fazendo lembrar, por exemplo, a série sobre a bossa nova, “Coisa Mais Linda”. E depois temos Zahia Dehar que só pode fazer recordar Brigitte Bardot com a sua atitude descontraída e “jemenfoutiste”. Apesar dessas referências a um cinema com 50 anos, “Une fille facile” é um filme atual, que tira uma excelente fotografia social e levanta sérias questões sobre as relações entre os sexos.

Ao contrário daquilo que poderiam esperar os mais céticos, Zahia Dehar revela ser uma excelente atriz. A sua personagem é fútil e sofisticada mas também divertida e desconcertante. No meio em que evolui, os homens parecem todos ainda mais superficiais do que a rapariga que procura riquezas e que tanto se situa na definição de escort girl como na de liceal ingénua.

Aliás, a virtude do filme de Rebecca Zlotowski é que todas as personagens oscilam numa zona cinzenta, encostando-se ao bem e ao mal dependendo das circunstâncias. “Une fille facile” nunca envereda pelo julgamento das suas personagens, o que pode parecer a alguns como uma justificação daquilo que faz a protagonista, e que poderíamos assimilar a uma certa forma de prostituição, só que Sofia assume o que faz e justifica-o como uma forma de superioridade. A jovem usa as armas que tem diante dos homens e do poder, que muitas vezes se apresentam na mesma pessoa para obter o que deseja.

As ações da personagem interpretada por Zahia Dehar poderiam mesmo ser classificadas como ação política, mas a desilusão que Sofia assume relativamente ao amor romântico revela que ela aceita apenas o cinismo do mundo em que vivemos. Aqui e ali ouviremos a jovem dizer que os sentimentos para ela não contam” ou que “temos de ser nós a provocar as coisas para que elas aconteçam”.

“Une fille facile” de Rebecca Zlotowski, com Zahia Dehar, Mina Farid, Nuno Lopes, Benoît Magimel e Clotilde Coureau.

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