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Uma vida cheia de músicas com músicas cheias de vida
Cultura 10 4 min. 11.04.2018

Uma vida cheia de músicas com músicas cheias de vida

Uma vida cheia de músicas com músicas cheias de vida

Foto: Filipe Ferreira
Cultura 10 4 min. 11.04.2018

Uma vida cheia de músicas com músicas cheias de vida

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Na Philharmonie ou na rua, em casa ou em viagem, 24 horas de Francisco Sassetti nunca deixam de ter ritmos bem marcados.

Craaaap! Craaap! Craaap! O som das facas que espalham manteiga e arranham as torradas é a música que começa os dias de Francisco Sassetti e da mulher, Inês. Um aroma inconfundível a café acabado de fazer distribui-se pela casa. Pouco passa das nove e o casal partilha o pequeno-almoço antes de Francisco se dirigir à Philharmonie. Artista plástica, Inês reparte-se entre trabalho em casa e formações na universidade. Responsável pela programação de jazz e música do mundo na soberba sala de espetáculos do Luxemburgo, Francisco chega perto das 10, até porque o percurso de carro é curto.

Cumprimenta à esquerda e à direita. Distribui sorrisos, saudações e boa disposição por quem vai passando. Entra no elevador, porque há lá em cima uma reunião de produção na qual deve estar. Passa pelos intervalos do silêncio, cumprimenta o grupo, senta-se e, não tarda, gesticula como um maestro imaginário.

Natural, a música é omnipresente e está-lhe no sangue: vem de família, com um tio-avô que dirigiu o Teatro Nacional de São Carlos, um avô que escrevia sobre música, um pai melómano da clássica, o tio Bernardo, genial pianista desaparecido demasiado cedo, o padrinho com o seu nome também pianista, o primo João que é guitarrista numa banda de heavy metal. Certa vez, foi a casa de um amigo que tocava piano, também tocou, achou graça e a escolha não foi estranha – estudou música, mas nunca quis ser profissional. Ainda assim, em casa, lá está o piano ao qual se senta para tocar de maneira despreocupada.

Ritmo musical

A manhã voa e não há tempo a perder. Vai ao grande auditório seguir um pouco do ensaio com um trio de jazz e a orquestra. Não se vê, mas é fácil imaginar como aquelas colcheias, semi-colcheias, breves, mínimas e semínimas saltam das pautas transformadas em sons para os seus ouvidos de conhecedor. Escutar música é muito mais do que obrigação profissional, é um prazer do quotidiano. “Mas cada vez ouço menos jazz em casa”, exemplifica, reconhecendo que a mulher, também ela com família encantada pelas melodias, o acompanha no gosto e nos concertos.

Nas viagens, “frequentes em função da época do ano”, entram pitadas de jazz e de clássica, mas é de pop e rock que mais se compõem os intervalos. Já lá vai o tempo em que não falhava concertos e ouvia Nirvana, Red Hot Chilli Peppers ou Smashing Pumpkins. Leitura é algo a que também se dedica com gosto, sejam biografias, livros técnicos ou outros, tendo muitas vezes tons musicais como principal ponto de referência.

Uma e pouco é tempo de almoço ali por perto: na própria Philharmonie, na cantina das instituições europeias ou no Mudam. “Sou um bom garfo”, reconhece, a sorrir. Apesar de não falar luxemburguês ou alemão, está muito bem identificado com a realidade à sua volta. Afinal, chegou ao Grão-Ducado com apenas quatro anos – o pai veio trabalhar para as instituições europeias em 1986 –, estudou na Escola Europeia, seguiu para Londres e para Genebra. De repente, estava em Lisboa, encantado pelas ondas da rádio. Depois foi a comunicação e a programação do Centro Cultural de Belém. Ficou mais perto do Luxemburgo quando passou três anos na comunicação da Orquestra de Jovens Gustav Mahler, em Viena. E, 15 anos depois da saída, voltou ao Luxemburgo para a Philharmonie.

O metrónomo invisível

Termina o almoço, mas há uma tarde inteira de trabalho por diante. Organiza documentos no seu gabinete, faz telefonemas, troca e-mails e sms, volta a espreitar um ensaio. Há decisões a tomar, escolhas que precisam ser feitas, um programa para 2019 em definição. Universal, a linguagem da música deixa-o embevecido, mas também nunca esquece a lusofonia. “Temos quase 20% de população lusófona e essa presença é sublinhada através do Festival Atlântico. Não atrai apenas muita gente – é uma forma de celebrar essas culturas”, orgulha-se.

Não há pausas. O trabalho vai fluindo como se um metrónomo invisível fosse exercendo o seu infatigável efeito de movimento (quase) perpétuo. Tudo decorre sem sobressaltos, de acordo com as notas estabelecidas na pauta do quotidiano. Francisco vai ultrapassando etapas para que não falhem convites a artistas ou a programação de concertos e de festivais. E, de vez em quando, o silêncio é tão ou mais harmónico do que uma melodia.

Por norma, ao final da tarde está em casa e janta com a mulher. Mas, se os dias são de concerto, aí é diferente. “Janto com os artistas, muitas vezes depois das 23h00”. Por falar em artistas, quais são os sonhos mais difíceis para Francisco concretizar com presenças na Philharmonie? “Chico Buarque e Keith Jarrett”, responde sem hesitar. E, de repente, é como se a atmosfera à volta se enchesse com a voz que canta e toca “Construção” ou um inconfundível alguém estivesse sentado ao piano a fazer magia nas teclas brancas e pretas com “My song”.