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Um dia na vida de João Godinho, o português que faz guitarras
João Godinho é o único fabricante de guitarras acústicas no Luxemburgo.

Um dia na vida de João Godinho, o português que faz guitarras

Foto: Christophe Olinger
João Godinho é o único fabricante de guitarras acústicas no Luxemburgo.
Cultura 1 3 min. 29.06.2018

Um dia na vida de João Godinho, o português que faz guitarras

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
De manhã à noite, a vida de João Godinho é fado. O português é o único artesão a fabricar guitarras acústicas no Luxemburgo e também toca guitarra portuguesa, que aprendeu com o mestre Carlos Gonçalves.

Num campeonato da menor distância entre a casa e o trabalho, João Godinho deteria o recorde mundial. De manhã, basta-lhe descer as escadas para chegar ao atelier onde faz guitarras de raiz, em Itzig.

Na cave da casa convertida em oficina vêem-se longas tiras de madeira, lacas e vernizes, serras e serrotes, plainas, fresas, limas, grosas, e serrim, serrim por todo o lado. Aqui fica o único atelier de fabrico artesanal de guitarras do Luxemburgo. “Há um construtor de violinos, mas eu sou o único fabricante de guitarras, e penso que na história do Luxemburgo não houve nunca essa tradição. Para mim tem sido um grande desafio, porque estou a fazer algo que não tem história”, conta.

O dia de João Godinho começa por volta das 7h30. “Como qualquer coisa com a família, vejo se tenho mails ou mensagens e organizo um pouco a oficina”. Depois, é só descer o tal lanço de escadas para chegar ao local de trabalho.

Não foi sempre assim. Quando veio para o Luxemburgo, em 2004, João Godinho era eletrotécnico numa fábrica alemã. Na mala trouxe também a paixão pela guitarra. Fez a primeira em miúdo, com um braço velho que encontrou e a ajuda de um carpinteiro, na oficina do pai, que era afinador de acordeões. Um ano antes de vir para o Grão-Ducado, fez um baixo elétrico para Bruno Duro, que toca habitualmente com Áurea e Tony Carreira. “Ele a seguir gravou um disco com o instrumento e eu fiquei super contente, porque aquilo funcionou”, recorda.

Pelo meio, apaixonou-se pela guitarra portuguesa e teve aulas com um dos melhores. Foi aluno de Carlos Gonçalves, o mítico guitarrista de Amália que compôs “A Lágrima” e o “Grito”, o fado que a diva escolheu para ser cantado no seu funeral. “Era o Jimi Hendrix da altura da guitarra portuguesa”, diz João Godinho. Que o dedilhado típico do mestre lhe ficou nas mãos atesta-o um episódio recente. “Eu outro dia encontrei-me com um guitarrista, agarrei na guitarra, fiz umas notas, e ele disse: ’Pá, isso é o Carlos Gonçalves!”.

Nas horas vagas, Godinho tem um trio com a mulher, a fadista Cristina Godinho, e Paulo Levi na viola. Mas das 9h às 5h (ou, no seu caso, das 8h30 às 19h30), a sua profissão é mesmo fazer guitarras.

Há dois anos deixou a empresa onde trabalhava para se dedicar a tempo inteiro ao fabrico de guitarras. A troca prejudicou-lhe a conta bancária, mas trouxe-lhe outras alegrias. “A transição não foi fácil, porque é uma grande aventura, ainda para mais vivendo no Luxemburgo, onde o custo de vida é muito elevado e há muitas facturas para pagar”, conta. “Acho que é isso que nos retém, nesta máquina que nós alimentamos: levantamo-nos de manhã e trabalhamos e vivemos o projeto de outras pessoas. Muitas pessoas vivem frustradas porque é assim mesmo, precisamos de viver e a máquina precisa de funcionar. E a minha experiência de vida agora é completamente diferente. Não é um mar de rosas, mas tenho outra relação com o trabalho, porque é o meu próprio projeto e estou a fazer uma coisa que eu amo.”

Fazer guitarras artesanais é um trabalho de amor e paciência. Num mês inteiro, João Godinho faz apenas duas guitarras, “a trabalhar todos os dias nelas”. No atelier há sempre várias em curso de execução, em diferentes etapas, “porque há tempos mortos de secagem das colas ou verniz”.

Foto: Christophe Olinger

São vários os músicos luxemburgueses que recorrem ao português para fazer guitarras artesanais. O processo melhora infinitamente a sonoridade, garante João Godinho, que pega em vários instrumentos para mostrar a diferença. Uma guitarra industrial produz um som oco, que se extingue rapidamente. Uma de fabrico manual, saída das suas mãos, é outra louça. “Aqui temos uma em pau-santo de Madagáscar, que já é uma madeira protegida, e cedro do Canadá”, explica, martelando a guitarra para mostrar o som. Mesmo sem tocar nas cordas, o instrumento vibra longa e harmoniosamente, como a pedir para ser tangido.

Apesar de fazer instrumentos, o artesão toca com uma guitarra portuguesa que não lhe saiu das mãos. Em casa de ferreiro, espeto de pau? “Fiz uma de Coimbra que deixei em Lisboa, não toco com ela, e fiz uma de Lisboa que ainda não está acabada”, explica. “Como é para mim, tenho tempo. Acabo por tocar com uma velha guitarra”.

Texto: Paula Telo Alves

Vídeo: Francis Verquin / Paula Telo Alves


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