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Two mothers: As divas nas dunas
Não digas nada à tua mãe...

Two mothers: As divas nas dunas

Não digas nada à tua mãe...
Cultura 4 min. 10.09.2013

Two mothers: As divas nas dunas

"Two Mothers", de Anne Fontaine, com Naomi Watts, Robin Wright, Xavier Samuel, James Fencheville, Ben Mendelshon e Sophie Lowe.

"Two Mothers" é o primeiro filme rodado em língua inglesa da realizadora francesa Anne Fontaine. Adaptado da obra de Doris Lessing "Two Grandmothers", esta obra recebeu ainda o título "Perfect Mothers" no mercado francófono.

Esta adaptação do romance conta com Naomi Watts no papel de Lil, Robin Wright como Roz e Xavier Samuel e James Fencheville como os seus respectivos filhos.

Lil e Roz são as melhores amigas do mundo desde a infância. Agora, mulheres de meia idade, vivem perto uma da outra e os seus filhos tornaram-se também amigos inseparáveis. Os quatro são, pode dizer-se, uma grande família.

Os seus lares situam-se numa colina, junto a uma bela praia, na costa oeste da Austrália. É nestas águas que os filhos de Lil e Roz – belos como deuses gregos, elas é que o dizem – passam os dias a surfar sob o olhar embevecido das suas mães. Os ingredientes para uma vida perfeita estão reunidos, mas a história complica-se quando se misturam atracções sexuais.

O filme torna-se provocante e perturbador. Para alguns espectadores, os adjectivos escândalo ou choque podem vir à cabeça, enquanto que para outros sensualidade e moderno podem prevalecer.

A forma como o argumento de "Two Mothers" está construído leva o público a questionar-se em vez de reagir primariamente à ideia de duas mães amigas que dormem com o filho uma da outra. Este facto, errado à primeira vista, mostra-se muito mais complexo e confuso.

Estas relações nunca deviam acontecer porque há uma grande diferença de idades? É errado porque eles eram todos amigos antes de serem amantes? Ou será que o pior, no meio disto tudo, é que cada uma delas é uma espécie de segunda mãe para o filho da amiga?

"Two Mothers" deixa estas e muitas outras questões em aberto. Apesar de os espectadores saberem que a vida dos quatro protagonistas era perfeita antes de o sexo complicar as coisas, a nova situação acaba por parecer aceitável e, porque não, prática.

O filme levanta questões complexas e deixa margem para todo o tipo de interpretações (basta observar ou ouvir as reacções do público numa sala de cinema: muita gente ri-se em alturas em que outros não reagem).

Esta variedade de reacções pode também ser provocada por um dos defeitos do filme de Anne Fontaine: os diálogos são fraquinhos e, por vezes, pouco adaptados à cena. Isto provoca muitos momentos de embaraço em que não se sabe se o objectivo é rir ou chorar...

Apesar de tudo, a maior virtude de "Two Mothers" é provavelmente a sua capacidade para dividir e para fazer pensar. Quem for ver o filme acompanhado(a) poderá ter tema para conversa durante dias.

A fotografia de "Two Mothers" é soberba e deixa a impressão de uma sucessão de bilhetes postais paradisíacos e radiantes nos quais os protagonistas se passeiam partilhando beleza com o espaço em que se movem. Tudo é lindo, perfeito, magnífico.

Mas todo este excesso estético acaba por poder deixar uma impressão de falsidade, de gestos e momentos coreografados. E como a realizadora não conseguiu desenvolver suficientemente as suas personagens, o efeito de artificialidade é muitas vezes reforçado.

Mas Anne Fontaine parece ter consciência disso, por isso sublinha os conflitos e os sentimentos negativos com nuvens no céu azul ou com a simples ausência de sol. Este contraste é tão evidente que acaba por não ser eficaz, da mesma forma que a maçã aparece para ser comida com vontade ou cortada em quatro pedaços.

"Two Mothers" é provocante e cria empatia com o espectador. A provocação desta obra é filosófica. Provoca reflexão. Provoca dúvidas. Anne Fontaine considera o seu público como pessoas adultas.

Esta é uma película que conta com uma história de qualidade, apoiada em actores com provas dadas e espaços físicos que fazem pensar numa canção dos GNR: "Dunas são como divãs"... Neste caso, as dunas escondem divas sensuais que gostam de rapazes com corpos de deuses gregos. 

"Two Mothers", de Anne Fontaine, com Naomi Watts, Robin Wright, Xavier Samuel, James Fencheville, Ben Mendelshon e Sophie Lowe. 

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 10.04.2013