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“Trump é a nova suástica”
Cultura 7 min. 16.10.2020

“Trump é a nova suástica”

“Trump é a nova suástica”

Foto: António Pires
Cultura 7 min. 16.10.2020

“Trump é a nova suástica”

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Leonor Antunes é uma artista empenhada politicamente. Preocupada com o retrocesso de alguns países diz que “Trump é a nova suástica”. A artista portuguesa acaba de inaugurar uma exposição surpreendente no Museu de Arte Moderna do Grão-Ducado (MUDAM).

 A exposição foi construída em diálogo com o espaço arquitetónico do MUDAM. Como foi esse processo?

Quando Suzanne Cotter, diretora do MUDAM, convidou-me para fazer a exposição, achámos que seria interessante fazer uma continuação da exposição que fiz no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Mas ela tinha essa ideia muito específica de mostrar o meu trabalho na pavilhão octogonal do museu. Um espaço muito interessante, em relação ao resto do MUDAM, porque não é tão sacralizado como são os outros espaços. É muito transparente, tem um desenho octogonal que é uma figura geométrica que me interessa bastante.

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Foto: António Pires

Ao vermos a exposição há sempre um diálogo com a luz e o espaço exterior…

Sim. Para mim o ideal seria sempre mostrar o meu trabalho em condições em que não fosse necessário usar tanta luz artificial. Geralmente não gosto muito das luzes dos museus, porque são néons e fazem com que o espaço fique muito plano e que não haja muitos volumes dentro do espaço. Por isso comecei a desenhar as minhas lâmpadas, para ter também uma relação de escala mais humana no espaço.

Neste caso a luz natural está muito presente já que o pavilhão é em vidro…

O que permite ver essa mudança da luz ao longo do dia, porque a luz muda muita coisa. O facto de utilizar as minhas lâmpadas também me permite modelar e controlar o espaço. Acho que é muito raro um museu poder dar-se ao luxo de ter uma iluminação natural.

Acho que, no meu caso, tive bastante… não digo sorte, porque não gosto de usar essa palavra... tive contextos muito interessantes para mostrar o meu trabalho. Acho que encontrei pessoas que entendem o que faço e me convidaram para fazer projetos.

Isso para mim é a situação ideal. Aqui é muito interessante poder estar nesta espaço, porque desenhei uma estrutura que está completamente construída e embebida naquela sala, mas ao mesmo tempo é muito transparente porque é feita de cordas, as cordas são brancas e à noite, por exemplo, a estrutura torna-se muito presente, enquanto que durante o dia quase que fica diluída naquela sala.

O que é que a pandemia alterou no seu processo de criação artística?

Comecei a trabalhar na exposição, no ano passado, muito antes da pandemia. Fiz as duas exposições quase ao mesmo tempo, a do MASP que inaugurámos em dezembro do ano passado e o trabalho já estava a ser feito. Porque tenho muito trabalho não posso dar-me ao luxo de começar a trabalhar na exposição dois meses antes, tenho que começar muito antes. Porque tenho exposições noutras partes do mundo. Às vezes é complicado compatibilizar tudo.

Disse recentemente que com a pandemia, os artistas vão ter que repensar o seu futuro. Repensar em que sentido?

Acho que são os museus e as instituições que têm que repensar os módulos de exposição. Os artistas sempre trabalharam quase sempre de uma forma muito individualista.

Sempre pensei, e não sou a única, que há viagens que temos que repensar. Se vamos estar três dias num outro país, valerá a pena fazer essa viagem? Agora percebemos que conseguimos fazer tudo à distância, nomeadamente conferências por zoom ou skype. Para mim, o que é assustador é pensar que as pessoas vão viajar menos. Por exemplo, montei uma exposição, num museu novo que abriu em Plymouth no Reino Unido,na qual estava a trabalhar há três anos, e não fui à sua inauguração. Porque era apenas um dia que lá poderia estar, porque a seguir teria que vir para aqui. E em Inglaterra tinha que ficar em quarentena, duas semanas. Não valia a pena.

O que é que é assustador?

O que é assustador é, por exemplo, ter feito esta exposição enorme e pouca pessoas a vão ver. Porque, atualmente as pessoas não vão viajar, sobretudo para Inglaterra que está como está, já para não falar do governo horroroso que tem.

Os museus têm que ser repensados?

Infelizmente, o que vai acontecer, é que os museus vão ficar muito mais locais. Claro que há países como o Brasil, os EUA, ou cidades como Berlim que podem dar-se ao luxo de ter museus locais, porque têm muitos artistas que lá vivem de outros países.

Nas periferias será mais difícil?

Vai ser mais difícil. Vão ter menos dinheiro. Vai ser geral. A questão é que haverá cada vez menos recursos. Por exemplo, uma situação, como a que estamos aqui a viver neste museu, acho que dentro de alguns anos não será possível. Porque a exposição foi exatamente pensada para para este lugar, o museu ajudou-me a produzir a exposição, tendo pago a maior parte das coisas. Estou aqui em montagem há dez dias. Um trabalho muito complicado que demora muito tempo e exige muita mão de obra. Isso será muito mais difícil de fazer no futuro, porque vai haver restrições de viagens e restrições de verbas para a produção.Tinha uma exposição no Hammer Museum, em Los Angeles, que já foi adiada três vezes.

Quando foi autora da representação de Portugal na Bienal de Veneza, afirmou que não o faria se o Governo português fosse de direita. Uma declaração que causou alguma polémica…

Se fosse um governo de direita não o faria. Não me revejo na questão da representação dos Pavilhões...Porque não me revejo como portuguesa, mas sim como cidadã do mundo. Fiquei muito contente por fazer aquele projeto que me deu imenso prazer. Ainda hoje, consigo retirar muitos elementos do que lá fiz.

Percebo que, para Portugal, como para muitos outros países pequenos seja importante a representação em Veneza. Mas é preciso perceber que muitos dos pavilhões em Veneza são privados. Mas noutros casos, como Portugal é o Governo que suporta e que produz o pavilhão. Se fosse convidada e estivesse no poder um Governo de direita, não faria essa exposição. Porque posso dar-me ao luxo de fazer isto. Não vivo em Portugal há muito tempo, mas não me revejo num governo de direita. Acho que o que estamos a viver é um tempo de retrocesso, em alguns países. Acho que Portugal é um dos países, na Europa, que tem um Governo de esquerda. Acho que estão a fazer as coisas bem, nomeadamente, na forma como lidaram com a pandemia, coisas que são benéficas para o país.

Mesmo em termos de apoio à cultura?

Sim. Acho que deviam dar muito mais dinheiro à cultura. A percentagem é ridícula. Deveriam apoiar muito mais. Mas será que o país consegue?

Por exemplo, o Pavilhão americano em Veneza é totalmente privado, não tem nada a ver com o Governo. É um Pavilhão independente, tal como o Brasil. Nenhum artista que eu conheça aceitaria fazer parte de um Pavilhão gerido por um governo como o de Trump ou de Bolsonaro. A Venezuela deixou de ter Pavilhão porque não tem recursos e está a viver uma situação horrível.

Todos os artistas devem afirmar-se politicamente ?

Para mim isso é importante e será feito no futuro, se os artistas não o fizeram antes. Porque eu posso dar-me ao luxo de recusar. Mas eu posso dizer que não tenho vergonha de ser representada por um Governo socialista. Espero que a direita não se radicalize.

Mas há uma certa radicalização em Portugal, com movimentos como o Chega…

Que eu abomino e é horrível. É muito triste esse retrocesso. Mas isso também se deve, o facto dos EUA terem elegido uma pessoa como o Trump. E existe uma espécie de onda, por exemplo em Berlim, de manifestações nas últimas semanas, contra o isolamento e claro que a extrema direita, e a extrema-esquerda também se associam. No caso da extrema-direita, como não podem usar suástica, porque é proibido desde a Segunda Guerra Mundial, usam bandeiras com o Trump. O Trump é a nova suástica.

Se ele é o presidente dos EUA, que é uma das maiores economias, se ele diz há outras pessoas que o seguem .

Mas tem esperança no futuro?

Se o Trump não for reeleito há esperança que outros paises como o Brasil possam mudar. Se ele for reeleito acho que vamos ficar mesmo mal.  

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