Tony Carreira: “Um romântico é caricaturado como um ovni”

Tony Carreira: “Um romântico é caricaturado como um ovni”

Cultura 8 min.14.02.2018

Tony Carreira: “Um romântico é caricaturado como um ovni”

Tony Carreira vem ao Luxemburgo no próximo sábado para um espetáculo comemorativo dos seus 30 anos de carreira. Numa conversa por telefone com o Contacto, Carreira falou das dificuldades por que passou quando emigrou para França, do estado da indústria das editoras e reconheceu ser um homem romântico. Quanto à acusação de plágio, o cantor diz-se “de consciência tranquila”.

Tony Carreira vem ao Luxemburgo no próximo sábado para um espetáculo comemorativo dos seus 30 anos de carreira. Numa conversa por telefone com o Contacto, Carreira falou das dificuldades por que passou quando emigrou para França, do estado da indústria das editoras e reconheceu ser um homem romântico. Quanto à acusação de plágio, o cantor diz-se “de consciência tranquila”.

Como começou a sua carreira e por que dificuldades passou?

Comecei a cantar nos arredores de Paris, de uma forma muito amadora. E foi assim. Foi um percurso normal, de uma pessoa que tenta e, claro, não consegue logo. Mas é um percurso que tive. Eu e milhares de músicos. Aliás, não só na música, mas em qualquer profissão. Até que, um dia, há uma canção que desperta a atenção do público e as coisas começa.

Tendo em conta que o início é sempre difícil, que conselho dá aos mais novos que queiram seguir este caminho?

Acho que quando as coisas são difíceis é que as carreiras duram mais tempo; tudo o que é fácil é efémero. É claro que ser difícil é uma coisa que nos faz sofrer, é uma coisa que nos dá muito trabalho. Precisamos de muita coragem, precisamos de voltar a tentar. Mas é assim, porque a vida é assim. O conselho que dou é que as pessoas devem acreditar nelas próprias e, sobretudo, não se devem esquecer de um fator que é muito importante: o trabalho. Tentarem enquanto as coisas não funcionam e não são visíveis e tentarem progredir o máximo, trabalhar e empenhar-se para ficarem cada vez melhores. Até que, um dia, se acontecer que fiquem visíveis – e foi o meu caso também – nesse dia, já haverá uma preparação de muitos anos a trabalhar. O importante disto tudo é, em primeiro lugar, o trabalho. Não pensem que, seja nas canções, seja no teatro, seja no cinema, que as coisas acontecem simplesmente porque temos talento. Isso não é verdade. O talento é uma coisa, o trabalho é outra. E a prova é que temos pessoas como o Cristiano Ronaldo e outros mais. É uma questão de trabalho.

Vai assinalar o aniversário de 30 anos de carreira, quais foram os momentos mais marcantes?

Há muitos. O primeiro Olympia (Paris) foi um momento muito marcante, o primeiro Pavilhão Atlântico (Lisboa) foi um momento muito marcante, o meu primeiro disco de ouro foi um momento marcante também, os concertos que demos na Avenida da Liberdade (Lisboa), com 500 mil pessoas, foram momentos muito, muito importantes na minha vida. Já tive muitos, estes são alguns.

Para celebrar a data, vai dar alguns concertos, alguns dos quais fora de Portugal. Como emigrante, é diferente tocar fora de Portugal?

Não, eu vivi duas vidas, no fundo. Uma fora de Portugal e outra em Portugal. Um dos objetivos era voltar ao meu país. Não me esqueço, claro, do percurso fora do país, onde aprendi muito. Onde aprendi este amor incondicional pelo meu país foi fora de Portugal, porque, quando vivemos fora de Portugal, somos muito mais patriotas, o que é natural e normal. Aprendi muita coisa fora do país, mas também aprendi muito em Portugal, por isso, para o meu coração, em termos de vivência, vivi tanto num lado como no outro. Agora em termos de público – cantar no estrangeiro ou em Portugal – estou a cantar para portugueses. É exatamente igual. É claro que os públicos são diferentes, mas o público do Alentejo também é diferente do público de Trás-os-Montes. Mas, quando regresso a sítios onde tenho recordações bonitas, seja fora ou dentro, é sempre diferente.

E o Luxemburgo é um desses casos de recordações bonitas?

Eu canto no Luxemburgo desde que comecei a cantar. Desde sempre. Cheguei a cantar no Luxemburgo ainda com os Irmãos 5, como em algumas terras da Suíça, como Paris (França), por exemplo. Fazem parte da minha vida desde sempre, em termos musicais, desde o primeiro dia. Portanto há um carinho especial por esses sítios, porque fui evoluindo, fui andando e sempre marcando presença, neste caso concreto no Luxemburgo. É sempre um privilégio voltar.

Quando chegou a França quais foram as suas maiores dificuldades?

Primeiro aprender a falar francês. Foi logo a barreira da língua. Mas isso é o percurso que qualquer português fora de Portugal conhece. Mas depois adaptei-me muito rapidamente, porque quando nós viemos... e na altura eu vinha de um Portugal muito do interior, a minha aldeia é perto de Pampilhosa da Serra, onde as coisas eram difíceis naquele tempo. Estamos a falar de 1974, 75, portanto chegar a um sítio nos arredores de Paris, com outro conforto, as casas aquecidas e outras coisas, depois de passar a barreira da língua, adaptei-me muito bem. E confesso que gostei muito de viver naquela região muito bonita nos arredores de Paris.

Quando foi para Paris, trabalhou numa fábrica de salsichas. Nessa altura já tocava?

Já sonhava com as canções, já tinha a minha guitarra, já tinha um grupo ou um conjunto de baile [Irmãos 5].

Quando é percebeu que a música romântica era o seu destino?

Mal nasci. As canções de que eu sempre gostei são românticas. Não quer dizer que só goste desse género de canções. Gosto de tudo um pouco. Desde heavy metal, a música clássica e música latina, gosto de tudo um pouco. Mas o género de que eu mais gosto são as baladas, as canções de amor.

É isso que mais ouve em casa quando não está a trablhar?

Sim, oiço muito. Desde Luis Miguel a Bryan Adams. Há-de reparar que as canções que ficam no tempo, 90% são canções desse género. Até mesmo os AC/DC têm as baladas, têm canções fenomenais, ou os Scorpions. As canções de amor não têm género: podem ir desde o heavy metal à música clássica.

Disse que percebeu que a música romântica era o seu caminho desde que nasceu. Considera-se um homem romântico?

Depende daquilo que se achar que é um homem romântico. Sou uma pessoa sensível, sou uma pessoa que gosta de surpreender, que gosta de ser simpática, que gosta de distribuir charme. Mas por vezes um romântico é caricaturado como um ovni. Mas sim, sendo uma pessoa sensível, considero-me uma pessoa romântica, sim.

Os espetáculos de 30 anos vão ser especiais, vão ter alguma coisa que os distinga dos anteriores?

É um concerto que abrange, na escolha do repertório, os grandes sucessos destes 30 anos. Por isso, as pessoas vão ouvir algumas – não podem ser todas – mas algumas das canções mais marcantes destes 30 anos. As pessoas que têm seguido o meu trabalho sabem por alto quais são. Reorquestradas, mas será baseado nos 30 anos de canções, claramente. Não faria sentido ser de outra maneira.

Como tem visto a evolução da indústria da música em Portugal? Em termos da evolução das editoras, por exemplo?

As editoras em Portugal estão, na proporção portuguesa, como está o mundo inteiro: mais ou menos à beira da falência.

E como é que isto pode ser ultrapassado? Como é que a indústria...

Não faço ideia. Na vida nada é eterno, há 25 anos era o vinil, há 15 ou 20 anos eram os CD e hoje um leitor de CD quase já é uma relíquia. As coisas mudam e o negócio da música também está a mudar. Mudou para um espaço que se chama Internet, Spotify e… não me parece que esse seja o caminho. E se for o caminho tem de ser com regras e na maior parte dos países essas regras não existem. Em Portugal é claro que afeta essa indústria. Indústria que existia, mas está a deixar de existir. Como é que vai ser daqui para a frente? Prometo que, quando eu souber, ligo-lhe [risos].

Um dos casos mais recentes e polémicos tem a ver com a acusação de plágio. Este caso prejudicou a sua imagem?

Muito, já nem durmo... Não. Estou a brincar. Isso é um caso ridículo, porque é um assunto que está resolvido há dez anos. Como deve calcular, dez anos na vida de uma pessoa já é bastante tempo. Ficou resolvido há dez anos, sou amigo dos autores... Agora claro que há pessoas que gostam de fazer barulho à volta disto porque faz parte. O que tenho a dizer sobre este assunto é que ando feliz e contente e de consciência completamente tranquila. É um assunto que, para mim, está mais que morto e enterrado. Agora quem quiser falar, pode falar sobre ele. Vivemos em liberdade, graças a Deus, e toda a gente pode exprimir aquilo que quiser. Na parte da pergunta que me toca, olhe, estou muito bem, graças a Deus, e a minha vida segue como estava a seguir até ao momento em que isto, do nada, rebenta.

Por que motivo é que fez o acordo [com a Companhia Nacional de Música….]

Meu anjo, isso está tudo na Internet. Basta lá ir ver e está lá tudo explicado.

Nota de edição: Depois desta entrevista foi noticiado que o acordo assumido em tribunal, em novembro do ano passado, entre a editora Companhia Nacional de Música (CNM) e Tony Carreira, no processo em que o cantor é acusado de plágio, ficou sem efeito. Foi também noticiado que Tony Carreira mantém disponibilidade para chegar a acordo. Até ao fecho desta edição, o Contacto não conseguiu voltar a falar com o cantor.

Paula Cravina de Sousa

Notícias relacionadas

Francisco Sassetti: Um português na Philharmonie do Luxemburgo
Estudou música e aprendeu a tocar um instrumento, mas não é músico, apesar de a música correr nas veias de toda a família. É musicólogo, e já esteve na programação do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e na Orquestra de Jovens de Viena. Agora, aos 32 anos, Francisco Sassetti regressa ao Luxemburgo para assumir a programação do Jazz e Música do Mundo na Philharmonie.