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Toni Morrison. Morreu a voz escrita dos negros norte-americanos
Cultura 4 min. 07.08.2019

Toni Morrison. Morreu a voz escrita dos negros norte-americanos

Toni Morrison. Morreu a voz escrita dos negros norte-americanos

AFP
Cultura 4 min. 07.08.2019

Toni Morrison. Morreu a voz escrita dos negros norte-americanos

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
A escritora morreu aos 88 anos. A norte-americana escreveu o romance “Amada” (Beloved), que em 1988 lhe valeu o prémio Pulitzer para melhor ficção, e recebeu o Nobel da Literatura em 1993.

Ainda não são conhecidas as causas da morte. A escritora morreu no Montefiore Medical Center, em Nova Iorque, na passada segunda-feira, 5 de agosto.

Toni Morrison foi uma das autoras norte-americanas mais celebradas no seu país. Em 2012, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama condecorou-a com a medalha da Liberdade e chegou a ganhar o Pulitzer em 1988, com o romance "Beloved". O Prémio Nobel da Literatura chegou em 1993, e Toni foi a primeira escritora negra a ganhá-lo. 

Quando Donald Trump chegou à Casa Branca, em 2016,  a escritora escreveu um ensaio sobre como a sua eleição representava "aquilo que os brancos estavam dispostos a fazer para manterem um estatuto". 

Disse provocatoriamente pouco tempo antes de morrer que só haveria igualdade, nos EUA,  quando jovens brancos desarmados fossem mortos por polícias nos EUA, e condenados por violar jovens negras.  

Vida dedicada à cultura afro-americana

Toni Morrison, nasceu a pouco mais de um quilómetro da fábrica de aço de Lorain, no estado de Ohio, em plena Grande Depressão dos anos 30, quando os empregos escasseavam e as cidades industrializadas conheciam uma crise sem fundo. Tinha ela dois anos, o senhorio pegou fogo à casa em que vivia com os pais e irmãos, castigando a família pelo atraso no pagamento da renda. Foi neste ambiente, violento e desesperado, que cresceu.   

Nascida em 1931 em Lorain, Ohio, Toni Morrison formou-se em Língua Inglesa e lecionou em várias universidades, tendo trabalhado também como editora na Random House, num papel que lhe permitiu divulgar outros nomes da literatura afro-americana.

A sua tese de licenciatura foi sobre a loucura em Virginia Woolf e William Faulkner.

Estreou-se como autora pouco antes dos 40 anos, em 1970, com o romance "The Bluest Eye". Em entrevista ao jornal The New York Times, em 1979, Toni Morrison recordou que se sentia sozinha com os dois filhos, em Nova Iorque, quando começou a escrever."Escrever era uma coisa que eu fazia à noite, depois de as crianças irem dormir", disse.

Depois de "The Bluest Eye", baseado numa história de infância, de uma criança negra que desejava ter olhos azuis e que foi violada pelo pai, seguiram-se "Sula" (1973), "Song of Solomon" (1977), "Tar Baby" (1981) e "Beloved" (1987), todos eles dando voz a personagens negras e convocando questões relacionadas com racismo, segregação e minorias.Em 1993, foi a primeira escritora negra a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Autora ainda de ensaios, livros para crianças e teatro, Toni Morrison publicou o último romance, "Deus Ajude a Criança", em 2014.

De Toni Morrison estão publicados vários títulos em Portugal, entre os quais "Beloved", "Deus ajude a criança" e "A Dádiva".

"Beloved", que aborda a escravatura e a violência que prevaleceu para lá da sua abolição, foi a primeia obra de Toni Morrison editada em Portugal, traduzida por Evelyn Kay Massaro, com o título "Amada". Foi em 1989, numa edição da Difusão Cultural, e manteve-se durante anos como único título disponível da autora, nas livrarias portuguesas, mesmo depois da atribuição do Nobel da Literatura.

Surgiram depois, na Editorial Presença, "A Dádiva", traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues, "A Nossa Casa É Onde Está o Coração", e "Deus Ajude a Criança", ambos com tradução de Manuela Madureira.

O primeiro, uma história de escravatura e de ódio racial, tem por cenário os primeiros anos da independência dos Estados Unidos, no final do século XVII, enquanto "A Nossa Casa É Onde Está o Coração" se passa nos anos de 1950/1960, numa América que permanece dividida pela segregação. "Deus Ajude a Criança" fala do modo como a infância e a cor da pele determinam o percurso de uma vida.

A Dom Quixote publicou "Love" (2009), história de uma obsessão, e de novo "Beloved" (2011), que também surgiu na Presença no ano passado, traduzidos por Maria João Freire de Andrade.

Em 2014, a Colibri publicou "Magia Negra: a obra de Toni Morrison", de João de Mancelos, dedicado à autora. Foi o primeiro ensaio a sair do meio académico, onde a obra de Toni Morrison já foi objeto de diferentes abordagens, de acordo com a lista disponível no catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal.

"Beloved" foi adaptado ao cinema pelo realizador Jonathan Demme, em 1998. O filme não chegou às salas portuguesas de cinema, mas foi editado em vídeo com o título "Amada".

O documentarista norte-americano Timothy Greenfield-Sanders, autor da série "American Masters", dirigiu este ano o documentário "Toni Morrison: The Pieces I Am", dedicado à escritora.



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