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The Wolf of Wall Street: A primeira pedra
O meu Ferrari tem de ser branco, como o de Don Johnson em "Miami Vice"

The Wolf of Wall Street: A primeira pedra

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Cultura 2 min. 08.01.2014

The Wolf of Wall Street: A primeira pedra

Jordan Belfort, interpretado em "The Wolf of Wall Street" por Leonardo DiCaprio, passou apenas alguns meses em Wall Street. O homem que inspirou o filme de Martin Scorsese trabalhou na L. F. Rotschild, sendo este o seu primeiro emprego no domínio financeiro. A carreira de Belfort na casa não durou, porque no "crash" de 1987 a empresa fechou e o protagonista do filme ficou desempregado.

Durante a "fase Wall Street", Belfort vai aprender muitas das coisas que lhe servirão de base para o sucesso que se seguirá. O seu mentor na Rotschild (Matthew McConaughey) prodiga-lhe conselhos chocantes e extremamente realistas. Mark Hanna é daquelas personagens que não se esquecem, apesar de a sua aparição ser mesmo isso.O filme de Scorsese está cheio de gente boa que só passa por ali uns minutos, mas alguns deles ficam na retina. O pai de Belfort (Rob Reiner) faz parte dessa lista, assim como um banqueiro suíço interpretado por Jean Dujardin.

Donnie Azoff (Jonah Hill) é o melhor amigo de Jordan Belfort e, por isso, acompanha a personagem de DiCaprio durante boa parte do filme. Para este, "The Wolf of Wall Street" é o papel da sua vida (se calhar já tinha dito isto de "Revolutionary Road", mas desta vez é que é, acreditem). DiCaprio é forte, omnipresente e extremamente adulto. Já ninguém consegue ver nele o "miúdo" que brincava aos pilotos de aviões ou o rapazinho apaixonado de "Titanic". Prova última: numa fotografia do filme pareceu-me, por momentos, ver Orson Welles. Nada mais nada menos.

Mas voltemos à história de Jordan Belfort.

O jovem lobo vai fazer fortuna num local menos "sexy" do que Manhattan. Com um amigo cria a Stratton Oakmont, uma empresa que se dedica a comercializar acções de "pequenas" empresas a todo o tipo de clientela, mas que trabalha sobretudo com pequenos investidores. A personagem de Leonardo DiCaprio é, antes de mais, um grande vendedor. Um homem que percebeu que para ficar rico no mercado de valores é preciso vender acções e não comprá-las.

O esquema de Belfort acaba por se desmoronar mas Scorsese nunca tenta comparar esta falência com as dificuldades vividas pela praça financeira em geral. "The Wolf of Wall Street" não explora a solução fácil de "vitimizar as vítimas". Curiosamente, os investidores que tudo perdem são apenas vozes ao telefone.

O que "The Wolf of Wall Street" pode provocar é uma certa nostalgia dos anos 80 e 90. Um mundo que parece tão próximo, tão recente, mas que era fundamentalmente diferente, tanto no domínio financeiro como em todos os outros aspectos das nossas vidas. Martin Scorsese fez um filme excelente com pessoas detestáveis mas que suscitam a inveja de qualquer um. É tentador deixar-se levar pelos argumentos do narrador e pensar: se calhar eu também tinha feito aquilo. Afinal quem é que não gostaria de viver como Jordan Belfort, nem que fosse por um dia só?

Estão abertas as inscrições para atirar a primeira pedra.

"The Wolf of Wall Street", de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Margot Robbie, Rob Reiner, Kyle Chandler, Jon Favreau, Jean Dujardin e Joanna Lumley. Raúl Reis