The Square

Como vive a outra metade

Quando uma gala de beneficência se transforma num circo...
Quando uma gala de beneficência se transforma num circo...

A cena central do filme que venceu o festival de Cannes de 2017 passa-se numa sala chique, repleta de milionários amantes de belas artes que se deliciam com um jantar de gala que, de repente, é animado pela prestação de um artista que imita um macaco.

Uma voz “off” diz “bem-vindos à selva” e os convivas começam a hesitar sobre como reagir ao “macaco”. Um dos convidados torna-se o alvo do homem-gorila, enquanto as outras pessoas baixam a cabeça com medo, enquanto observam a raiva do macaco abater-se sobre um deles. Quando a situação se torna mais violenta (e não vou estragar o prazer de ver este momento crucial de “The Square”), os convidados levam a sério a ameaça e revoltam-se contra o homem-gorila.

A performance do ator, e tudo o que se passa em seguida, evolui de divertida para perturbadora e termina como se tivesse saído direitinha de um filme de terror.

“The Square” não vai por este caminho. O exercício que faz o realizador sueco é o de passear na linha de fronteira entre o hilariante e o perturbador.

Ruben Östlund é um apaixonado pela sátira, como já demonstrou ao longo da sua carreira. O argumentista e realizador de “The Square” quer fazer uma anatomia da(s) miséria(s) humana(s) e escolheu o mundo da arte como vítima.

O protagonista do filme é Christian, o responsável de um museu de Estocolmo que se considera simpático e moderno mas é, na realidade, um imbecil, hipócrita, vaidoso e racista. Vítima de um assalto, Christian vai descobrir uma parte pobre da cidade que não conhece, numa espécie de descida ao inferno. Esta experiência revela também que afinal o homem perfeito que Christian pretende ser é apenas uma fachada.

Esta paródia do mundo das artes e dos muito ricos que alimentam os museus e as galerias está cheia de sentido de humor e desenvolve-se como uma sequência de sketches. E tudo o que acontece à personagem principal parece ter um certo simbolismo, como se de obras de arte se tratasse. Será por acaso ou “The Square” cai na sua própria armadilha?

Em Cannes, alguns críticos apontaram o dedo ao festival por escolher esta obra como a melhor de todas. A ironia é interessante: o público e o júri que se riu e escolheu o filme de Ruben Östlund não será também um alvo da sátira do sueco? E não será o mundo da Sétima Arte o exemplo último de tudo o que o sueco satiriza?

“The Square”, de Ruben Östlund, com Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary e Christopher Læssø.

Raúl Reis

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