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"The Last Bus". A suave leveza da tristeza
Opinião Cultura 1 3 min. 17.07.2022
Crítica de cinema

"The Last Bus". A suave leveza da tristeza

Crítica de cinema

"The Last Bus". A suave leveza da tristeza

Foto: DR
Opinião Cultura 1 3 min. 17.07.2022
Crítica de cinema

"The Last Bus". A suave leveza da tristeza

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A viagem do cineasta apanha a autoestrada da empatia excessiva a qualquer preço.

Suave talvez seja a palavra mais adequada para descrever "The Last Bus", o plácido diário de viagem realizado por Gillies MacKinnon. Um filme que conta a história de um inglês doente que se lança numa missão que tem por objetivo partir-nos o coração. Infelizmente, a viagem do cineasta apanha a autoestrada da empatia excessiva a qualquer preço. 

Para um filme terno que segue um senhor de avançada idade numa longa e exigente excursão de autocarro para cumprir os desejos da sua falecida esposa, esta história tem uma força emocional surpreendentemente limitada. Na verdade, fez-me pensar noutros filmes com temáticas similares, tais como "Stanno tutti bene" de Tornatore e mesmo o seu remake "Everybody’s Fine", com De Niro no principal papel, mas sobretudo o extraordinário "Kirschblüten – Hanami", de Doris Dörrie, que aconselho, embora não saiba bem se e onde o vão encontrar.

"The Last Bus" tem a virtude de não banalizar a velhice, uma armadilha na qual caiem muitos filmes bem-intencionados com protagonistas idosos.

Voltemos, contudo, a "The Last Bus". No papel do engenheiro reformado Tom temos um Timothy Spall incrivelmente envelhecido. Sabemos que o tempo passa para todos, mas Spall está mesmo mesmo mesmo com ar de muito velhinho. Adiante: mais envelhecido ou não, Spall dá à personagem tudo o que tem e consegue transmitir uma dignidade surpreendente. Pode acusar-se o ator de usar uma forma de falar estereotipada, composta principalmente por palavras ofegantes e resmungos. E isso é o único defeito na prestação do veterano.

Respeitosamente vestido e segurando as cinzas de sua falecida esposa Mary, Tom deixa a casa no ponto mais ao norte da Escócia e segue para Land’s End, no sudoeste da Inglaterra. Trata-se de uma viagem de cerca de 1.360 quilómetros, segundo o Google Maps, mas Tom vai fazê-la exclusivamente de autocarro.

Através de uma série de flashbacks elegantes (mas infelizmente sem imaginação e tão estereotipados anos 1950 que dói), ficamos a saber que os jovens Mary e Tom deixaram a casa em Land’s End por causa de uma tragédia familiar. Para fugir para o lugar o mais longe possível das dolorosas memórias, o casal foi parar à Escócia.

Agora, cabe a Tom recriar essa viagem épica no sentido contrário e levar Mary para o local de descanso final, para as suas origens. Para a jornada, Tom tem como ferramentas mapas e um passe de autocarro, que provavelmente não estará válido.

Tom é assombrado por recordações, mas os criadores de "The Last Bus" acrescentam algumas intrigas durante a viagem, sobretudo para mostrar a diversificada sociedade britânica, mas tudo se mantém muito superficial. No momento mais memorável de todos, o velho Tom enfrenta com bravura um bêbedo racista que assedia uma mulher muçulmana que usa niqab. Também o seguimos quando faz amizade com um animado grupo ucraniano que o convidam para uma festa com muito álcool e comida eslava.

Tom consegue ficar nos mesmos sítios onde dormiu com a esposa décadas atrás. Parece um milagre que alguns desses lugares ainda existam e que ele consiga localizá-los, até porque o senhor não é propriamente um perito em Google e noutras ferramentas modernas.

"The Last Bus" tem a virtude de não banalizar a velhice, uma armadilha na qual caiem muitos filmes bem-intencionados com protagonistas idosos. A personagem de Timothy Spall sente-se respeitável e capaz. Apesar de ter pontos fracos, eles nunca são retratados de forma a conseguir reações humorísticas baratas.

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É uma pena que os criadores do filme não se apoiem ainda mais na integridade de Tom e, em vez disso, nos proponham um final bastante exagerado que sugere que Tom se tornou numa espécie de Forrest Gump.

"The Last Bus" podia ser um melhor filme mas falha, sobretudo nos 'timings': segue a 30 à hora quando o limite é de 110, e às vezes desacelera quando não devia. O conjunto parece-se mais com um trajeto matinal no trânsito denso numa estrada coberta de chuva do que uma 'road trip' emotiva através do Reino Unido.

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